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Previdência
Lula
afina a orquestra

Maurício
Lima
Bruno Stuckert/Folha Imagem
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plenário festeja a
vitória no voto e manifestante
reage com
chute à vidraça do
Congresso (abaixo): uma aula
de democracia |
Eduardo Nicolau/AE
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Na
semana passada, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva conquistou
sua primeira grande vitória parlamentar. Com 358 votos a
favor e 126 contra, aprovou a reforma da Previdência Social,
dando um passo essencial para cumprir a agenda de mudanças
estruturais, que será seguida, conforme o plano, das reformas
tributária e trabalhista. Com as alterações
no sistema previdenciário, o governo começa a corrigir
um regime iníquo, que produz vasta transferência de
renda dos trabalhadores privados para os funcionários do
setor público, e ataca o fator de desequilíbrio das
contas públicas, que atualmente gera um rombo de 80 bilhões
de reais por ano. Estima-se que até o fim de setembro a reforma
previdenciária terá cumprido todo o ritual parlamentar,
que inclui nova votação na Câmara e dois turnos
no Senado, e estará pronta para entrar em vigor.
Por
sua atuação e pelo resultado obtido, o presidente
Lula calou a cacofonia de declarações e gestos com
que o governo vinha complicando sua comunicação com
o Brasil e o mundo.
Menos
pelo tamanho e mais pela direção do primeiro passo
dado na condução das reformas, Lula mudou radicalmente
a percepção de que seu governo evoluía
assim
meio sem coordenação, como as escolas de samba do
segundo grupo. Depois das duas madrugadas decisivas no Congresso
na semana passada, Lula finalmente deu o tom dos instrumentos. Dias
antes, ao fingir que tocava violino durante uma visita a uma escola-modelo
em São Paulo, Lula riu quando alguém lembrou a frase
atribuída ao líder populista argentino Juan Domingo
Perón (1895-1974): "O poder é como um violino. Toma-se
com a esquerda e toca-se com a direita". A vitória de Lula
na semana passada não é de esquerda nem de direita.
Foi um triunfo do país.
Sob qualquer aspecto que se analise a questão, o governo
e o país colheram uma vitória maiúscula na
semana passada, mas o feito acabou um tanto embaçado por
uma sucessão de equívocos catastrofistas. Nesse terreno,
produziram-se sugestões de que:
O governo mostrou fragilidade na votação na
Câmara dos Deputados, pois sua base parlamentar rachou, com
296 votos a favor e 56 contra, e só aprovou a reforma porque
teve a sorte de contar com a oposição, em que 62 deputados
votaram a favor da proposta.
Titubeante, o governo enredou-se na defesa de sua idéia
original e fez concessões excessivas, elevando de 12.900
para 15.600 reais o teto salarial dos juízes estaduais e
aumentando de 1.058 para 1.440 reais o limite de isenção
previdenciária dos aposentados do serviço público,
item que será votado nesta semana.
Com tantas concessões, o governo acabou deixando
que se desfigurasse o projeto original da reforma e mostrou-se leniente
diante das pressões corporativistas dos servidores públicos
e do Judiciário e dos lamentáveis protestos em Brasília,
que resultaram em um preso, dez feridos e 52 vidraças quebradas
no Congresso.
São avaliações equivocadas. A base parlamentar
do governo teve comportamento exemplar. A bancada do PT, com 92
deputados, promoveu apenas uma dúzia de dissonâncias:
3 votos contra, oito abstenções e uma ausência.
Ou seja: 87% da bancada votou a favor. Foi um resultado excelente,
em especial quando se lembra que a Previdência sempre foi
tema caríssimo a uma das bases eleitorais mais ativas do
PT, o funcionalismo público, e o partido, quando na oposição,
sempre rechaçou, intransigentemente, qualquer mudança
no sistema. Em junho de 1995, ao passar pelo primeiro teste parlamentar
de um tema que elegeu como prioridade a quebra do monopólio
das teles e do petróleo , Fernando Henrique também
teve o apoio de 360 deputados e enfrentou divisão na bancada
tucana: 92% votaram a favor e 8% contra porcentual próximo
do registrado agora na bancada do PT. Exigir dos petistas desempenho
melhor equivale a lhes pedir que tivessem adotado um comportamento
soviético, notório nos congressos da velha URSS, em
que tudo era aprovado por unanimidade.
Os 62 votos da oposição a favor da reforma previdenciária
não são sintoma de fraqueza do governo. Antes, sugerem
o acerto da proposta do Palácio do Planalto e, sobretudo,
a bem-vinda estréia no cenário parlamentar brasileiro
de uma oposição responsável, que colocou os
interesses nacionais acima de seus dividendos eleitorais e partidários
imediatos. É um comportamento politicamente maduro e conseqüente,
que só não existia antes no Congresso Nacional, constata-se
agora, porque o próprio PT, quando na oposição,
lamentavelmente jamais exibiu o mesmo espírito de grandeza
pelo país. Entre os 59 deputados do PSDB, 29 votaram a favor
da proposta. Nas fileiras do PFL, sigla que tem movido a oposição
mais estruturada ao governo petista, 33 votaram a favor da reforma
e 36 contra. O líder da bancada, o deputado José Carlos
Aleluia, do PFL baiano, apelou para a oposição inconseqüente,
propondo até o fim da taxação dos inativos,
mas acabou pregando no deserto dentro da bancada de seu próprio
Estado: dos vinte pefelistas da Bahia, dezenove votaram pela reforma.
Só Aleluia votou contra.
