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Música
Mauricinhos do pagode
Eles deixaram o direito e a engenharia
para tocar samba. E conquistaram
quem fingia odiar Jorge Aragão

Sérgio Martins
Fotos Roberto Setton
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etton
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| Show do Inimigos da HP (à
esq.) e a banda com suas fãs (à dir.):
eles tocam em festas de debutantes e seduzem as vendedoras da
Daslu |
Um Frankenstein está à solta.
Ele tem corpo de mauricinho e alma de pagodeiro combinação
que à primeira vista pareceria impraticável. Batizado
de "pagode universitário", o monstro nasceu há pouco
e já caminha a passos largos. Seus principais expoentes são
os grupos paulistanos Jeito Moleque e Inimigos da HP, o brasiliense
Batom na Cueca e o gaúcho Se Ativa. Eles são formados
por rapazes nascidos bem longe da periferia, o celeiro tradicional
do samba. É gente de classe média e de classe alta,
que estuda em boas faculdades ou até já conquistou
o seu diploma. Arrumadinhos no visual, eles estão mais para
as chamadas boys bands aqueles conjuntos masculinos fabricados
pelas gravadoras para fisgar as pré-adolescentes. Mas a música
não diverge muito da que faziam os grupos de pagode romântico
dos anos 90. A diferença é que o hediondo foi acrescentado
ao que já era ruim: toques de axé baiano e de funk
carioca dão "sabor" às canções. Eis
um caso em que seria melhor não pedir ajuda aos universitários
para inverter o bordão de Silvio Santos no programa
Show do Milhão.
Os dois grupos de maior sucesso do pagode
universitário são o Jeito Moleque e o Inimigos da
HP. O primeiro surgiu há sete anos e tem um advogado, um
economista e um publicitário em sua formação.
Os rapazes deviam se aplicar nos estudos, a julgar por suas letras:
"Te vi na galera / Fiquei na espera / E aí foi só
você me olhar / Pra eu me apaixonar". Lançado no ano
passado por um selo independente, o disco de estréia do Jeito
Moleque vendeu mais de 60.000 cópias e estourou o sambão
meloso Hoje a Noite É Nossa. A música ficou
entre as vinte mais executadas nas rádios brasileiras e chamou
a atenção da gravadora Universal, que contratou o
grupo. O Jeito Moleque faz 35 apresentações mensais,
a um cachê médio de 20.000 reais. Seus concorrentes
do Inimigos da HP também têm "currículo". O
octeto ostenta em sua formação publicitários,
advogados e, claro, engenheiros o nome faz alusão
a uma calculadora muito usada pela categoria. Fora um de seus integrantes,
todo mundo largou o emprego para tocar. Como surgiu a idéia?
Eles descobriram o valor da música brasileira ao passar uma
temporada carnavalesca na Bahia. Animados, compraram instrumentos
e montaram a banda mesmo sem saber tocar uma nota. Depois de se
consagrarem nas danceterias do circuito Itaim BibiVila Olímpia,
em São Paulo, caíram nas graças de uma multinacional,
a EMI. No começo do ano, a gravadora lançou o CD ao
vivo E Quem Não Gosta do Inimigos..., que já
bateu nas 30.000 cópias vendidas.
Lailson Santos
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| Os rapazes do Jeito Moleque: parece uma boys
band, mas é um grupo de pagode |
O público do pagode universitário
tem a mesma origem social dos músicos. Patricinhas que odiavam
(ou fingiam odiar) os discos de Jorge Aragão e Zeca Pagodinho
cantam os hits do Jeito Moleque a plenos pulmões. "Nunca
vi tanta mulher bonita em show de samba", diz Max Pierre, vice-presidente
artístico da Universal, sobre as apresentações
do grupo. Mas a elite tem lá suas idiossincrasias ao curtir
um pagodão. Nas apresentações, é comum
os vocalistas pedirem palmas ao fim de cada música. "Tem
de incentivar, porque o pessoal da classe A não tem o costume
de aplaudir", diz Fernando Bifani, o Alemão, percussionista
e cantor do Jeito Moleque.
Um dos mercados mais promissores dessas bandas
é o das festas de debutantes. Recentemente, a executiva Márcia
Castelo Branco pagou cachê dobrado para que o Inimigos da
HP cancelasse um compromisso e fosse tocar no aniversário
de sua filha, Carol uma festa "light", nas palavras da mãe,
para 800 pessoas. Conta Márcia: "Quando a Carol pediu, pensei:
'Que vergonha trazer um pagode'. Mas os rapazes são tão
simpáticos que minhas amigas contrataram a banda para o aniversário
de suas filhas". Moços de fino trato, os pagodeiros universitários
circulam com meninas idem. O cantor Bruno Diegues, do Jeito Moleque,
namora uma das atrizes mais desejadas do Brasil: Fernanda Paes Leme,
a Rosário da novela América, da Rede Globo.
Já Sebastian Arietti, o Sebá, vocalista do Inimigos
da HP, circula com uma "dasluzete" é assim que são
conhecidas as vendedoras da Daslu, a butique paulistana que virou
símbolo do alto consumo e que arregimenta suas funcionárias
no seio das famílias abastadas. "As amigas de trabalho dela
sempre estão nos nossos shows", avisa Sebá aos interessados.
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