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Edição 2073

13 de agosto de 2008
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Olimpíada | Notas
Cenas da China


A pimpona cidade da bola

China Foto Press/Getty Images

Contraste em campo
Estádio Olímpico de Shenyang: arquitetura imponente, grama ruim

Quando a economia chinesa se abriu para o mundo, as grandes cidades do país passaram a receber um fluxo de migração interna que viria a suprir de mão-de-obra suas nascentes indústrias. Em Shenyang, a antiga capital do império manchu, isso não aconteceu. A cidade, no nordeste da China, já era um poluidíssimo centro fabril desde o início do século XX. Assim, seus próprios moradores é que ganharam emprego em novos conglomerados que ali se instalaram, incluindo fábricas de robôs, de componentes da Boeing, a BMW e a GM. Shenyang, de 7,4 milhões de habitantes, tornou-se tremendamente bairrista. Agora está ainda mais pimpona. Além de ter ficado com um ar melhorzinho (800 empresas que o empesteavam foram transferidas da área urbana), é a sede de doze jogos do torneio olímpico de futebol. As seleções masculina e feminina do Brasil disputam ao todo quatro partidas em seu impressionante estádio de 60 000 lugares e arquitetura inspirada numa coroa de louros. Pena que a grama, pintada dias atrás, seja tão ruim.
Carlos Maranhão

 

Cabeças chacoalhantes

Adam Dean/WPN
Balada perigosa
Cartaz antidrogas em bar de Pequim: chineses descobriram o ecstasy

Em junho, a China executou seis presos condenados por tráfico de drogas e sentenciou à morte ou à prisão perpétua mais de duas dezenas de pessoas pelo mesmo crime. Tamanho rigor não tem conseguido impedir que o ecstasy se popularize por aqui. Nos clubes noturnos de cidades como Pequim e Xangai, a droga é chamada de "yaotouwan", ou "pílula que faz chacoalhar a cabeça". Como ela ainda é relativamente desconhecida no país (chegou via Hong Kong), muitos chineses acabam levando o seu apelido ao pé da letra: acreditam que, depois de tomá-la, a pessoa começa mesmo a sacudir a cabeça – enlouquecida e involuntariamente.
Thaís Oyama

 

Uma modesta proposta

A litorânea Xiamen está a uma hora e meia de avião de Xangai. Se você quiser olhar no mapa, situa-se próximo a Taiwan. Conhecida como "cidade-jardim", por dispor de uma área verde muito superior à média do país, sua região principal fica numa ilha alongada, semelhante a Manhattan, em Nova York, ligada ao continente por uma ponte parecida com a Hercílio Luz, em Florianópolis. Xiamen, apesar do ar de balneário, fabrica equipamentos eletrônicos e sedia todo ano uma feira internacional. Tem uma universidade respeitada e, há alguns anos, boa parte de seus 2 milhões de habitantes engajou-se naquele que é considerado o mais barulhento ato de resistência civil na China. Milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra a decisão de Pequim de construir uma fábrica poluidora na cidade. Venceram a parada. Foi em tal centro civilizado, limpo e organizado que este repórter teve um choque cultural com dimensões incanceláveis de trauma. Convidado a jantar por cinco chineses gentis, ele viu-se obrigado a desviar o olhar para uma televisão ligada enquanto os anfitriões comiam. Educados em outros aspectos da vida social, os cinco chineses gentis transformaram-se à mesa, emitindo ruídos indescritíveis e comportando-se de modo pouco apropriado até mesmo para a solidão de um toalete. A certa altura, um deles passou a comer diretamente do prato – sem as mãos ou qualquer instrumento que levasse as iguarias à boca. É sabido que certos hábitos chineses, por fato de cultura, são um tanto diferentes. Mas, assim como há uma campanha em curso para ensinar a população da China a não jogar lixo na calçada e a não cuspir em público, talvez o governo possa fazer uma segunda que estimule a prática das boas maneiras ocidentais. É a modesta proposta deste repórter que não acredita em relativismo cultural, principalmente durante as refeições.
Mario Sabino



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