Edição 1815 . 13 de agosto de 2003

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Memória
Interrompemos nossa programação

Morre aos 98 anos o empresário de comunicações Roberto Marinho, que durante
78 anos comandou as Organizações Globo
e fez de sua TV uma poderosa fonte
de influência cultural e força política


Lucila Soares

Antonio Ribeiro
Roberto Marinho nos estúdios da Globo: 74% dos televisores sintonizados no horário nobre


DOS ARQUIVOS DE VEJA
Entrevista: Roberto Marinho, o dono da TV que cresce (31/3/1971)
"O futuro de um império" (6/10/1976)
"A nova imagem da Globo" (8/6/1977)
Entrevista: José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (3/12/1997)

O jornalista e empreendedor Roberto Marinho, morto na quarta-feira passada, aos 98 anos, vítima de embolia pulmonar, foi durante um longo período da história brasileira um dos homens mais poderosos do país. Em 1965, ao inaugurar a TV Globo, Marinho, que já amealhara considerável prestígio com sua paixão, o jornal O Globo, tornou-se ainda mais influente. A emissora campeã de audiência no país encarna a síntese da capacidade empreendedora de Roberto Marinho e da equipe que ele montou, prestigiou e remunerou com generosidade reconhecida. Não é exagero dizer que a Rede Globo é uma espécie de Hollywood brasileira. Suas novelas e séries especiais tiveram papel fundamental na homogeneização da cultura de massas no Brasil, país em que 90% dos lares têm pelo menos um televisor. A criação de Roberto Marinho tirou da telenovela a pecha de programação de baixo nível, promovendo-a muitas vezes a dramaturgia de impacto e prestígio internacional, exportada para 130 países. A Globo é o coração do conglomerado de comunicação que reúne três jornais, rádios, gráfica, gravadoras e canais de TV paga, internet e uma editora de revistas e livros. A Rede Globo produz 4.420 horas de programação por ano, faturou 2,5 bilhões de reais em 2002 e é a quarta colocada no ranking mundial de TVs. No horário nobre, 74% dos televisores ligados no Brasil estão sintonizados na emissora. Sua central de produções, o Projac, no Rio de Janeiro, ocupa um terreno de 1,3 milhão de metros quadrados, fabrica cenários, figurinos, cidades inteiras.

Marinho conseguiu sua primeira concessão de TV em 1957, no governo de Juscelino Kubitschek. Na época, quem dava as cartas das comunicações no Brasil era o mitológico Assis Chateaubriand, o homem que criou os Diários Associados e colocou no ar a TV Tupi, inaugurando a era da televisão no país. Foi no processo de construção da Globo que o empresário se instalou nas altas esferas do poder do país. Logo no primeiro governo militar, foi ele o emissário do presidente Castello Branco para convidar Juracy Magalhães a ocupar o Ministério da Justiça. Poucos anos mais tarde, o mesmo Juracy Magalhães ouviria, calado, a resposta de Marinho a seu pedido para que demitisse os jornalistas militantes de esquerda. "O senhor cuida dos seus comunistas. Dos meus, cuido eu", reagiu. O pináculo de sua influência política ocorreu, sem dúvida, durante o governo Sarney. Candidatos ao Ministério das Comunicações e ao da Fazenda chegaram a ser sabatinados por Marinho, a pedido de Sarney, antes de ser efetivados no cargo. Em 1988, logo depois da demissão de Bresser Pereira do Ministério da Fazenda, Marinho foi convidado para um almoço com o presidente José Sarney. O presidente o consultou sobre a sucessão. Ele sugeriu um nome, que não vingou. Sarney solicitou ao empresário que recebesse Mailson da Nóbrega. Após o encontro, satisfeito com o que ouvira, Marinho telefonou ao presidente, que lhe pediu para anunciar o novo ministro na TV Globo. Mailson só foi comunicado da escolha depois.

Conservador na política, liberal na economia, Marinho fazia com que seus veículos de comunicação sempre tomassem posição política alinhada com seu pensamento e harmonizada com seus interesses. Não se deixou dominar pelo mito confortável da imparcialidade na imprensa. Preferiu o risco de tomar partido, o que fazia de modo transparente. Roberto Marinho se cercou de pessoas que pensavam como ele ou que, mesmo não tendo afinidades ideológicas com o chefe, agiam de modo a não contrariá-lo. Como toda organização de cultura fortemente nuclear, a Rede Globo reagia mais lentamente às mudanças. Ficou muitas vezes para trás quando os ventos sopraram mais forte na sociedade brasileira. Sua demora em começar a noticiar os megacomícios pelas eleições diretas nas capitais brasileiras em 1984 arranhou a imagem da emissora. A Globo noticiou o comício da Praça da Sé, o marco inaugural do movimento, como se fosse parte das comemorações do aniversário de São Paulo. Em compensação, derrotada a emenda pelas eleições diretas, dedicou-se à articulação da candidatura de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, contra Paulo Maluf. Em 1989, apoiou a candidatura de Fernando Collor de Mello contra Luiz Inácio Lula da Silva. Na ocasião, a Globo levou ao ar a polêmica edição do debate entre os candidatos, que é apontada como a pá de cal na primeira candidatura de Lula. Três anos depois, caudatária da indignação popular, rendeu-se com atraso ao crescimento da campanha pelo impeachment.

