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Clima
A
Europa pega fogo
Verão
quente demais pode ser indício de que se acelerou o ritmo
do aquecimento global
AP
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PORTUGAL
Avião emprestado pela Itália ajuda a combater as chamas do pior
incêndio florestal registrado no país |
Os
europeus estão enfrentando o verão mais quente desde
que começaram os registros meteorológicos, no século
XIX. O calor e o ar seco criam um ambiente favorável aos
incêndios florestais, que já causaram vinte mortes
e devastaram 1 750 quilômetros quadrados em sete países.
Os focos mais intensos apareceram na Península Ibérica
e na França. Em Portugal, os incêndios consumiram 540
quilômetros quadrados de florestas e mataram quinze pessoas
em apenas uma semana. O governo português precisou pedir aviões
de combate às chamas emprestados de outros países,
como Itália, Espanha e Marrocos. O nível de água
está em situação crítica em vários
reservatórios europeus e os agricultores se preparam para
as perdas na safra deste ano. Na Itália, calcula-se uma queda
de 50% na colheita de uvas, azeitonas, pêssegos e damascos,
o que poderá resultar em prejuízos de 6 bilhões
de dólares. Rios importantes, como o Danúbio, na Europa
Central, estão tão rasos que os barcos tiveram de
reduzir o volume de carga e passageiros para não encalhar.
Em Londres, registraram-se na quarta-feira passada 35,9 graus, mais
de 10 graus acima da temperatura média na cidade no verão.
A questão em aberto é se uma onda de calor desse porte
é ou não sinal de que alguma coisa está errada
com o clima.
AP
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| Os
pontos vermelhos e a fumaça indicam focos de incêndio
em Portugal e na Espanha. Só na semana passada, o fogo
consumiu uma área de florestas e aldeias equivalente
à do município do Rio de Janeiro |
O
suspeito óbvio é o aquecimento global. A temperatura
média no planeta aumentou 1 grau nos últimos 100 anos.
Não há consenso sobre as causas. Muitos meteorologistas
acreditam que o fenômeno seja decorrência do efeito
estufa, provocado por gases poluentes. É bem possível
que se trate de um fenômeno cíclico e que a Terra esteja
simplesmente expurgando os derradeiros sinais do último período
glacial, que terminou 10.000 anos atrás. O verão escaldante
na Europa, contudo, pode ser o indício de que o aquecimento
global está ocorrendo num ritmo mais acelerado que o previsto.
A temperatura na região mediterrânea está agora
2 graus acima da média. Em outros pontos do continente, chega-se
a 5 graus. Se o aquecimento persistir nesse ritmo, dentro de um
século a temperatura média de todo o planeta não
estará apenas 1, mas 6 graus mais alta. Nessa hipótese,
os efeitos sobre a geografia seriam drásticos: o derretimento
das geleiras polares vai causar o aumento de volume das águas
dos oceanos, ilhas do Pacífico vão desaparecer e cidades
costeiras serão inundadas. Outras ondas de calor varreram
a Europa em 1990 e 1995. Não foram tão intensas quanto
a atual, mas tiveram efeitos revolucionários sobre os estudos
climáticos. No ano passado, chuvas torrenciais submergiram
cidades como Dresden, na Alemanha, e Praga, na República
Checa, na pior enchente dos últimos 100 anos na região.
Um dos indicadores de mudanças globais é a ocorrência
dos chamados eventos climáticos extremos. São secas
ou inundações catastróficas e de efeitos prolongados.
Pelos dados históricos, devem ocorrer só uma vez a
cada século, e não, como se está vendo, a cada
dois ou três anos. "Os eventos climáticos extremos
vêm acontecendo num intervalo mais curto", diz o meteorologista
Michael Knobelsdorf, do Serviço de Meteorologia Alemão.
"Isso é um sinal de que o clima pode estar mudando." A seca
que atinge a Europa já dura mais de dois meses. Ela é
provocada por uma massa de ar quente com origem no Deserto do Saara,
no norte da África. Estacionou na região mediterrânea
e desde então influencia o clima de todo o continente. O
que surpreende os meteorologistas é a escala continental
do fenômeno. As temperaturas de 30 graus estão fazendo
com que as geleiras eternas dos Alpes derretam a 4.000 metros de
altitude. Na semana passada, uma avalancha provocada pelo degelo
inesperado matou um alpinista num ponto da Montanha Pointe Dufour,
na Suíça, onde a temperatura jamais deveria subir
acima de zero grau. Por medida de segurança, proibiram-se
as escaladas e diversas trilhas usadas para passeio foram interditadas,
para evitar acidentes. Na Itália, as temperaturas ultrapassam
diariamente os 30 graus há dois meses. Em Milão, em
junho, o calor chegou a 40 graus, quando o normal é 27. Na
Andaluzia, sul da Espanha, região em que as temperaturas
sempre são altas no verão, treze pessoas morreram
e trinta foram hospitalizadas em decorrência do calor. No
sul da França, um incêndio devastou 80 quilômetros
quadrados de florestas e matou quatro turistas, duas semanas atrás.
Em Paris, o calor chegou a 36 graus, ou 12 graus acima do esperado
nesta época. Curiosamente, Atenas, a cidade que registra
as temperaturas mais elevadas entre as capitais européias
no verão, em que são comuns picos de mais de 40 graus,
neste ano tem experimentado dias relativamente amenos. A média
de temperaturas máximas tem ficado em torno dos 32 graus.
Um sinal de que, de fato, o clima enlouqueceu na Europa.
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