Edição 1815 . 13 de agosto de 2003

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Estados Unidos
A surpresa anti-Bush

Howard Dean, o democrata que cresce
na oposição ao presidente americano


Raul Juste Lores

AP
Reuters

Dean, em campanha: o sonho de derrotar o favoritismo de Bush (na foto, com a mulher, Laura)

Faltam quinze meses para as eleições americanas e a oposição democrata está fragmentada entre pelo menos nove candidatos. Por enquanto, nenhum deles representa um desafio concreto à reeleição do presidente George W. Bush – exceto, talvez, "a surpresa". Como já ocorreu outras vezes no passado, a esta altura da campanha eleitoral surge aquele candidato que se vende como um não-político e se diz predestinado a combater as "estruturas tradicionais" de poder. A novidade é o democrata Howard Dean, ex-governador de Vermont, um Estado pequeno e rural. Peso-leve da política americana, ele ganhou espaço na mídia com uma estratégia simples: bater, e muito, no presidente Bush, algo que os demais democratas relutavam em fazer. Aos 54 anos, o médico Howard Dean apareceu – e cresceu – pela oposição feroz à guerra no Iraque. Os demais candidatos democratas ficaram calados ou até apoiaram a guerra, com medo da pecha de antipatrióticos. Agora, com a queda na popularidade do presidente, motivada pelo desemprego e pelas dúvidas sobre as justificativas da guerra do Iraque, Dean parece um candidato feito sob medida para ser uma verdadeira alternativa a Bush.

O que está em curso é o fascinante processo da democracia americana. Há poucos meses, George W. Bush era um presidente com popularidade espetacular, cuja ambição era reformar à força a geopolítica global e projetar o poder imperial dos Estados Unidos com vigor sem paralelos no passado. Hoje, seu poder é desafiado por um semidesconhecido, mas que sinaliza uma mudança mais saudável e desejável nos rumos da superpotência. Sua principal plataforma de divulgação também é inovadora: a internet, através da qual arrecadou 5 milhões dos 7,5 milhões de dólares de que dispõe para a campanha.

É cedo para afirmar que Dean vai se sair bem no desafio das eleições primárias para a escolha do candidato democrata. A história americana não é animadora para candidatos anti-sistema. No passado, outros democratas ergueram bandeiras parecidas e acabaram triturados em algum ponto do processo eleitoral. Jimmy Carter foi o último democrata a vir de nenhum lugar e vencer a corrida para a Casa Branca. Em geral, o candidato-surpresa comete alguma gafe ou se descobre que seu passado não era tão limpo assim. "Até para Hillary Clinton, a provável candidata democrata para 2008, é mais interessante uma vitória de Bush", disse a VEJA o editor da revista americana Foreign Policy, Moisés Naím. Vermont, Estado que Dean governou por onze anos, é o segundo menos populoso dos Estados Unidos, com apenas 600.000 habitantes. Arkansas, que deu Bill Clinton à política americana, tem população quatro vezes maior.

Nas últimas quatro décadas, os únicos democratas a chegar à Casa Branca, Jimmy Carter e Bill Clinton, eram politicamente moderados, com boas ligações com sindicatos e com a minoria negra. Dean é um aristocrata do norte e é considerado, para os padrões da política americana, como de "extrema esquerda". Além da oposição à guerra, como governador, ele foi o primeiro a autorizar a união civil de casais gays e vive elogiando o Estado de bem-estar social europeu. Na hora do voto, o eleitorado americano costuma rejeitar os candidatos extremistas – sejam de direita, sejam de esquerda. Dean e Bush têm muito em comum. Ambos são primogênitos de família rica, estudaram em colégios caros e se formaram em universidades de elite. Os dois arrumaram desculpas para deixar de lutar no Vietnã e foram beberrões até a idade madura. O resultado das eleições presidenciais depende muito do sucesso de Bush em fazer a economia sair da letargia e produzir novos empregos. Domada a recessão, Bush é imbatível. Dean vai precisar surpreender muito para chegar lá.

 
 
 
 
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