Edição 1913 . 13 de julho de 2005

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O mal visto de perto

Uma biografia minuciosa mostra
que Hitler foi, sim, um ser humano.
Mas nem por isso menos monstruoso


Jerônimo Teixeira

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Trechos dos livros
Hitler
No Bunker de Hitler

A personalidade de Adolf Hitler parece destinada a desafiar toda tentativa de explicação. O ditador que guiou a Alemanha a uma desastrosa guerra mundial e ao desvario genocida entrou para a imaginação do século XX como uma espécie de encarnação do mal – o que é uma forma de retirar sua incômoda companhia do gênero humano. No prólogo ao primeiro volume de sua consagrada biografia Hitler (vários tradutores; Nova Fronteira; 528 páginas; 52 reais), recentemente relançada no Brasil, o historiador alemão Joachim Fest tenta compreender a figura nefasta de seu biografado destacando a sua "normalidade". O líder nazista que emerge das bem documentadas páginas de Fest não é um demônio, mas um homem – e isso só o torna ainda mais assustador.

Esse primeiro volume cobre do nascimento de Hitler, na Áustria, em 1889, até sua ascensão ao cargo de chanceler da Alemanha, em 1933 – o segundo volume, a ser lançado provavelmente em outubro, conduz até a morte do führer, em 1945. Os anos de formação de Hitler são frugais, até mesmo vulgares. Uma vez no poder, ele se esforçaria para apagar certos detalhes de sua história para construir a imagem idealizada de um líder ariano. Manteve obscuras, por exemplo, as suas raízes familiares (há especulações de que seu avô paterno teria sido judeu, embora Fest ache essa hipótese improvável). Também ocultaria o fato de ter sido um desertor do serviço militar na Áustria. O cabo Adolf acabaria servindo no Exército alemão na I Guerra Mundial. Voltou das trincheiras com condecorações. Foi só depois da guerra, e já com mais de 30 anos, que ele encontraria, em Munique, a sua vocação como líder de massas. Já nas primeiras reuniões do nascente Partido Nacional-Socialista, destacou-se como um orador inflamado e carismático. Fest descobre em Hitler um certo componente idealista que seria tipicamente alemão. Esse viés visionário do ditador, associado à sua proverbial megalomania, teria impedido qualquer concessão, qualquer solução de compromisso em sua trajetória. Hitler era um ideólogo exaltado, mas não era um pensador original – seu virulento anti-semitismo, por exemplo, era bastante comum não só na Alemanha, mas entre muitos europeus nos anos 20 e 30. O nazismo, portanto, poderia ter existido mesmo sem o seu líder máximo – mas, especula Fest, só Hitler permitiu que ele se destacasse entre os confusos grupos radicais daquela era de crise na Alemanha.

Além dessa extensa e minuciosa biografia, Fest também é autor de um relato sobre os últimos dias do ditador, No Bunker de Hitler, recentemente lançado no Brasil pela editora Objetiva. É interessante contrastar sua rigorosa pesquisa histórica com outro livro sobre o ocaso de Hitler que chegou recentemente às livrarias: Até o Fim, escrito por Traudl Junge em colaboração com a jornalista Melissa Müller (tradução de Claudia Abeling; Ediouro; 236 páginas; 44,90 reais). Traudl começou a trabalhar como secretária de Hitler em 1942 e manteve-se nessa função até o suicídio do chefe, em 1945. O que mais assusta em seu relato é a aparente inocência com que ela serviu ao homem que idealizou o assassinato programado de milhões de pessoas. Hitler e seus seguidores mostram sua face cotidiana nessas obras biográficas. E é perturbador perceber quão trivialmente humano pode ser o mal.

 

 
 
 
 
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