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Eleições
2006
Lula está cada vez mais lá
O petista cresce nos setores que lhe eram mais críticos e pode estar ocorrendo
um fenômeno novo: o voto do pobre influenciando o do rico
 Julia
Duailibi
Depois de
mais de dois meses de campanha, o presidente Lula está a um passo de conseguir
a reeleição já no primeiro turno. Na semana passada, o instituto
Datafolha divulgou uma nova pesquisa na qual Lula lidera com 51%, contra 27% do
tucano Geraldo Alckmin e 9% de Heloísa Helena. Os números são
praticamente idênticos aos do último levantamento, divulgado uma
semana antes, mas o que chama atenção é que Lula melhorou
seu desempenho nos segmentos que vinham até agora lhe sendo mais críticos
e tudo isso depois de receber más notícias, como o crescimento
pífio de 0,5% do PIB no segundo trimestre e o recorde de 10,7% da taxa
de desemprego, o maior índice desde abril do ano passado. Lula conseguiu
ampliar o voto entre os eleitores mais ricos e escolarizados e também entre
os eleitores dos estados do Sul. Além disso, melhorou seu desempenho em
municípios que têm entre 35.000 e 100.000 eleitores, perfil de boa
parte das cidades do país, e chegou a um nível inédito de
menção espontânea: 41%. "Olhando o gráfico de evolução,
que apresenta um crescimento contínuo, percebemos que ele nunca esteve
tão favorito quanto agora", diz o cientista político Mauro Paulino,
diretor do Datafolha. Os números da pesquisa
levam uma mensagem de desalento para os estrategistas da campanha de Geraldo Alckmin,
pois mostram que duas das principais apostas do tucanato estavam erradas. A primeira
era que a campanha decolaria de vez quando se iniciasse o horário eleitoral
gratuito no rádio e na televisão. Isso não aconteceu. Na
última pesquisa antes de começar o horário eleitoral, Lula
tinha 47% das intenções de voto e Alckmin estava com 24%. Agora,
apesar das três semanas de propaganda no rádio e na televisão,
os números permanecem mais ou menos no mesmo patamar. A outra tática
do PSDB era o ataque. Há duas semanas, atendendo a apelos dos mais expressivos
líderes tucanos e pefelistas, os programas eleitorais de Alckmin começaram
a bater mais duramente em Lula. Passaram a criticar com maior clareza o escândalo
do mensalão e a falência ética representada pelo governo do
PT. A pesquisa mostra que o ataque também não surtiu efeito algum.
"A gente tapa um furo, mas tem outros e, por mais que a gente tire água
com balde, a canoa vai se enchendo", diz o senador Heráclito Fortes (PFL-PI),
um dos coordenadores da campanha tucana. Um dos
dados mais significativos sobre o desempenho de Lula nas pesquisas está
em seu índice de 41% de menções espontâneas, que são
aquelas em que o eleitor informa a identidade de seu candidato sem consultar a
lista com os nomes. Essa taxa revela o voto mais consolidado, um voto que tende
a se manter até o dia do pleito. Com Lula cravando 41% nesse quesito, Alckmin
aparece com apenas 17% em menções espontâneas. O índice
de Lula é um recorde. Desde a redemocratização do país,
em 1985, nunca um candidato chegou a um nível tão alto. As pesquisas
não medem a razão do recorde de Lula, mas o fato de ser uma personalidade
conhecida em todos os cantos do país, e de estar concorrendo ao Palácio
do Planalto pela quinta vez consecutiva, o que também é um recorde,
certamente ajuda Lula a ter sua candidatura tão firmemente cristalizada
no eleitor. Até agora, o melhor desempenho em menções espontâneas
era o de Fernando Henrique Cardoso, que, às vésperas de ser reeleito
em 1998, obteve 39% nesse quesito. "A três semanas da eleição,
esse favoritismo de Lula é histórico e nunca foi tão forte.
Nenhum candidato a presidente teve índices tão grandes na pesquisa
espontânea e na estimulada", constata Mauro Paulino, do Datafolha.
Com seu voto cada vez mais consolidado, Lula parece ter conseguido
superar seu maior desafio nesta campanha eleitoral: esconder-se da corrupção
que enlameou seu partido e seu governo. "A maneira como a oposição
tratou a corrupção demonizou toda a classe política", afirma
o cientista político Fernando Abrucio, da Fundação Getulio
Vargas. "Só que Lula, entre os candidatos, é o que tem a imagem
menos atrelada a essa classe política. O eleitor vê Lula como alguém
do povo", completa ele. Isso pode estar levando o quadro eleitoral a produzir
um fenômeno novíssimo: as camadas mais pobres e menos escolarizadas
do país estariam influenciando a decisão dos estratos mais ricos
e escolarizados. "É uma tendência, que só poderemos verificar
se foi concretizada na próxima pesquisa. É um movimento pouco usual.
A tendência é que a influência saia dos segmentos mais altos
e se espalhe para os mais baixos", diz Paulino, do Datafolha. Os números
mostram que algo nesse sentido pode mesmo estar acontecendo. A preferência
por Lula entre as camadas mais ricas do eleitorado, cuja renda familiar é
superior a dez salários mínimos, subiu 6 pontos, passando de 29%
para 35%. Entre os mais escolarizados, aconteceu um crescimento na mesma proporção,
projetando a preferência por Lula de 28% para 34%. Nesses segmentos, Alckmin
mantém-se na dianteira, mas, no caso do eleitor mais escolarizado, oscilou
para baixo, de 37% para 36%, e entre os mais ricos caiu mesmo, de 42% para 38%.
Os maus resultados de Alckmin têm levado os tucanos a fazer um eterno adiamento
do início efetivo da campanha. Antes, diziam que Alckmin começaria
a reagir quando a campanha fosse oficialmente aberta. Depois, era preciso esperar
a Copa do Mundo. Mais tarde, tudo mudaria com o início do horário
eleitoral no rádio e na TV. Agora, por fim, os tucanos afirmam que campanha
eleitoral se define mesmo nos últimos quinze dias. A conferir. |