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Comportamento
Crônicas
de um pai transtornado
Escritor americano relata como
é difícil ter filhas adolescentes

Anna
Paula Buchalla
Existe um momento na vida em que o casal sente uma falta danada
do tempo em que seus filhos eram bebês e a coisa mais estranha
que eles faziam desaparecia com a troca das fraldas. Isso acontece
quando as crianças chegam à adolescência. O
escritor americano W. Bruce Cameron tem uma ótima definição
sobre essa fase: "Os bebês são caracterizados pelo
que não podem fazer: não podem andar, falar
nem sair da sala quando você quiser explicar por que a vida
era muito mais dura quando você estava crescendo. Já
os adolescentes são caracterizados pelo que não
farão: não vão limpar o quarto, não
vão sair do telefone nem vão ouvir quando você
quiser explicar por que a vida era muito mais dura quando você
estava crescendo". A convivência entre pais e filhos adolescentes
nunca foi fácil. Pior ainda quando se trata do relacionamento
entre pai e filha. Com duas adolescentes em casa, Cameron fez das
preocupações e agruras dele e das chatices e rebeldias
delas a matéria-prima de seu livro 8 Regras Simples para
Marcar um Encontro com Sua Filha Adolescente Confissões
de um Pai Transtornado (M. Books, 225 páginas). O livro,
lançado recentemente no Brasil, deu origem à série
americana de televisão 8 Simple Rules, exibida aqui
pelo canal pago Sony.
Com muito humor, a obra trata dos assuntos mais comezinhos que envolvem
o dia-a-dia de um pai com sua filha adolescente. Segundo
Cameron, quando uma garota completa 13 anos, ela olha para o pai
como uma espécie de misto de caixa eletrônico sem limite
e motorista ele deve liberar dinheiro e levá-la ao
shopping para que possa gastá-lo. Apenas isso. "Como todo
bom pai sabe, as famílias se organizam melhor em patriarcados.
É como um rebanho de cervos pastando calmamente sob o olhar
do glorioso líder", escreve Cameron. "Infelizmente, as filhas
adolescentes, em geral, têm problemas para compreender esse
arranjo elegante e ecológico. Elas querem até 'discutir',
o que no mundo real poderia levá-las a ser banidas do rebanho
e mandadas para viver com bodes ou coisa parecida."
A convivência ficou ainda mais tumultuada, nos últimos
anos, quando os pais passaram a participar (ou pelo menos tentam)
mais ativamente da vida das meninas. Por um lado é bom. Por
outro, no entanto, só faz agravar o ciúme que ele
tem dela. Afinal, não é nada fácil ver que,
de uma hora para outra, a princesinha do papai se transformou em
uma adolescente beligerante e com idéias próprias.
De repente, o corpo da menina ganha curvas e seu cérebro
só registra assuntos relacionados a amigas, garotos, música,
passeios e roupas. É como se ele perdesse as rédeas
da situação. E o ciúme do papai vai aumentando...
Pior ainda quando ela começa a namorar. "Seus lábios
já fazem muito esforço falando ao telefone e não
preciso me sujeitar ao stress de ver a boca de algum garoto pressionando-os",
é o que Cameron gostaria de poder dizer às filhas.
"Apesar das mudanças de comportamento dos últimos
anos, o pai sempre vai ter ciúme de sua filha", diz a psicóloga
Ceres Alves de Araujo, professora da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo. "Como até a adolescência
o pai é o modelo de homem para a filha, nunca ninguém
é suficientemente bom para ela."
Cameron é bastante preciso ao narrar a cumplicidade da mãe
com a filha adolescente como se as duas mais a natureza conspirassem
contra o pai. "Às vezes minha mulher diz que eu sou muito
duro com os garotos e pergunta se eu não me lembro da época
em que tinha a idade deles", conta Cameron. "É claro que
eu me lembro. Afinal, já fui um deles e sei que os beijos
têm efeitos imprevisíveis no cérebro masculino,
que geralmente manda sinais aleatórios para as mãos."
Da experiência pessoal de Cameron com suas filhas é
possível aprender alguns truques para facilitar o relacionamento.
Ou, pelo menos, para torná-lo um pouco menos estressante.
Em entrevista a VEJA, ele elencou alguns deles:
"O pai não deveria se incomodar em ser chofer da filha. Pelo
menos assim ganha tempo para conhecê-la melhor, coisa que
ela gostaria de evitar a todo custo."
"Não caia na chantagem emocional de sua filha. Você
não imagina quão espertas as adolescentes são!
Cada vez que você reclamar, por exemplo, que ela não
avisou que chegaria mais tarde, ela vai contra-atacar: 'Se eu tivesse
um celular...' Daqui a pouco, ela terá outras tantas razões
para pedir o modelo de celular que acessa a internet, tira fotos
e o que mais inventarem."
"E aqui vai a pior notícia de todas: você não
pode desistir! Você pode até dizer para sua filha 'o.k.,
você venceu', e ela continuará a discutir com você.
Há sempre um motivo para reclamar. Ambos estão cumprindo
seus papéis. Elas são as filhas adolescentes e você
é o pai".
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