Edição 1913 . 13 de julho de 2005

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Música
Mauricinhos do pagode

Eles deixaram o direito e a engenharia
para tocar samba. E conquistaram
quem fingia odiar Jorge Aragão


Sérgio Martins


Fotos Roberto Setton
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Show do Inimigos da HP (à esq.) e a banda com suas fãs (à dir.): eles tocam em festas de debutantes e seduzem as vendedoras da Daslu

Um Frankenstein está à solta. Ele tem corpo de mauricinho e alma de pagodeiro – combinação que à primeira vista pareceria impraticável. Batizado de "pagode universitário", o monstro nasceu há pouco e já caminha a passos largos. Seus principais expoentes são os grupos paulistanos Jeito Moleque e Inimigos da HP, o brasiliense Batom na Cueca e o gaúcho Se Ativa. Eles são formados por rapazes nascidos bem longe da periferia, o celeiro tradicional do samba. É gente de classe média e de classe alta, que estuda em boas faculdades ou até já conquistou o seu diploma. Arrumadinhos no visual, eles estão mais para as chamadas boys bands – aqueles conjuntos masculinos fabricados pelas gravadoras para fisgar as pré-adolescentes. Mas a música não diverge muito da que faziam os grupos de pagode romântico dos anos 90. A diferença é que o hediondo foi acrescentado ao que já era ruim: toques de axé baiano e de funk carioca dão "sabor" às canções. Eis um caso em que seria melhor não pedir ajuda aos universitários – para inverter o bordão de Silvio Santos no programa Show do Milhão.

Os dois grupos de maior sucesso do pagode universitário são o Jeito Moleque e o Inimigos da HP. O primeiro surgiu há sete anos e tem um advogado, um economista e um publicitário em sua formação. Os rapazes deviam se aplicar nos estudos, a julgar por suas letras: "Te vi na galera / Fiquei na espera / E aí foi só você me olhar / Pra eu me apaixonar". Lançado no ano passado por um selo independente, o disco de estréia do Jeito Moleque vendeu mais de 60.000 cópias e estourou o sambão meloso Hoje a Noite É Nossa. A música ficou entre as vinte mais executadas nas rádios brasileiras e chamou a atenção da gravadora Universal, que contratou o grupo. O Jeito Moleque faz 35 apresentações mensais, a um cachê médio de 20.000 reais. Seus concorrentes do Inimigos da HP também têm "currículo". O octeto ostenta em sua formação publicitários, advogados e, claro, engenheiros – o nome faz alusão a uma calculadora muito usada pela categoria. Fora um de seus integrantes, todo mundo largou o emprego para tocar. Como surgiu a idéia? Eles descobriram o valor da música brasileira ao passar uma temporada carnavalesca na Bahia. Animados, compraram instrumentos e montaram a banda mesmo sem saber tocar uma nota. Depois de se consagrarem nas danceterias do circuito Itaim Bibi–Vila Olímpia, em São Paulo, caíram nas graças de uma multinacional, a EMI. No começo do ano, a gravadora lançou o CD ao vivo E Quem Não Gosta do Inimigos..., que já bateu nas 30.000 cópias vendidas.


Lailson Santos
Os rapazes do Jeito Moleque: parece uma boys band, mas é um grupo de pagode

O público do pagode universitário tem a mesma origem social dos músicos. Patricinhas que odiavam (ou fingiam odiar) os discos de Jorge Aragão e Zeca Pagodinho cantam os hits do Jeito Moleque a plenos pulmões. "Nunca vi tanta mulher bonita em show de samba", diz Max Pierre, vice-presidente artístico da Universal, sobre as apresentações do grupo. Mas a elite tem lá suas idiossincrasias ao curtir um pagodão. Nas apresentações, é comum os vocalistas pedirem palmas ao fim de cada música. "Tem de incentivar, porque o pessoal da classe A não tem o costume de aplaudir", diz Fernando Bifani, o Alemão, percussionista e cantor do Jeito Moleque.

Um dos mercados mais promissores dessas bandas é o das festas de debutantes. Recentemente, a executiva Márcia Castelo Branco pagou cachê dobrado para que o Inimigos da HP cancelasse um compromisso e fosse tocar no aniversário de sua filha, Carol – uma festa "light", nas palavras da mãe, para 800 pessoas. Conta Márcia: "Quando a Carol pediu, pensei: 'Que vergonha trazer um pagode'. Mas os rapazes são tão simpáticos que minhas amigas contrataram a banda para o aniversário de suas filhas". Moços de fino trato, os pagodeiros universitários circulam com meninas idem. O cantor Bruno Diegues, do Jeito Moleque, namora uma das atrizes mais desejadas do Brasil: Fernanda Paes Leme, a Rosário da novela América, da Rede Globo. Já Sebastian Arietti, o Sebá, vocalista do Inimigos da HP, circula com uma "dasluzete" – é assim que são conhecidas as vendedoras da Daslu, a butique paulistana que virou símbolo do alto consumo e que arregimenta suas funcionárias no seio das famílias abastadas. "As amigas de trabalho dela sempre estão nos nossos shows", avisa Sebá aos interessados.

 
 
 
 
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