"De
agora em diante, as campanhas políticas no Brasil serão
diferentes. Ninguém irá à praça pública
fazer um discurso e depois votar em idéia diferente", avalia
o líder tucano Jutahy Junior, cutucando o comportamento anterior
do PT. O projeto aprovado é resultado de negociações
do Planalto com partidos políticos, governadores, servidores,
magistrados e sindicalistas e representa um belo capítulo
da democracia brasileira. Com o Congresso, o governo aceitou mudanças
para viabilizar a aprovação do projeto, o que é
absolutamente legítimo, e não se viu, pelo menos com
a intensidade de outrora, aquele festival de fisiologismo, com partidos
pedindo cargos e parlamentares chantageando com liberação
de verbas. Sob esse aspecto, o Planalto impôs uma negociação
política, dentro da qual é inescapável contemplar
interesses segundo a força política dos envolvidos,
sob pena de não aprovar coisa nenhuma. Por isso, a reforma
aprovada não é a ideal, mas é a possível.
O governo anterior sabe quanto isso é difícil. Em
seus dois mandatos, FHC tentou mudar o sistema previdenciário:
o assunto passou por 97 votações, teve mais de 200
emendas, tramitou por três anos e nove meses até perder
o gás e cair no esquecimento.
Com esse tremendo avanço, aprovando a reforma em apenas sete
meses de governo, o presidente Lula dissipou suspeitas de que seu
governo vacilava quanto ao caminho a seguir. Na semana passada,
o próprio presidente empenhou-se pessoalmente na aprovação
da proposta. Na última hora, cancelou uma viagem à
África, envolveu os governadores, inclusive os de siglas
oposicionistas, na caça aos votos na Câmara e participou
das negociações. Lula demonstrou que é capaz
de delegar poderes, o que fez em larga medida com o ministro José
Dirceu, da Casa Civil, mas não deixa o centro do palco. Fez
questão de dar a palavra final na modificação
dos temas mais polêmicos, como a mudança do teto salarial
dos juízes estaduais. Com isso, o presidente começou
a contribuir decisivamente para os avanços institucionais
que o Brasil vem experimentando na última década.
Afinal, há dez anos, o país se debatia com hiperinflação
e receio de quarteladas. Hoje, tem uma moeda estável, livrou-se
do peso de estatais ineficientes, criou agências reguladoras,
iniciou a era da responsabilidade fiscal e está fazendo
a necessária reforma do Estado.
| Querem
desbabalizar o PT |
Bruno Stuckert/Folha Imagem
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O deputado Babá: o alvo
é ele, mas ao contrário
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Até
agora, nenhum dirigente petista cometeu o tropeço
de dizer que o projeto político do PT é
permanecer vinte anos no poder, como os tucanos chegaram
a dizer, mas o partido, é claro, está
de olho no futuro. No fim do mês, a cúpula
do PT lançará um mutirão nacional
para aumentar a massa de filiados de 500 000 para 800
000 e ninguém vai precisar mostrar atestado
ideológico ou ser indicado por um capa-preta
do partido, como acontecia antes. Agora, entra quem
quiser. "Precisamos arejar a democracia partidária",
diz Silvio Pereira, secretário de organização
da legenda. "Nos últimos anos, os diretórios
se engalfinharam na luta interna e perderam a conexão
com a base da sociedade", completa ele. Concebida pelo
publicitário Duda Mendonça, dono de um
contrato de 3 milhões de reais para fazer o marketing
petista até o fim do ano, a campanha de filiação
tem um objetivo explícito, o de fortalecer o
partido para as eleições municipais do
ano que vem, e outro mais discreto, o de neutralizar
a barulhenta influência das alas radicais da agremiação.
A direção petista quer evitar militantes
como o deputado radical João Batista, o Babá,
que, contrariando o partido e o governo, votou contra
a reforma da Previdência. Para desbabalizar
o partido, a campanha de filiação será
a mais ampla possível, feita através da
televisão e da internet, e contará inclusive
com equipe de telemarketing e auxílio de uma
linha 0800. Por isso, os futuros filiados não
passarão por nenhum tipo de filtro prévio,
podendo filiar-se até pela internet, nem serão
submetidos a cursos de formação política,
como ocorria antes. Com isso, o PT tende a ficar mais
parecido com legendas da esquerda européia, com
os trabalhistas ingleses, que, ao chegar ao poder, ampliaram
muito sua base militante. "Os quadros formados no partido
vão ser substituídos por gente que já
chegará com as próprias opiniões,
ligada às mais diversas áreas", analisa
o cientista político Benedito Tadeu César,
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. "Um partido
de governo precisa mesmo aumentar sua penetração
na sociedade."
No terreno eleitoral, a campanha pretende ajudar o partido
a chegar a todos os municípios brasileiros. Hoje,
das 5.600 cidades brasileiras, o PT está organizado
em 4.623. No ano que vem, com as eleições
municipais, a direção do partido quer
eleger pelo menos um vereador em cada município
do país o que, por si só, dobrará
o número atual de 2.485 vereadores. Em relação
à eleição de prefeitos, não
há meta definida, embora esteja claro que o PT
fará de tudo para aumentar sua presença
em administrações municipais. Hoje, o
partido tem 189 prefeitos, que, embora comandem grandes
cidades, ainda são um grupo diminuto perto do
número de prefeitos de legendas como o PMDB (1
200 prefeituras) e o PSDB (990). O mutirão de
filiações também pretende associar
o PT ao país. Na carteira dos novos militantes,
em vez do velho slogan "orgulho de ser petista", o partido
quer inscrever a frase "orgulho de ser brasileiro".
Soa muito parecido, se não idêntico, à
propaganda de cadeia nacional de supermercados, mas,
quem sabe, pode dar certo...
Malu
Gaspar
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