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Brasil Foi
o PT que pegou O governo dá sua
versão ao TCU sobre o destino de quase 2 milhões de folhetos
pagos com dinheiro público: foram entregues ao Partido dos Trabalhadores
 Marcio
Aith Ed
Ferreira/AE
 | | O
presidente Lula e os folhetos da sua Secretaria de Comunicação: confusão entre
Estado e partido |
Por quase
um ano os desdobramentos do escândalo do mensalão ofuscaram um mistério
envolvendo as contas de publicidade da Presidência da República.
No calor da CPI dos Correios, em outubro de 2005, uma auditoria do Tribunal de
Contas da União (TCU) notou que faltava a comprovação de
11 milhões de reais dos gastos da Secretaria de Comunicação
(Secom), subordinada diretamente à Presidência. O tribunal apontou
superfaturamento na aquisição de materiais gráficos e não
encontrou provas da manufatura e distribuição de quase 2 milhões
de exemplares de um total de 5 milhões de revistas e encartes que a Secom
mandou produzir. Os folhetos continham propaganda do governo e críticas
à administração anterior. A Secom não reconheceu o
diagnóstico de superfaturamento e pediu mais prazo para fornecer os comprovantes
dos encartes "desaparecidos", alegando que eles não haviam sido guardados
pelas agências de publicidade encarregadas de encomendar a execução
dos serviços gráficos.
Os documentos agora foram entregues, mas o TCU não se satisfez com o que
viu. Os papéis mostram que, por orientação de duas agências
de publicidade contratadas pela Presidência da República, os quase
2 milhões de encartes e revistas suspeitos não foram entregues mesmo
à Secom, que os encomendara, ou a qualquer outro órgão público,
como manda a lei. Foram encaminhados diretamente a diretórios municipais
do Partido dos Trabalhadores. A justificativa dada aos ministros do TCU foi pelo
caminho de que o PT estaria prestando "um favor ao Estado" ao se encarregar da
distribuição dos encartes e revistas, poupando ao Tesouro um gasto
extra. O TCU não comprou essa versão. O ministro Ubiratan Aguiar,
relator do caso, distribuiu seu voto aos demais ministros na terça-feira
passada. Nele diz, em resumo, que a explicação oficial tornou o
caso ainda mais problemático. Aguiar considera que houve uma inadmissível
confusão entre os interesses do governo e os de um partido político
que não vem a ser uma agremiação qualquer, mas o PT, que
dá sustentação política ao atual governo e por cuja
legenda o presidente da República concorre a um segundo mandato. De acordo
com Aguiar, o fato de o processo referir-se a material gráfico de propaganda
é outra agravante, uma vez que é tênue a linha que separa
a publicidade do Estado da simples propaganda eleitoral. Há cerca de um
mês o presidente Lula foi multado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
em 900.000 reais, pela acusação de ter feito propaganda eleitoral
disfarçada de campanha institucional justamente em uma das cartilhas distribuídas
pela Secom. A multa não tem relação com os encartes sumidos
que despertaram a atenção do TCU. A punição dada pelo
TSE, no entanto, mostra que o Tribunal de Contas tem razão em tentar coibir
o hábito oficial arraigado no Brasil de produzir material eleitoral disfarçado
de publicidade institucional. Sergio
Dutti/AE
 | | Duda
e Gushiken: o publicitário produziu parte do material investigado |
Aguiar pediu a abertura de um processo de tomada de contas especial para apurar
o fato, ouvir a versão dos envolvidos e aclarar o papel que tiveram no
episódio o ex-ministro Luiz Gushiken, que comandava a Secom, e os publicitários
contratados pelo governo. O relatório de Aguiar não foi votado ainda
pelo plenário. Outro ministro do TCU, Marcos Vilaça, pediu vistas
do processo, o que atrasará o julgamento. Antes de pedir vistas, o ministro
Vilaça tentou convencer seu colega Aguiar a suavizar o relatório.
O pedido foi rechaçado. Vilaça pediu, então, ao ministro
relator que retardasse a divulgação de seu voto e a deixasse para
depois das eleições. Outra negativa. Vilaça, então,
obteve a ajuda de outros ministros para barrar a publicação do voto
de Ubiratan Aguiar no Diário Oficial. Pendengas entre ministros
do TCU são comuns. O que é incomum, no caso, é um dos ministros,
Marcos Vilaça, trabalhar não para aclarar as coisas, mas para tentar
influir no voto de um colega e conseguir que seu conteúdo seja censurado.