"Ele acreditava realmente que a imprensa é o quarto poder", lembra o advogado carioca Jorge Serpa, seu amigo por mais de quarenta anos. Mais do que isso, porém, gostava de exercer o poder. Sua única crítica a Castello Branco, que considerava o maior presidente que o Brasil já teve, era exatamente por não compartilhar do mesmo gosto. "Ele não gostava de usar o poder. E poder a gente tem de usar para que não se esqueçam que a gente o tem", disse certa vez a um colaborador. A máxima era exercida cotidianamente. Tanto em seus contatos com os governos quanto dentro de suas empresas. Nas Organizações Globo, o "doutor Roberto", como era chamado por todos os funcionários, mesmo os mais graduados, exerceu o comando com mão-de-ferro.

Tamanha intimidade com os militares deu margem a uma simplificação recorrente, que atribui o crescimento exponencial do grupo empresarial de Roberto Marinho nos anos 60 e 70 exclusivamente à proximidade de seu comandante com os governos militares. Seria impossível levar a cabo tal façanha sem a visão estratégica que lhe permitiu lançar as bases da Rede Globo. Seus irmãos Rogério e Ricardo, sócios no jornal e na rádio, negaram-se a acompanhá-lo. Roberto Marinho partiu sozinho para a empreitada. Para viabilizar o investimento, fez um acordo com o grupo americano Time-Life, pelo qual conseguiu receber 4 milhões de dólares e, de quebra, lhe rendeu a instalação de uma comissão parlamentar de inquérito, resultado de uma campanha movida pelo já decadente Assis Chateaubriand.

A associação com os americanos pode ser encarada como capacidade de antecipar alguns comportamentos típicos da economia globalizada que se tornaria realidade décadas mais tarde. O ocaso de Chateaubriand e a ascensão de Roberto Marinho, aliás, retratam a transição de um Brasil recém-urbanizado e industrializado para um país moderno e crescentemente inserido no capitalismo mundial. A preocupação de Marinho era com a profissionalização. "Eu achava que tudo quanto se fazia de televisão era meio amolecado. As pessoas não tinham convicção de que aquilo era possível", dizia. Para fazer a TV Globo, contratou Walter Clark, então o mais importante executivo da nascente televisão brasileira. Dois anos depois, integrou ao comando da emissora José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, formando a dupla responsável por uma programação de qualidade reconhecida em todo o mundo. Roberto Marinho deixa com seus três filhos – Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto .– o comando do império que construiu. Deixa também a tarefa de superar as dificuldades financeiras surgidas nos últimos anos que levaram a Globopar, holding do grupo, a reescalonar uma dívida de 1,5 bilhão de dólares em 2002.

É mais um desafio numa história iniciada pelo empresário que constou até o ano passado no ranking da revista americana Forbes como um dos seis homens mais ricos do Brasil. Não foi sempre assim. Roberto Marinho nasceu no Estácio, um bairro de classe média baixa na Zona Norte do Rio de Janeiro. Sua vida tem outros ingredientes de cinema, além da saga da ascensão social. Em 1925, quando seu pai, o jornalista Irineu Marinho, morreu apenas três semanas após fundar O Globo, Marinho considerou que não tinha ainda maturidade para assumir o comando da publicação. Foi trabalhar na redação. Só seis anos depois tomou a frente da empresa. A rotina de trabalho de mais de doze horas por dia não o impediu de aproveitar a efervescência do Rio de Janeiro das décadas de 20 e 30. Quando solteiro, mantinha no bairro da Urca, onde funcionava o famoso cassino de mesmo nome, uma cobertura que vivia repleta de amigos e vedetes. Só aos 40 anos se casou pela primeira vez, com Stella, mãe de seus filhos, de quem se separou quase trinta anos depois para se casar com Ruth Albuquerque. Aos 84 anos, retomou com Lily de Carvalho um encantamento interrompido cinqüenta anos antes, quando a então exuberante miss França se casou com um rival, Horácio de Carvalho Junior, dono do Diário Carioca. Roberto Marinho a reencontrou viúva em 1988. Quatro meses depois ele se separou de Ruth e propôs casamento a Lily.

A partir da década de 90, Marinho cuidou pessoalmente de sua sucessão tratando de dividir com seus filhos o comando das Organizações Globo. Mas não se retirou de cena, sempre preocupado em manter-se informado sobre tudo o que se passava em suas empresas. Teve um grande momento de consagração em 1993, ao ser eleito para a Academia Brasileira de Letras. Dono de excelente forma física, praticou pesca submarina até quase os 80 anos, e só largou a equitação um pouco depois, quando durante uma competição caiu do cavalo e fraturou onze costelas.

O empresário costumava dizer que vivia muito ocupado para pensar na morte. Talvez por isso não tenha levado à frente o projeto de escrever suas memórias, previamente batizadas por ele de "Condenado ao êxito". A exatidão do título pôde ser conferida na quinta-feira. Compareceram ao velório e ao enterro de Roberto Marinho mais de 3.000 pessoas, entre populares e mandatários. Estiveram presentes o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e José Sarney, cinco governadores, seis ministros de Estado, os presidentes do Senado e da Câmara, quase todos os empresários, políticos e artistas de alguma relevância no cenário nacional, além de adversários políticos históricos, como o ex-governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola. Morreu como viveu. Cercado por poderosos.

 

Com reportagem de Ronaldo França e Silvia Rogar

 

 




 
 
 
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