Edição 1815 . 13 de agosto de 2003

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Música
A vez do corazón

Balada romântica do quarteto Maná
vence a
resistência brasileira às canções
em espanhol


Sergio Martins

Divulgação
Os roqueiros mexicanos do Maná: "Gostamos de mulatas e caipirinha"


PARA OUVIR:
TRECHOS DE MÚSICAS DA BANDA
Ay, Doutor
Justicia, Tierra y Libertad
Vivir sin Aire

Há duas semanas, a música que mais toca nas rádios brasileiras é uma balada romântica daquelas bem derramadas, em que o sujeito diz que a vida é insuportável sem a amada ao seu lado. Tudo bem trivial, não fosse por um detalhe: em vez de rimar coração com aflição, a letra rima corazón com aflicción (e também com cajón, que quer dizer "caixotão"). Trata-se, enfim, de uma canção cantada em castelhano. E isso é uma surpresa, visto que o apreço dos brasileiros pela música latina é semelhante ao que eles têm pela Seleção Argentina de Futebol: algo próximo do zero. Só muito raramente artistas dessa origem conseguem quebrar o gelo por aqui – exatamente a proeza realizada pela banda mexicana Maná, autora do hit em questão, Vivir sin Aire.

É possível contar nos dedos os cantores de língua espanhola que fizeram sucesso no Brasil nos últimos dez anos ou mais. Parte do problema é lingüístico – embora muito próximo do português, o espanhol soa áspero aos ouvidos brasileiros. Há também algum preconceito por parte do público mais jovem, que associa a língua aos boleros que os avós escutavam no namoro. Seja como for, o panteão ficou restrito a alguns cantores melosos, como Julio Iglesias e Luis Miguel, e a algumas estrelas pop, como Shakira e Ricky Martin. Desses, só Shakira e Iglesias conseguiram vendagens realmente estrondosas no Brasil – a primeira com 750.000 cópias do CD Pies Descalzos (1996) e o segundo com 1,9 milhão de cópias do disco De Niña a Mujer (1988). Nesse contexto, não deixa de ser uma novidade a ascensão do Maná, uma banda de rock.

A causa imediata do sucesso de Vivir sin Aire foi sua inclusão na trilha sonora da novela Mulheres Apaixonadas, como tema das namoradas Clara e Rafaela. Mesmo sem esse empurrãozinho, contudo, é provável que o Maná acabasse estourando nas rádios. Faz algum tempo que eles investem no mercado brasileiro. Têm três discos lançados aqui, com 120.000 cópias vendidas no total, já fizeram shows a troco de quase nada em casas de espetáculos de São Paulo e do Rio de Janeiro e aceitam aparecer em todo tipo de programa de rádio e televisão para promover-se. Meses atrás, foram ao Superpop, da apresentadora Luciana Gimenez. "Ela é a senhora Mick Jagger, não é isso? Muito bonita, mas meio engraçada, nem dançou direito enquanto a gente tocava", diz Fher Olvera, vocalista e líder do grupo. Formado no início da década passada, o Maná é idolatrado no México e também muito afamado internacionalmente. Misturando baladas românticas a músicas de tema político, e ritmos salerosos com guitarras de heavy metal, os "reis do rock latino" fazem sucesso até nos Estados Unidos, onde já venderam 5 milhões de discos. Do ponto de vista comercial, portanto, a aposta do Maná no Brasil está longe de ser a mais rentável que eles poderiam fazer. Por que, então, tanto interesse no país? "Gostamos de mulatas e caipirinha", diz Fher. Uepa!

 
 
 
 
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