Gustavo
Miranda/Ag. Globo
 | | O
ministro Ubiratan Aguiar, do TCU: pressões para suavizar relatório e só divulgá-lo
depois das eleições |
Encontrar
erros em contas públicas é a missão básica do TCU.
Rebarbar explicações que considera inadequadas, também. Não
haveria, portanto, razão técnica para que o ministro Vilaça
tenha se alvoroçado tanto com o caso. Pode haver motivações
políticas. Funcionários da própria Secom admitem que a versão
apresentada está longe de ser convencional. Ainda assim, sustentam que
os recibos passados pelo PT e entregues ao TCU dirimem a dúvida principal,
a de que os serviços não teriam sido executados e o dinheiro destinado
a produzir material gráfico teria sido simplesmente roubado. Seria assim
se essa constituísse a única preocupação do TCU. Não
é. Os técnicos do Tribunal de Contas que ajudaram a embasar o voto
do ministro Aguiar acham que a confusão entre partido do governo e o próprio
governo exige uma investigação mais profunda. Para ilustrarem a
sensibilidade do problema, eles lembram a proximidade entre as agências
de publicidade encarregadas de produzir o material gráfico investigado
pelo TCU e o presidente Lula. A primeira delas, a Duda Mendonça & Associados,
leva o nome do célebre marqueteiro baiano especialista em rinhas de galo,
caixa dois e contas não declaradas no exterior. A segunda é a Matisse,
originalmente de Campinas, onde atuava como empresa de médio porte até
conquistar, para surpresa geral, a conta da Presidência da República.
A Matisse pertence a Paulo de Tarso Santos, publicitário amigo do presidente
e marqueteiro das duas primeiras campanhas fracassadas de Lula ao Planalto, em
1989 e 1994. José Antonio Dias Toffoli, advogado
da Matisse, rejeita qualquer insinuação de conduta imprópria
e diz não haver ilegalidade no fato de as cartilhas terem sido entregues
ao PT "desde que fique provado que os partidos são mais eficazes na distribuição
de material e que o custo foi menor para o Estado". Assessor jurídico da
Presidência da República até julho de 2005, Toffoli considera
essa controvérsia irrelevante se comparada à propaganda institucional
do governo passado. "O material gráfico do governo FHC chegava a ser impresso
com o nome do presidente." O advogado esclarece que a Matisse entregou todo o
seu material gráfico à Secom, e não ao PT. O problema de
seu cliente com o TCU, segundo ele, se restringiria a uma acusação
de superfaturamento. Leopoldo
Silva/Folha Imagem
 | | Paulo
de Tarso Santos, dono da Matisse: seu advogado diz que o PT sabe distribuir melhor
que o governo |
Luís
Justiniano de Arantes Fernandes, advogado do ex-ministro Gushiken, diz que o objetivo
do governo foi reduzir custos com a distribuição do material via
PT. "Tal decisão permitiu a mais ampla distribuição do material
gráfico. O destino final das revistas e dos encartes era e sempre foi a
população, e a esse destino eles chegaram, por intermédio
desse canal de distribuição em que se constituiu o Partido dos Trabalhadores."
As explicações têm sua lógica. Se elas são suficientemente
fortes para arquivar o caso ou não, isso deve ser decidido pelo órgão
competente, o TCU. Por essa razão, o trabalho de bastidor do ministro Marcos
Vilaça para impedir o avanço do processo recobre-se de suspeita.
A transparência da coisa pública exige que cheguem o mais rápido
possível ao conhecimento da opinião pública o voto do ministro-relator,
as explicações dos envolvidos, bem como o resultado a ser obtido
na votação em plenário pelos demais ministros do TCU. Enquanto
isso não ocorrer, a opinião pública está no direito
de ver no caso do sumiço dos panfletos de propaganda do governo os contornos
de ilícitos muito mais sombrios do que aqueles que o ministro Vilaça
parece querer esconder. Com
reportagem de Chrystiane Silva |