Edição 1815 . 13 de agosto de 2003

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Comportamento

Crônicas de um pai transtornado

Escritor americano relata como
é difícil ter filhas adolescentes


Anna Paula Buchalla

Existe um momento na vida em que o casal sente uma falta danada do tempo em que seus filhos eram bebês e a coisa mais estranha que eles faziam desaparecia com a troca das fraldas. Isso acontece quando as crianças chegam à adolescência. O escritor americano W. Bruce Cameron tem uma ótima definição sobre essa fase: "Os bebês são caracterizados pelo que não podem fazer: não podem andar, falar nem sair da sala quando você quiser explicar por que a vida era muito mais dura quando você estava crescendo. Já os adolescentes são caracterizados pelo que não farão: não vão limpar o quarto, não vão sair do telefone nem vão ouvir quando você quiser explicar por que a vida era muito mais dura quando você estava crescendo". A convivência entre pais e filhos adolescentes nunca foi fácil. Pior ainda quando se trata do relacionamento entre pai e filha. Com duas adolescentes em casa, Cameron fez das preocupações e agruras dele e das chatices e rebeldias delas a matéria-prima de seu livro 8 Regras Simples para Marcar um Encontro com Sua Filha Adolescente – Confissões de um Pai Transtornado (M. Books, 225 páginas). O livro, lançado recentemente no Brasil, deu origem à série americana de televisão 8 Simple Rules, exibida aqui pelo canal pago Sony.

Com muito humor, a obra trata dos assuntos mais comezinhos que envolvem o dia-a-dia de um pai com sua filha adolescente. Segundo Cameron, quando uma garota completa 13 anos, ela olha para o pai como uma espécie de misto de caixa eletrônico sem limite e motorista – ele deve liberar dinheiro e levá-la ao shopping para que possa gastá-lo. Apenas isso. "Como todo bom pai sabe, as famílias se organizam melhor em patriarcados. É como um rebanho de cervos pastando calmamente sob o olhar do glorioso líder", escreve Cameron. "Infelizmente, as filhas adolescentes, em geral, têm problemas para compreender esse arranjo elegante e ecológico. Elas querem até 'discutir', o que no mundo real poderia levá-las a ser banidas do rebanho e mandadas para viver com bodes ou coisa parecida."

A convivência ficou ainda mais tumultuada, nos últimos anos, quando os pais passaram a participar (ou pelo menos tentam) mais ativamente da vida das meninas. Por um lado é bom. Por outro, no entanto, só faz agravar o ciúme que ele tem dela. Afinal, não é nada fácil ver que, de uma hora para outra, a princesinha do papai se transformou em uma adolescente beligerante e com idéias próprias. De repente, o corpo da menina ganha curvas e seu cérebro só registra assuntos relacionados a amigas, garotos, música, passeios e roupas. É como se ele perdesse as rédeas da situação. E o ciúme do papai vai aumentando... Pior ainda quando ela começa a namorar. "Seus lábios já fazem muito esforço falando ao telefone e não preciso me sujeitar ao stress de ver a boca de algum garoto pressionando-os", é o que Cameron gostaria de poder dizer às filhas. "Apesar das mudanças de comportamento dos últimos anos, o pai sempre vai ter ciúme de sua filha", diz a psicóloga Ceres Alves de Araujo, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. "Como até a adolescência o pai é o modelo de homem para a filha, nunca ninguém é suficientemente bom para ela."

Cameron é bastante preciso ao narrar a cumplicidade da mãe com a filha adolescente – como se as duas mais a natureza conspirassem contra o pai. "Às vezes minha mulher diz que eu sou muito duro com os garotos e pergunta se eu não me lembro da época em que tinha a idade deles", conta Cameron. "É claro que eu me lembro. Afinal, já fui um deles e sei que os beijos têm efeitos imprevisíveis no cérebro masculino, que geralmente manda sinais aleatórios para as mãos."

Da experiência pessoal de Cameron com suas filhas é possível aprender alguns truques para facilitar o relacionamento. Ou, pelo menos, para torná-lo um pouco menos estressante. Em entrevista a VEJA, ele elencou alguns deles:

"O pai não deveria se incomodar em ser chofer da filha. Pelo menos assim ganha tempo para conhecê-la melhor, coisa que ela gostaria de evitar a todo custo."

"Não caia na chantagem emocional de sua filha. Você não imagina quão espertas as adolescentes são! Cada vez que você reclamar, por exemplo, que ela não avisou que chegaria mais tarde, ela vai contra-atacar: 'Se eu tivesse um celular...' Daqui a pouco, ela terá outras tantas razões para pedir o modelo de celular que acessa a internet, tira fotos e o que mais inventarem."

"E aqui vai a pior notícia de todas: você não pode desistir! Você pode até dizer para sua filha 'o.k., você venceu', e ela continuará a discutir com você. Há sempre um motivo para reclamar. Ambos estão cumprindo seus papéis. Elas são as filhas adolescentes e você é o pai".

 

 


 
 
 
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