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Livros O
mal visto de perto Uma biografia minuciosa mostra
que Hitler foi, sim, um ser humano. Mas nem por isso menos monstruoso 
Jerônimo Teixeira
A personalidade de Adolf Hitler
parece destinada a desafiar toda tentativa de explicação. O ditador
que guiou a Alemanha a uma desastrosa guerra mundial e ao desvario genocida entrou
para a imaginação do século XX como uma espécie de
encarnação do mal o que é uma forma de retirar sua
incômoda companhia do gênero humano. No prólogo ao primeiro
volume de sua consagrada biografia Hitler (vários tradutores;
Nova Fronteira; 528 páginas; 52 reais), recentemente relançada no
Brasil, o historiador alemão Joachim Fest tenta compreender a figura nefasta
de seu biografado destacando a sua "normalidade". O líder nazista que emerge
das bem documentadas páginas de Fest não é um demônio,
mas um homem e isso só o torna ainda mais assustador.
Esse primeiro volume cobre do nascimento de Hitler, na Áustria, em 1889,
até sua ascensão ao cargo de chanceler da Alemanha, em 1933
o segundo volume, a ser lançado provavelmente em outubro, conduz até
a morte do führer, em 1945. Os anos de formação de Hitler são
frugais, até mesmo vulgares. Uma vez no poder, ele se esforçaria
para apagar certos detalhes de sua história para construir a imagem idealizada
de um líder ariano. Manteve obscuras, por exemplo, as suas raízes
familiares (há especulações de que seu avô paterno
teria sido judeu, embora Fest ache essa hipótese improvável). Também
ocultaria o fato de ter sido um desertor do serviço militar na Áustria.
O cabo Adolf acabaria servindo no Exército alemão na I Guerra Mundial.
Voltou das trincheiras com condecorações. Foi só depois da
guerra, e já com mais de 30 anos, que ele encontraria, em Munique, a sua
vocação como líder de massas. Já nas primeiras reuniões
do nascente Partido Nacional-Socialista, destacou-se como um orador inflamado
e carismático. Fest descobre em Hitler um certo componente idealista que
seria tipicamente alemão. Esse viés visionário do ditador,
associado à sua proverbial megalomania, teria impedido qualquer concessão,
qualquer solução de compromisso em sua trajetória. Hitler
era um ideólogo exaltado, mas não era um pensador original
seu virulento anti-semitismo, por exemplo, era bastante comum não só
na Alemanha, mas entre muitos europeus nos anos 20 e 30. O nazismo, portanto,
poderia ter existido mesmo sem o seu líder máximo mas, especula
Fest, só Hitler permitiu que ele se destacasse entre os confusos grupos
radicais daquela era de crise na Alemanha.
Além dessa extensa e minuciosa biografia, Fest também é autor
de um relato sobre os últimos dias do ditador, No Bunker de Hitler,
recentemente lançado no Brasil pela editora Objetiva. É interessante
contrastar sua rigorosa pesquisa histórica com outro livro sobre o ocaso
de Hitler que chegou recentemente às livrarias: Até o Fim,
escrito por Traudl Junge em colaboração com a jornalista Melissa
Müller (tradução de Claudia Abeling; Ediouro; 236 páginas;
44,90 reais). Traudl começou a trabalhar como secretária de Hitler
em 1942 e manteve-se nessa função até o suicídio do
chefe, em 1945. O que mais assusta em seu relato é a aparente inocência
com que ela serviu ao homem que idealizou o assassinato programado de milhões
de pessoas. Hitler e seus seguidores mostram sua face cotidiana nessas obras biográficas.
E é perturbador perceber quão trivialmente humano pode ser o mal.
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