Edição 1815 . 13 de agosto de 2003

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Clima
A Europa pega fogo

Verão quente demais pode ser indício de que se acelerou o ritmo do aquecimento global

 
AP
PORTUGAL
Avião emprestado pela Itália ajuda a combater as chamas do pior incêndio florestal registrado no país

Os europeus estão enfrentando o verão mais quente desde que começaram os registros meteorológicos, no século XIX. O calor e o ar seco criam um ambiente favorável aos incêndios florestais, que já causaram vinte mortes e devastaram 1 750 quilômetros quadrados em sete países. Os focos mais intensos apareceram na Península Ibérica e na França. Em Portugal, os incêndios consumiram 540 quilômetros quadrados de florestas e mataram quinze pessoas em apenas uma semana. O governo português precisou pedir aviões de combate às chamas emprestados de outros países, como Itália, Espanha e Marrocos. O nível de água está em situação crítica em vários reservatórios europeus e os agricultores se preparam para as perdas na safra deste ano. Na Itália, calcula-se uma queda de 50% na colheita de uvas, azeitonas, pêssegos e damascos, o que poderá resultar em prejuízos de 6 bilhões de dólares. Rios importantes, como o Danúbio, na Europa Central, estão tão rasos que os barcos tiveram de reduzir o volume de carga e passageiros para não encalhar. Em Londres, registraram-se na quarta-feira passada 35,9 graus, mais de 10 graus acima da temperatura média na cidade no verão. A questão em aberto é se uma onda de calor desse porte é ou não sinal de que alguma coisa está errada com o clima.

AP
Os pontos vermelhos e a fumaça indicam focos de incêndio em Portugal e na Espanha. Só na semana passada, o fogo consumiu uma área de florestas e aldeias equivalente à do município do Rio de Janeiro

O suspeito óbvio é o aquecimento global. A temperatura média no planeta aumentou 1 grau nos últimos 100 anos. Não há consenso sobre as causas. Muitos meteorologistas acreditam que o fenômeno seja decorrência do efeito estufa, provocado por gases poluentes. É bem possível que se trate de um fenômeno cíclico e que a Terra esteja simplesmente expurgando os derradeiros sinais do último período glacial, que terminou 10.000 anos atrás. O verão escaldante na Europa, contudo, pode ser o indício de que o aquecimento global está ocorrendo num ritmo mais acelerado que o previsto. A temperatura na região mediterrânea está agora 2 graus acima da média. Em outros pontos do continente, chega-se a 5 graus. Se o aquecimento persistir nesse ritmo, dentro de um século a temperatura média de todo o planeta não estará apenas 1, mas 6 graus mais alta. Nessa hipótese, os efeitos sobre a geografia seriam drásticos: o derretimento das geleiras polares vai causar o aumento de volume das águas dos oceanos, ilhas do Pacífico vão desaparecer e cidades costeiras serão inundadas. Outras ondas de calor varreram a Europa em 1990 e 1995. Não foram tão intensas quanto a atual, mas tiveram efeitos revolucionários sobre os estudos climáticos. No ano passado, chuvas torrenciais submergiram cidades como Dresden, na Alemanha, e Praga, na República Checa, na pior enchente dos últimos 100 anos na região.

Um dos indicadores de mudanças globais é a ocorrência dos chamados eventos climáticos extremos. São secas ou inundações catastróficas e de efeitos prolongados. Pelos dados históricos, devem ocorrer só uma vez a cada século, e não, como se está vendo, a cada dois ou três anos. "Os eventos climáticos extremos vêm acontecendo num intervalo mais curto", diz o meteorologista Michael Knobelsdorf, do Serviço de Meteorologia Alemão. "Isso é um sinal de que o clima pode estar mudando." A seca que atinge a Europa já dura mais de dois meses. Ela é provocada por uma massa de ar quente com origem no Deserto do Saara, no norte da África. Estacionou na região mediterrânea e desde então influencia o clima de todo o continente. O que surpreende os meteorologistas é a escala continental do fenômeno. As temperaturas de 30 graus estão fazendo com que as geleiras eternas dos Alpes derretam a 4.000 metros de altitude. Na semana passada, uma avalancha provocada pelo degelo inesperado matou um alpinista num ponto da Montanha Pointe Dufour, na Suíça, onde a temperatura jamais deveria subir acima de zero grau. Por medida de segurança, proibiram-se as escaladas e diversas trilhas usadas para passeio foram interditadas, para evitar acidentes. Na Itália, as temperaturas ultrapassam diariamente os 30 graus há dois meses. Em Milão, em junho, o calor chegou a 40 graus, quando o normal é 27. Na Andaluzia, sul da Espanha, região em que as temperaturas sempre são altas no verão, treze pessoas morreram e trinta foram hospitalizadas em decorrência do calor. No sul da França, um incêndio devastou 80 quilômetros quadrados de florestas e matou quatro turistas, duas semanas atrás. Em Paris, o calor chegou a 36 graus, ou 12 graus acima do esperado nesta época. Curiosamente, Atenas, a cidade que registra as temperaturas mais elevadas entre as capitais européias no verão, em que são comuns picos de mais de 40 graus, neste ano tem experimentado dias relativamente amenos. A média de temperaturas máximas tem ficado em torno dos 32 graus. Um sinal de que, de fato, o clima enlouqueceu na Europa.

 

 
 
 
 
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