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13 de agosto de 2008
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Cidades
Lei da caloria zero

Vereadores de Los Angeles proíbem a abertura de lanchonetes de fast-food na zona sul da cidade, que concentra a população de baixa renda e tem um índice de obesidade superior ao dos outros bairros


Roberta de Abreu Lima

David Mcnew/Getty Images
Selva de colesterol
Lanchonetes numa rua da zona sul de Los Angeles: a violência afugenta os donos de quitandas e os supermercados

Com o índice de obesidade na casa de 34% da população adulta e 16% da infantil, os Estados Unidos estão em alerta contra os efeitos nefastos do excesso de calorias. Em matéria de combate à gordura, porém, até hoje não se viu no país nada semelhante ao que ocorre em Los Angeles, na Califórnia. Na semana passada, a câmara municipal aprovou uma lei que proíbe a abertura de novas lanchonetes de fast-food na zona sul da cidade, região que concentra os moradores de baixa renda. A proibição cobre uma área de 83 quilômetros quadrados, o equivalente a duas vezes o bairro carioca da Barra da Tijuca. Na área vivem 500 000 pessoas. A norma será válida por um ano, com possibilidade de ser prorrogada. A entrada em vigor da lei ainda depende da assinatura do prefeito Antonio Villaraigosa, mas tudo indica que ele irá sancioná-la, já que ela foi aprovada pela câmara por unanimidade. Segundo o raciocínio dos legisladores, com menos opções de lanchonetes que oferecem hambúrguer, pizza e frango frito a população seria estimulada a procurar alimentos mais saudáveis. Na zona sul de Los Angeles, 45% dos restaurantes são de fast-food, contra apenas 19% nas regiões mais vistosas da cidade, como Hollywood e Beverly Hills. A câmara também prevê incentivos econômicos a empresários dispostos a instalar lanchonetes, restaurantes e empórios de alimentos que ofereçam saladas e cardápios menos calóricos. "Precisamos atrair para esses bairros estabelecimentos que ofereçam uma alimentação saudável, e devemos fazê-lo de maneira agressiva", diz a autora da proposta, Jan Perry.

A lei anti-hambúrguer de Los Angeles pode parece discriminatória. Afinal, por que a cidade decide intervir no que comem os pobres e não faz o mesmo com os ricos? Proibir os salgadinhos e refrigerantes nas cantinas escolares faz sentido, já que as crianças podem não compreender os riscos que seu consumo abusivo representa. Mas será que os adultos precisam de quem lhes determine o que comer? Para os defensores da proibição, ela se justifica, em grande parte, pelas peculiaridades da zona sul de Los Angeles. Além de abrigar a população pobre, a região é também a que apresenta a maior taxa de criminalidade. Em 1992, ela foi palco de alguns dos piores distúrbios de rua ocorridos nos Estados Unidos. A pretexto de protestar contra a decisão de um júri que absolveu policiais brancos filmados surrando um motorista negro, turbas enfurecidas promoveram saques e destruição, causando um prejuízo calculado em 1 bilhão de dólares.

A disseminação de gangues criminosas é um dos motivos pelos quais o bairro tem poucas opções de alimentação saudável – diante da violência, muitos donos de mercados e armazéns preferem fechar as portas e se bandear para outras regiões. Por causa disso, muitos habitantes da área nem sequer têm onde comprar legumes e verduras perto de casa – mas não faltam lanchonetes de fast-food. Outra justificativa para a lei anti-hambúrguer é que a obesidade ocorre principalmente entre as pessoas de baixa renda. Essa faixa da pirâmide social consome mais alimentos ricos em gorduras e carboidratos, não se sente seduzida pela mania do culto ao corpo ou não tem tempo e condições financeiras para fazer exercícios físicos em academias. No Brasil ocorre o mesmo fenômeno. Segundo um estudo da Universidade de São Paulo, entre 1995 e 2003, o número de brasileiras obesas pertencentes às classes D e E cresceu 30% na Região Sudeste. No mesmo período e região, houve queda de 40% na taxa de obesidade entre as mulheres das classes A e B.

A aprovação da lei contra a fast-food em Los Angeles repercutiu positivamente entre vereadores de outras cidades. A prefeitura de Nova York estuda tomar medida semelhante. A obesidade, nos Estados Unidos, é hoje considerada um problema de saúde pública. Nas escolas, tornou-se corriqueiro medir o índice de massa corpórea das crianças – e enviar cartas aos pais alertando-os sobre a possibilidade de que elas se tornem obesas. Diante disso, não é difícil compreender a atitude dos vereadores de Los Angeles, mesmo que a lei aprovada seja controversa.

 




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