Edição 1815 . 13 de agosto de 2003

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Me assuta que eu gosto

Você sofre, mas não perde um bom filme
de horror? Stephen King explica


Marcelo Marthe

 
King: ele é uma enciclopédia do terror


Trechos de Dança Macabra
Perfil: Stephen King e suas obras

O horror é um fenômeno cultural intrigante. Muita tinta já foi gasta na tentativa de explicar por que o gênero, com suas histórias povoadas por monstros, aberrações e psicopatas sedentos de sangue, exerce tanto fascínio. Coube ao americano Stephen King – o bem-sucedido autor de best-sellers como Carrie, a Estranha e O Iluminado – escrever aquele que é o mais popular tratado sobre o tema. Lançado originalmente em 1981 e havia anos fora de catálogo no Brasil, Dança Macabra (tradução de Louisa Ibañez; Objetiva; 260 páginas; 34,90 reais) acaba de ganhar uma reedição. É bom avisar que, assim como em seus romances, esmero estilístico não é o forte de King: ele exprime pensamentos de forma errática e não raro descamba para a grosseria, com palavrões e tudo o mais. Mas isso é compensado por seu conhecimento enciclopédico do assunto. Movendo-se com desenvoltura no terreno do macabro, King apresenta idéias e análises interessantes a respeito do horror na literatura, no rádio, na televisão e, sobretudo, no cinema – área em que se concentram suas melhores reflexões. Um atrativo adicional para os fãs é que ele preenche alguns capítulos com reminiscências autobiográficas. Apesar de cobrir apenas até o ano de 1980, o livro fornece ferramentas para dissecar o que se produziu no gênero desde então.

Em Dança Macabra, King procura desvendar os mecanismos psicológicos que levam as pessoas a encontrar prazer no horror (veja quadro). O gênero, diz ele, oferece a possibilidade de lidar com os temores mais primitivos de forma controlada e segura. O escritor compara a experiência de assistir a uma produção sanguinolenta à diversão numa montanha-russa: você entra nela sabendo que sentirá um frio na barriga, mas sai ileso e reconfortado. O horror funciona também como uma válvula de escape para emoções inconscientes. "É um convite para voltarmos a nossos instintos tribais e experimentar a sensação da selvageria", diz o autor. Por meio do terror, pode-se até exercitar as fantasias sexuais reprimidas. King tem páginas divertidas sobre a sensualidade no gênero. Cita como exemplo o clássico Drácula, do irlandês Bram Stoker. O livro contém trechos para lá de picantes para a recatada Inglaterra do século XIX. O componente libidinoso é introduzido na trama pelos vampiros – que infligem sua sensualidade aos mortais indefesos. Como os homens foram forçados a fazer aquilo tudo, não há por que sentir culpa. "É como se uma voz tranqüilizasse o leitor: essa coisa é maior do que você, meu bem, não adianta resistir", escreve King, numa tirada típica.

Na visão do escritor, os conflitos políticos, as crises econômicas e morais e as inquietudes tecnológicas de cada época tendem a tingir o horror produzido no período. Os enredos são metáforas – deliberadas ou não – de angústias reais do presente. Há o horror político em que se enquadra, notoriamente, um filme como Vampiros de Almas (1956), de Don Siegel. Lançado no auge na Guerra Fria, ele narra como forças alienígenas assumem as identidades dos moradores de uma cidade americana – trama interpretada ora como uma alegoria anticomunista, ora como uma crítica ao macarthismo. Sob o rótulo do tecno-horror – uma categoria tão antiga, ao menos, quanto o Frankenstein de Mary Shelley (1797-1851) –, King agrupa as histórias que lidam com a ansiedade em relação aos avanços da tecnologia. O escritor faz ainda uma leitura curiosa de O Exorcista (1973): a fita seria um exemplo de horror social, pois pode ser vista como uma metáfora do conflito de gerações de sua época. A garota possuída pelo demônio representaria, especula ele, os jovens rebeldes da era da liberação sexual, do rock'n'roll e das drogas – a moral da história é que eles seriam uma ameaça à família. "A besta-fera é do tipo que se esbaldaria nos banhos de lama do Festival de Woodstock", brinca King.

Aplicar as idéias de Dança Macabra à produção de 1980 para cá é um exercício interessante. O horror sempre foi um campo em que não há limites para a experimentação – seja o resultado inovador ou apenas ridículo. No cinema, por exemplo, volta e meia surgem novidades na forma de narrar uma boa história de terror. Por baixo das narrativas arrojadas, porém, as razões que prendem o espectador e os subgêneros de que fala King permanecem intactos. Tome-se o exemplo de A Bruxa de Blair. O filme causou impacto por explorar com maestria aqueles temores atávicos de sempre: medo do escuro, medo de se perder e de se ver diante do desconhecido. Mas também é possível fazer uma leitura de A Bruxa de Blair enquanto horror social: sua trama funciona como uma crítica à juventude cínica e individualista de seu tempo, simbolizada nos três estudantes que entram na floresta zombando das crendices locais a respeito do sobrenatural – e acabam recebendo a sua lição.


 
Fotos: ParamFotos: Paramont Picutres, 20TH Century Fox, Ralph Nelson e Divulgação



 
 
 
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