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Livros Retrato
do artista quando velho Em seu novo livro,
Gabriel García Márquez faz uma bela reflexão sobre a
senilidade 
Moacyr Scliar
Cesar Rangel/AFP  |
| García Márquez: depois de dez anos longe
da ficção, ele continua em forma |
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Nonagenários
não são freqüentes na literatura, tanto menos numa época
que cultua febrilmente a juventude. Daí a surpresa provocada pelas primeiras
linhas de Memória de Minhas P... Tristes (tradução
de Eric Nepomuceno; Record; 128 páginas; 24,90 reais), o novo livro do
escritor colombiano Gabriel García Márquez: "No ano dos meus noventa
quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem". Dependendo
de seu grau de moralismo, o leitor pode até, mais que se surpreender, ficar
com um pé atrás. Estaremos diante de uma história de insólita
libertinagem? Teria o ganhador do Prêmio Nobel de 1982 se transformado naquilo
que os americanos conhecem como "dirty old man" um velho safado?
Basta avançar um pouco para descobrir que não é nada disso.
Esta Memória, muito embora não seja uma obra-prima, é
uma bela reflexão sobre a velhice e a prova de que, depois de dez
anos sem publicar ficção, Márquez continua firme nesse ofício.
A última década não
foi de inatividade para o autor de Cem Anos de Solidão. Ele preferiu,
no entanto, voltar-se para reportagens (gênero em que inaugurou sua carreira
literária) e para a autobiografia (Viver para Contar, publicado
em 2002, foi o primeiro de três volumes prometidos nessa seara). Seu retorno
ao romance ou melhor, à novela, já que se trata de um livro
curto mostra as marcas desses últimos trabalhos. Um dos pais do
realismo mágico, Márquez está hoje bem mais próximo
do primeiro que do segundo termo dessa famosa expressão. Aos 77 anos, ele
também é um homem para quem a velhice é uma experiência
biográfica. Descobrir até que ponto o autor se projeta no narrador
anônimo de Memória é matéria para especulação,
mas não há dúvida de que estamos diante de um retrato de
um artista quando idoso. Publicado
no ano passado em espanhol, Memória chega ao Brasil com um episódio
curioso e muitas leituras críticas na bagagem. Curioso foi o modo como
Márquez driblou os editores piratas que ameaçavam estragar o megalançamento
de cerca de 1 milhão de cópias: pouco antes de entregar a obra às
livrarias, Márquez mudou o seu último capítulo. Quanto aos
críticos, eles apontaram com razão a afinidade do livro com clássicos
como Sobre a Velhice, de Cícero, ou Rei Lear, de Shakespeare.
Já a comparação com Lolita, de Vladimir Nabokov, que
foi feita com alguma insistência, é bem menos pertinente. Assim como
a sugestão de que Márquez copiou sua temática de A Casa
das Belas Adormecidas, do japonês Yasunari Kawabata, lançado
há pouco no Brasil e citado na epígrafe da novela. Márquez
falou, em entrevistas, de sua admiração por esse livro, mas o que
existe é, basicamente, o mesmo tema da senilidade inspirando dois grandes
autores. Em relação
à velhice, Memória não doura a pílula. Não
estamos diante de um livro de auto-ajuda, do tipo "Seja feliz com a idade que
você tem". Ele afirma que "idade não é a que a gente tem,
é a que a gente sente", mas isso não quer dizer sentir-se bem. "Me
acostumei", diz o protagonista, "a despertar cada dia com uma dor diferente que
ia mudando de lugar e forma, à medida que passavam os anos. Às vezes
parecia uma garrotada da morte e no dia seguinte se esfumava. Nesta época
ouvi dizer que o primeiro sintoma da velhice é quando a gente começa
a se parecer com o próprio pai."
Quem nos fala é um jornalista veterano de uma anônima cidade latino-americana
(possivelmente Barranquilla, na Colômbia, onde Márquez começou
sua carreira), vivendo numa época indeterminada, que indícios permitem
situar: é a época em que máquinas de escrever são
introduzidas na redação de jornais os anos 50, portanto.
Uma era pré-computador e, mais importante, pré-revolução
sexual. Todo relacionamento do personagem com mulheres ocorre em bordéis.
"Feio, tímido, anacrônico", ele também não se casou
no dia em que deveria fazê-lo, deixou a noiva esperando na igreja,
porque não conseguiria renunciar a seu estilo de vida sexual. A crônica
jornalística semanal e o prostíbulo resumem uma medíocre
existência que supostamente terá um clímax com o autopresente
no nonagésimo aniversário. O que ocorre, porém, é
um anticlímax, e aí chegamos à segunda parte do livro, menos
impactante que a primeira. A ação
se acelera, os acontecimentos se precipitam. Há um assassinato político
no bordel que leva a seu fechamento. Some a menina que foi o presente dos 90 anos
e o velho passa a procurá-la, claramente apaixonado. Mas essa jovem de
14 anos, que é originalmente uma pobre operária e que o ancião,
em sua fantasia, chama de Delgadina (personagem de uma tradicional história
espanhola), não chega a se impor como personagem. Mais intenso, e mais
interessante, é o diálogo com a cafetina Rosa Cabarcas, esta, sim,
uma figura vívida. É possível que isso seja intencional,
que García Márquez tenha optado por categorizar Delgadina como simples
objeto de desejo. No final, contudo, descobrimos que ela sente pelo velho algo
que pode ser rotulado como amor. Fica no ar uma série de interrogações:
o que representa um nonagenário para uma adolescente? Qual a medida do
componente edipiano numa relação dessas? Perguntas sem resposta.
Mas as respostas que já tivemos, e que nos falam da condição
humana como um todo, são suficientes para afirmar: Márquez é
mesmo um grande escritor.
| Descobertas do amor tardio
"Graças a Delgadina enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto
transcorriam meus 90 anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em
seu lugar não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo
contrário, todo um sistema de simulação para ocultar a desordem
da minha natureza. Descobri que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez,
que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas,
que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa
o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma
e sim um signo do zodíaco." Trecho
de Memória de Minhas P... Tristes | |
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