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Cinema
Cortes
fortes
Em Amarelo Manga, só o desejo
sobrevive à sordidez

Isabela
Boscov
Divulgação
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Nachtergaele e Diaz: pesadelo |
A
dona de um boteco, o cozinheiro homossexual de um hotel sujo, um
necrófilo, um açougueiro que trabalha num matadouro:
a vida não é um mar de rosas para os personagens de
Amarelo Manga (Brasil, 2002), que estréia nesta
sexta-feira no país. Dirigido pelo pernambucano Cláudio
Assis a partir de seu curta Texas Hotel, de 1999, Amarelo
Manga vai além de retratar a sordidez da vida na periferia
de uma grande cidade (no caso, Recife). O que ele mostra é
como nem a sordidez mais completa é capaz de matar o desejo.
Todos os quatro protagonistas (interpretados por Leona Cavalli,
Matheus Nachtergaele, Jonas Bloch e Chico Diaz) querem algo desesperadamente.
O cozinheiro quer o açougueiro, este quer segurança
e sexo que não encontra numa única mulher ,
a dona do bar quer algo que não seja a monotonia incessante.
Assis filma essas histórias em tons de amarelo e vermelho,
com um naturalismo tão exacerbado que cria a sensação
oposta: a de um pesadelo quase que forte demais para ser real. Essa
vitalidade mais do que justifica os prêmios que o filme recebeu
em festivais como o de Brasília e o de Berlim. Se há
ressalvas a ser feitas, elas são a insistência nas
atuações teatrais e o vício, de longa tradição
na ficção nacional, de encher as falas de palavrões
ditos em tom de afronta. Amarelo Manga tem pernas fortes
o bastante para se sustentar sem essas muletas.
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