Edição 1815 . 13 de agosto de 2003

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Televisão
O bom samaritano

Onde houver uma boa causa a defender,
lá estará o noveleiro Manoel Carlos


Sérgio Martins

 
Divulgação

IMPUNIDADE NA MIRA
Fernanda (Vanessa Gerbelli), na cena da bala perdida: mote para campanha, com direito até a passeata

Se existe um candidato ao título de bom samaritano na televisão brasileira atual, é o noveleiro Manoel Carlos. Na condição de autor do folhetim Mulheres Apaixonadas, da Rede Globo, ele tem feito apologia de várias causas politicamente corretas. No começo da novela, o casal de velhinhos formado pelos atores Carmem Silva e Oswaldo Louzada fez campanha pela vacinação dos idosos contra a gripe. Em seguida, o drama da ciumenta Heloísa serviu de mote para que se divulgasse o trabalho de um grupo de apoio à mulher. Ultimamente, fala-se na prevenção do câncer de mama. E a partir desta semana, na esteira do episódio em que a personagem Fernanda (Vanessa Gerbelli) é fulminada por uma bala perdida, virá por aí uma cruzada contra a impunidade. Prestar esse tipo de ação social em novelas não é novidade – até porque vitamina o ibope. Em Explode Coração, para ficar num exemplo, a autora Glória Perez levou à TV o drama das crianças desaparecidas. O caso de Manoel Carlos, no entanto, é peculiar. Ao mesmo tempo que faz campanhas populares barulhentas, ele abraça causas culturais que muita gente daria por perdidas. Volta e meia, põe o casal de velhinhos para dar uma força ao Retiro dos Artistas, que abriga veteranos da profissão. E, se em seu folhetim anterior, Laços de Família, fazia propaganda dos livros, desta vez elegeu a música como prioridade. Graças à sua mãozinha, dois artistas – o maestro Laércio de Freitas e o saxofonista J.T. Meirelles – estão dando uma bela sacudida em suas carreiras.

Duvulgação
CANJA NO NICK BAR: Freitas (à esq., ao piano): ele toca de mentirinha, mas está tendo vantagens reais graças à participação na novela

Freitas e Meirelles têm algo em comum, além do fato de serem respeitados no meio musical: suas carreiras andavam em baixa. Tudo começou a mudar quando Manoel Carlos, que os conhece desde os anos 60, nos tempos em que era diretor do extinto programa O Fino da Bossa, na Rede Record, deu um jeito de encaixá-los na trama. A presença de ambos em Mulheres Apaixonadas gira em torno da banda em que Téo, o personagem de Tony Ramos, toca saxofone. Freitas, de 62 anos, atua como o pianista do conjunto, que anima as noitadas (nem um pouco animadas, por sinal) do Nick Bar – que é, digamos, uma versão musicalmente correta do bar da Dona Jura, cenário da novela O Clone em que pagodeiros famosos apareciam para comer um pastel e divulgar suas músicas. Ainda que tenha de tocar de mentirinha – "ali, até o piano é cenográfico", brinca –, a decisão de participar da novela não poderia ter sido melhor. Graças a ela, seus discos estão sendo relançados. E ele voltou a receber convites para shows, coisa que andava escassa.

A participação de Meirelles na novela é ainda menos que figurativa. Ele não aparece em cena, mas, toda vez que o personagem de Tony Ramos se atrasa, os donos da boate ameaçam "chamar o Meirelles". Um dos criadores do estilo conhecido como samba-jazz, o saxofonista voltou a sorrir depois de virar citação recorrente no folhetim: acaba de receber a notícia de que três discos seus e do seu grupo, o Copa 5, irão sair numa caixa especial, entre outras novidades que sinalizam uma retomada na carreira. As campanhas de massa encampadas por Manoel Carlos são, é claro, muito mais eloqüentes que essas pequenas ações de samaritano. Nos três meses em que se discutiu a doação de medula para a personagem Camila, em Laços de Família, a média de doadores voluntários saltou de vinte para 900 por mês no país. A cruzada contra a impunidade também deve produzir barulho – está nos planos da Globo organizar até uma passeata para dar mais realismo às cenas da novela.

 
 
 
 
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