Edição 1815 . 13 de agosto de 2003

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Estados Unidos
Aversão ao Tio Sam

Megapesquisa em onze países coloca o Brasil
entre aqueles com maior antiamericanismo


Um dos efeitos notáveis da guerra no Iraque foi dar fôlego a um sentimento que andava por baixo: o antiamericanismo. Às vésperas da invasão e durante os combates, manifestações públicas em vários países deram prova de uma oposição global à política do presidente George W. Bush. De certa forma, a guerra serviu de válvula de escape para que muita gente expressasse a aversão difusa que existe ao simples fato de haver uma superpotência. Quatro meses depois do colapso do regime de Saddam Hussein no Iraque, uma grande pesquisa de opinião pública feita pela rede inglesa de televisão BBC fornece uma boa oportunidade de conferir como anda o prestígio internacional dos Estados Unidos. A pesquisa perguntou a 11.000 pessoas em onze países o que pensam sobre o governo, o povo, as políticas e a cultura dos Estados Unidos. Além dos próprios americanos, foram ouvidos habitantes da Austrália, Brasil, Canadá, Coréia do Sul, França, Indonésia, Inglaterra, Israel, Jordânia e Rússia. Os resultados: dois de cada três entrevistados discordam da política externa do presidente Bush e quatro em cada dez têm uma visão negativa dos Estados Unidos. Neste quesito, um dado surpreendente é que o Brasil só está atrás da Jordânia, um país árabe e muçulmano, no ranking do antiamericanismo (veja os porcentuais no quadro).

O resultado da pesquisa é indicativo de que a política externa de Bush não causou apenas estragos no prestígio internacional de seu governo. Arranhou também a imagem que outros povos têm da população americana. Entre os países de maioria muçulmana, como Jordânia e Indonésia, a hostilidade era mais do que esperada. Os franceses também não são surpresa, dada a oposição oficial da França à política americana no Oriente Médio. Mais difícil é entender a força do sentimento antiamericano no Brasil, sobretudo porque tem pontos contraditórios. Sete de cada dez brasileiros ouvidos na pesquisa da BBC acreditam que os americanos fizeram por merecer os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Mas a maioria também identifica os Estados Unidos como um país democrático e admira seu modelo econômico, suas instituições e sua riqueza cultural. "Nós criticamos aquilo que desejamos ser e não conseguimos. Temos de colocar a culpa em alguém", interpreta Reginaldo Nasser, coordenador do curso de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O mesmo sentimento contraditório aparece com relação aos produtos culturais e de consumo americanos. Música, cinema, jeans, fast foods e seriados de televisão americanos têm público cativo no Brasil – mas quando se vê diante do entrevistador a maioria dos brasileiros opta por dizer que não gosta das roupas, das bebidas e da comida americana. Uma coisa é aquilo que os brasileiros fazem. Outra é o que falam.

 



 
 
 
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