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Livros
Me
assuta que eu gosto
Você
sofre, mas não perde um bom filme
de horror? Stephen King explica

Marcelo
Marthe
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| King:
ele é uma enciclopédia do terror |
O
horror é um fenômeno cultural intrigante. Muita tinta
já foi gasta na tentativa de explicar por que o gênero,
com suas histórias povoadas por monstros, aberrações
e psicopatas sedentos de sangue, exerce tanto fascínio. Coube
ao americano Stephen King o bem-sucedido autor de best-sellers
como Carrie, a Estranha e O Iluminado escrever
aquele que é o mais popular tratado sobre o tema. Lançado
originalmente em 1981 e havia anos fora de catálogo no Brasil,
Dança Macabra (tradução de Louisa
Ibañez; Objetiva; 260 páginas; 34,90 reais) acaba
de ganhar uma reedição. É bom avisar que, assim
como em seus romances, esmero estilístico não é
o forte de King: ele exprime pensamentos de forma errática
e não raro descamba para a grosseria, com palavrões
e tudo o mais. Mas isso é compensado por seu conhecimento
enciclopédico do assunto. Movendo-se com desenvoltura no
terreno do macabro, King apresenta idéias e análises
interessantes a respeito do horror na literatura, no rádio,
na televisão e, sobretudo, no cinema área em
que se concentram suas melhores reflexões. Um atrativo adicional
para os fãs é que ele preenche alguns capítulos
com reminiscências autobiográficas. Apesar de cobrir
apenas até o ano de 1980, o livro fornece ferramentas para
dissecar o que se produziu no gênero desde então.
Em Dança Macabra, King procura desvendar os mecanismos
psicológicos que levam as pessoas a encontrar prazer no horror
(veja quadro). O gênero, diz ele, oferece a possibilidade
de lidar com os temores mais primitivos de forma controlada e segura.
O escritor compara a experiência de assistir a uma produção
sanguinolenta à diversão numa montanha-russa: você
entra nela sabendo que sentirá um frio na barriga, mas sai
ileso e reconfortado. O horror funciona também como uma válvula
de escape para emoções inconscientes. "É um
convite para voltarmos a nossos instintos tribais e experimentar
a sensação da selvageria", diz o autor. Por meio do
terror, pode-se até exercitar as fantasias sexuais reprimidas.
King tem páginas divertidas sobre a sensualidade no gênero.
Cita como exemplo o clássico Drácula, do irlandês
Bram Stoker. O livro contém trechos para lá de picantes
para a recatada Inglaterra do século XIX. O componente libidinoso
é introduzido na trama pelos vampiros que infligem
sua sensualidade aos mortais indefesos. Como os homens foram forçados
a fazer aquilo tudo, não há por que sentir culpa.
"É como se uma voz tranqüilizasse o leitor: essa coisa
é maior do que você, meu bem, não adianta resistir",
escreve King, numa tirada típica.
Na visão do escritor, os conflitos políticos, as crises
econômicas e morais e as inquietudes tecnológicas de
cada época tendem a tingir o horror produzido no período.
Os enredos são metáforas deliberadas ou não
de angústias reais do presente. Há o horror
político em que se enquadra, notoriamente, um filme como
Vampiros de Almas (1956), de Don Siegel. Lançado no
auge na Guerra Fria, ele narra como forças alienígenas
assumem as identidades dos moradores de uma cidade americana
trama interpretada ora como uma alegoria anticomunista, ora como
uma crítica ao macarthismo. Sob o rótulo do tecno-horror
uma categoria tão antiga, ao menos, quanto o Frankenstein
de Mary Shelley (1797-1851) , King agrupa as histórias
que lidam com a ansiedade em relação aos avanços
da tecnologia. O escritor faz ainda uma leitura curiosa de O
Exorcista (1973): a fita seria um exemplo de horror social,
pois pode ser vista como uma metáfora do conflito de gerações
de sua época. A garota possuída pelo demônio
representaria, especula ele, os jovens rebeldes da era da liberação
sexual, do rock'n'roll e das drogas a moral da história
é que eles seriam uma ameaça à família.
"A besta-fera é do tipo que se esbaldaria nos banhos de lama
do Festival de Woodstock", brinca King.
Aplicar as idéias de Dança Macabra à
produção de 1980 para cá é um exercício
interessante. O horror sempre foi um campo em que não há
limites para a experimentação seja o resultado
inovador ou apenas ridículo. No cinema, por exemplo, volta
e meia surgem novidades na forma de narrar uma boa história
de terror. Por baixo das narrativas arrojadas, porém, as
razões que prendem o espectador e os subgêneros de
que fala King permanecem intactos. Tome-se o exemplo de A Bruxa
de Blair. O filme causou impacto por explorar com maestria aqueles
temores atávicos de sempre: medo do escuro, medo de se perder
e de se ver diante do desconhecido. Mas também é possível
fazer uma leitura de A Bruxa de Blair enquanto horror social:
sua trama funciona como uma crítica à juventude cínica
e individualista de seu tempo, simbolizada nos três estudantes
que entram na floresta zombando das crendices locais a respeito
do sobrenatural e acabam recebendo a sua lição.
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