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Edição 1973 . 13 de setembro de 2006

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Eleições 2006

Lula está cada vez mais lá

O petista cresce nos setores que lhe eram mais críticos e pode estar ocorrendo um fenômeno novo: o voto do pobre influenciando o do rico


Julia Duailibi

NESTA REPORTAGEM
Quadro: A corrida pela presidência

Depois de mais de dois meses de campanha, o presidente Lula está a um passo de conseguir a reeleição já no primeiro turno. Na semana passada, o instituto Datafolha divulgou uma nova pesquisa na qual Lula lidera com 51%, contra 27% do tucano Geraldo Alckmin e 9% de Heloísa Helena. Os números são praticamente idênticos aos do último levantamento, divulgado uma semana antes, mas o que chama atenção é que Lula melhorou seu desempenho nos segmentos que vinham até agora lhe sendo mais críticos – e tudo isso depois de receber más notícias, como o crescimento pífio de 0,5% do PIB no segundo trimestre e o recorde de 10,7% da taxa de desemprego, o maior índice desde abril do ano passado. Lula conseguiu ampliar o voto entre os eleitores mais ricos e escolarizados e também entre os eleitores dos estados do Sul. Além disso, melhorou seu desempenho em municípios que têm entre 35.000 e 100.000 eleitores, perfil de boa parte das cidades do país, e chegou a um nível inédito de menção espontânea: 41%. "Olhando o gráfico de evolução, que apresenta um crescimento contínuo, percebemos que ele nunca esteve tão favorito quanto agora", diz o cientista político Mauro Paulino, diretor do Datafolha.

Os números da pesquisa levam uma mensagem de desalento para os estrategistas da campanha de Geraldo Alckmin, pois mostram que duas das principais apostas do tucanato estavam erradas. A primeira era que a campanha decolaria de vez quando se iniciasse o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Isso não aconteceu. Na última pesquisa antes de começar o horário eleitoral, Lula tinha 47% das intenções de voto e Alckmin estava com 24%. Agora, apesar das três semanas de propaganda no rádio e na televisão, os números permanecem mais ou menos no mesmo patamar. A outra tática do PSDB era o ataque. Há duas semanas, atendendo a apelos dos mais expressivos líderes tucanos e pefelistas, os programas eleitorais de Alckmin começaram a bater mais duramente em Lula. Passaram a criticar com maior clareza o escândalo do mensalão e a falência ética representada pelo governo do PT. A pesquisa mostra que o ataque também não surtiu efeito algum. "A gente tapa um furo, mas tem outros e, por mais que a gente tire água com balde, a canoa vai se enchendo", diz o senador Heráclito Fortes (PFL-PI), um dos coordenadores da campanha tucana.

Um dos dados mais significativos sobre o desempenho de Lula nas pesquisas está em seu índice de 41% de menções espontâneas, que são aquelas em que o eleitor informa a identidade de seu candidato sem consultar a lista com os nomes. Essa taxa revela o voto mais consolidado, um voto que tende a se manter até o dia do pleito. Com Lula cravando 41% nesse quesito, Alckmin aparece com apenas 17% em menções espontâneas. O índice de Lula é um recorde. Desde a redemocratização do país, em 1985, nunca um candidato chegou a um nível tão alto. As pesquisas não medem a razão do recorde de Lula, mas o fato de ser uma personalidade conhecida em todos os cantos do país, e de estar concorrendo ao Palácio do Planalto pela quinta vez consecutiva, o que também é um recorde, certamente ajuda Lula a ter sua candidatura tão firmemente cristalizada no eleitor. Até agora, o melhor desempenho em menções espontâneas era o de Fernando Henrique Cardoso, que, às vésperas de ser reeleito em 1998, obteve 39% nesse quesito. "A três semanas da eleição, esse favoritismo de Lula é histórico e nunca foi tão forte. Nenhum candidato a presidente teve índices tão grandes na pesquisa espontânea e na estimulada", constata Mauro Paulino, do Datafolha.

Com seu voto cada vez mais consolidado, Lula parece ter conseguido superar seu maior desafio nesta campanha eleitoral: esconder-se da corrupção que enlameou seu partido e seu governo. "A maneira como a oposição tratou a corrupção demonizou toda a classe política", afirma o cientista político Fernando Abrucio, da Fundação Getulio Vargas. "Só que Lula, entre os candidatos, é o que tem a imagem menos atrelada a essa classe política. O eleitor vê Lula como alguém do povo", completa ele. Isso pode estar levando o quadro eleitoral a produzir um fenômeno novíssimo: as camadas mais pobres e menos escolarizadas do país estariam influenciando a decisão dos estratos mais ricos e escolarizados. "É uma tendência, que só poderemos verificar se foi concretizada na próxima pesquisa. É um movimento pouco usual. A tendência é que a influência saia dos segmentos mais altos e se espalhe para os mais baixos", diz Paulino, do Datafolha. Os números mostram que algo nesse sentido pode mesmo estar acontecendo. A preferência por Lula entre as camadas mais ricas do eleitorado, cuja renda familiar é superior a dez salários mínimos, subiu 6 pontos, passando de 29% para 35%. Entre os mais escolarizados, aconteceu um crescimento na mesma proporção, projetando a preferência por Lula de 28% para 34%. Nesses segmentos, Alckmin mantém-se na dianteira, mas, no caso do eleitor mais escolarizado, oscilou para baixo, de 37% para 36%, e entre os mais ricos caiu mesmo, de 42% para 38%. Os maus resultados de Alckmin têm levado os tucanos a fazer um eterno adiamento do início efetivo da campanha. Antes, diziam que Alckmin começaria a reagir quando a campanha fosse oficialmente aberta. Depois, era preciso esperar a Copa do Mundo. Mais tarde, tudo mudaria com o início do horário eleitoral no rádio e na TV. Agora, por fim, os tucanos afirmam que campanha eleitoral se define mesmo nos últimos quinze dias. A conferir.

 
 
 
 
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