Carta ao Leitor
Autos da devassa telefônica
Gustavo
Miranda/Ag. O Globo
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Operação
escuta
O delegado Protógenes
(de gravata vermelha) é ouvido na CPI dos
Grampos: a quebra do sigilo em discussão |
Uma reportagem exclusiva
desta edição de VEJA mostra que o abuso da espionagem
telefônica, com ou sem a autorização da
Justiça, chegou ao ponto do inaceitável no Brasil.
Se ninguém está a salvo dos grampos, nem o presidente
Lula nem o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar
Mendes, como relata a reportagem, o que o cidadão comum
pode esperar? O ministro da Justiça, Tarso Genro, em
sua proverbial capacidade de morrer pela boca, sugeriu que
os brasileiros deveriam se acostumar com essa situação.
A solução não pode ser essa. É
preciso disciplinar o uso oficial de grampos e punir severamente
seu uso não autorizado. Em seu Artigo 5º, a Constituição
brasileira ampara o princípio da inviolabilidade do
sigilo das comunicações. É, portanto,
um grave despropósito que o próprio ministro
da Justiça tolere a violação acintosa
e repetida de um direito fundador da vida civilizada e pregue
sua aceitação passiva.
A Constituição
prevê que as autoridades podem em "último
caso" recorrer à quebra do sigilo. Ocorre que
elas têm recorrido com uma freqüência que
beira a leviandade e, pior, sem que da devassa eletrônica
resultem provas capazes de instruir processos sólidos
o bastante para manter os criminosos na cadeia. Exemplo mais
recente disso vem da notória Operação
Satiagraha, cujo condutor, o delegado Protógenes Queiroz,
prestou depoimento na semana passada à CPI dos Grampos.
O delegado defendeu o uso de grampos telefônicos mesmo
admitindo que essa prática muitas vezes não
é executada dentro dos limites permitidos pelos juízes.
Dizem os cínicos que pouca gente, mas pouca gente mesmo,
resiste a cinco minutos de grampo. Pois a "organização
criminosa" investigada por Protógenes sofreu 55
000 horas de grampo sem que delas surgisse prova de delito
capaz de se sustentar na Justiça. Está claro
que, ao fazer da espionagem eletrônica a única
arma de investigação, a Operação
Satiagraha produziu mais uma contribuição única
do Brasil para o mundo: o estado policial que não policia.