Edição 1913 . 13 de julho de 2005

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Televisão
O mascate eletrônico

Como o empresário Luiz Galebe
fez fortuna com um canal
que vende de tudo. Mesmo


Ricardo Valladares


Roberto Setton
Galebe, no estúdio do Shop Tour: colecionando aeronaves e processos

Na infância, o empresário paulista Luiz Antonio Galebe vendia sanduíches na escola e pipas na feira de seu bairro. Aos 13 anos, fez seu primeiro "rolo": trocou um aparelho de som por um kart. Aos 18, inaugurou um negócio, que consistia em fornecer lixeiras de graça a shopping centers de São Paulo, em troca do direito de explorar a publicidade neles. Galebe é um sujeito que tem o verbo "vender" em seu DNA – e foi na televisão que ele encontrou o melhor palanque para exercitar sua lábia. O empresário foi pioneiro em trazer para o Brasil programas inspirados num canal americano, o QVC, dedicado inteiramente ao anúncio de produtos. Dono do Shop Tour, levado a todo o país pela TVA e pela NET e por canais UHF, Galebe tornou-se um caso peculiar na TV brasileira. O Shop Tour faturou 50 milhões de reais no ano passado – metade do que obteve no período uma emissora como a Rede TV!, que tem estrutura muito maior e briga pelo quarto lugar entre as grandes redes do país. É verdade que há outro canal de vendas na TV paga, o Shoptime, que fatura mais. Mas seu perfil é diferente – ele faz vendas diretas, em vez de apenas anunciar – e seu principal proprietário é um peso-pesado, as Organizações Globo. Como empreendedor individual, Galebe não tem similar.

Galebe põe seus dotes de comunicador a serviço de empresas que vendem de tapetes a aviões, de câmeras digitais a imóveis. Além de língua afiada para atrair consumidores, ele também sabe como deixar tímidos donos de loja à vontade diante das câmeras de televisão. A programação do Shop Tour é de 22 horas e meia de anúncios. Eles só não preenchem as 24 horas do dia porque, por lei, o canal é obrigado a ter pelo menos uma hora e meia de "intervalos" educativos. Um deles é sobre direitos do consumidor – algo providencial. Mas a maioria dos "educativos" fala de carros, aviões e produtos de tecnologia. Se o espectador se interessar por algo, basta esperar a volta da programação normal para comprar um similar.

Galebe emprega 300 pessoas e acumulou um patrimônio invejável. Só o prédio de 4.000 metros quadrados do Shop Tour, num bairro paulistano de classe alta, é avaliado em 20 milhões de reais. O canal mantém dezessete equipes de filmagem, cada qual com um operador de câmera e um vendedor-apresentador treinado segundo os princípios "galebianos" das boas vendas (veja quadro). O Shop Tour possui em sua frota um avião Cessna Citation e dois helicópteros Robinson dotados de câmeras para tomadas aéreas. Há ainda um helicóptero italiano Agusta de seis lugares, avaliado em 5 milhões de reais – a menina-dos-olhos de Galebe. "Tenho uma Mercedes-Benz velha, 1997. Mas meu barato é mesmo pilotar", diz ele, que faz pessoalmente os anúncios desse tipo de produto.

Galebe desbravou o filão em que atua em 1987. A primeira experiência foi feita com uma câmera emprestada. "Ao contrário dos anúncios comuns, o nosso custava barato e era veiculado num horário em que ninguém apostava", diz. Ele passou então a ocupar mais e mais espaço nas madrugadas. Até 1994, na Rede Record. Depois, num canal UHF, o CBI, pertencente ao empresário João Carlos Di Genio, dono da rede Objetivo de colégios. No fim do ano passado, após mais de uma década como inquilino (o "aluguel" mensal era de 700.000 reais), o Shop Tour foi desalojado dali. A princípio, Galebe não achou a mudança problemática, pois ele havia adquirido um canal próprio em 1999. Dias depois da troca, porém, descobriu que o CBI também estava sendo usado para vendas. Por causa disso, abriu um processo contra Di Genio, sob a alegação de que sua programação fora copiada. "Fui apunhalado. As pessoas não percebem a diferença e assistem ao outro canal pensando que é o Shop Tour", diz. Di Genio, evidentemente, discorda. "Vender na televisão não é monopólio dele", comenta. A nova situação coloca Galebe em xeque: por causa do concorrente, sua receita pode cair pela metade em 2005.

Essa não é a única pendenga em que o mascate eletrônico está metido. Ele enfrenta um processo movido pela ex-mulher Maria Cristina Rodrigues dos Santos, com quem foi casado por dez anos. Ela reivindica uma participação de 15% no negócio. Galebe alega que a ex chegou a grampear seus telefones. Já Maria Cristina diz que foi ele quem plantou os grampos, para incriminá-la. "Para que eu faria isso? Quero mais é que ele seja feliz com sua nova mulher", diz ela. Aos 50 anos, Galebe tem seis filhos e está no quarto casamento. Oriundo de uma família de classe média de descendentes de libaneses, ele é um sujeito vaidoso. Só toma água francesa Perrier e disfarçou a calvície com um implante de cabelo. Atualmente, sua leitura preferida é a Bíblia. Numa edição eletrônica à venda em seu canal.

 


 
 
 
 
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