Edição 1913 . 13 de julho de 2005

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quando velho

Em seu novo livro, Gabriel García Márquez
faz uma bela reflexão sobre a senilidade


Moacyr Scliar


Cesar Rangel/AFP
García Márquez: depois de dez anos longe da ficção, ele continua em forma

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Trecho do livro

Nonagenários não são freqüentes na literatura, tanto menos numa época que cultua febrilmente a juventude. Daí a surpresa provocada pelas primeiras linhas de Memória de Minhas P... Tristes (tradução de Eric Nepomuceno; Record; 128 páginas; 24,90 reais), o novo livro do escritor colombiano Gabriel García Márquez: "No ano dos meus noventa quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem". Dependendo de seu grau de moralismo, o leitor pode até, mais que se surpreender, ficar com um pé atrás. Estaremos diante de uma história de insólita libertinagem? Teria o ganhador do Prêmio Nobel de 1982 se transformado naquilo que os americanos conhecem como "dirty old man" – um velho safado? Basta avançar um pouco para descobrir que não é nada disso. Esta Memória, muito embora não seja uma obra-prima, é uma bela reflexão sobre a velhice – e a prova de que, depois de dez anos sem publicar ficção, Márquez continua firme nesse ofício.

A última década não foi de inatividade para o autor de Cem Anos de Solidão. Ele preferiu, no entanto, voltar-se para reportagens (gênero em que inaugurou sua carreira literária) e para a autobiografia (Viver para Contar, publicado em 2002, foi o primeiro de três volumes prometidos nessa seara). Seu retorno ao romance – ou melhor, à novela, já que se trata de um livro curto – mostra as marcas desses últimos trabalhos. Um dos pais do realismo mágico, Márquez está hoje bem mais próximo do primeiro que do segundo termo dessa famosa expressão. Aos 77 anos, ele também é um homem para quem a velhice é uma experiência biográfica. Descobrir até que ponto o autor se projeta no narrador anônimo de Memória é matéria para especulação, mas não há dúvida de que estamos diante de um retrato de um artista quando idoso.

Publicado no ano passado em espanhol, Memória chega ao Brasil com um episódio curioso e muitas leituras críticas na bagagem. Curioso foi o modo como Márquez driblou os editores piratas que ameaçavam estragar o megalançamento de cerca de 1 milhão de cópias: pouco antes de entregar a obra às livrarias, Márquez mudou o seu último capítulo. Quanto aos críticos, eles apontaram com razão a afinidade do livro com clássicos como Sobre a Velhice, de Cícero, ou Rei Lear, de Shakespeare. Já a comparação com Lolita, de Vladimir Nabokov, que foi feita com alguma insistência, é bem menos pertinente. Assim como a sugestão de que Márquez copiou sua temática de A Casa das Belas Adormecidas, do japonês Yasunari Kawabata, lançado há pouco no Brasil e citado na epígrafe da novela. Márquez falou, em entrevistas, de sua admiração por esse livro, mas o que existe é, basicamente, o mesmo tema da senilidade inspirando dois grandes autores.

Em relação à velhice, Memória não doura a pílula. Não estamos diante de um livro de auto-ajuda, do tipo "Seja feliz com a idade que você tem". Ele afirma que "idade não é a que a gente tem, é a que a gente sente", mas isso não quer dizer sentir-se bem. "Me acostumei", diz o protagonista, "a despertar cada dia com uma dor diferente que ia mudando de lugar e forma, à medida que passavam os anos. Às vezes parecia uma garrotada da morte e no dia seguinte se esfumava. Nesta época ouvi dizer que o primeiro sintoma da velhice é quando a gente começa a se parecer com o próprio pai."

Quem nos fala é um jornalista veterano de uma anônima cidade latino-americana (possivelmente Barranquilla, na Colômbia, onde Márquez começou sua carreira), vivendo numa época indeterminada, que indícios permitem situar: é a época em que máquinas de escrever são introduzidas na redação de jornais – os anos 50, portanto. Uma era pré-computador e, mais importante, pré-revolução sexual. Todo relacionamento do personagem com mulheres ocorre em bordéis. "Feio, tímido, anacrônico", ele também não se casou – no dia em que deveria fazê-lo, deixou a noiva esperando na igreja, porque não conseguiria renunciar a seu estilo de vida sexual. A crônica jornalística semanal e o prostíbulo resumem uma medíocre existência que supostamente terá um clímax com o autopresente no nonagésimo aniversário. O que ocorre, porém, é um anticlímax, e aí chegamos à segunda parte do livro, menos impactante que a primeira.

A ação se acelera, os acontecimentos se precipitam. Há um assassinato político no bordel que leva a seu fechamento. Some a menina que foi o presente dos 90 anos e o velho passa a procurá-la, claramente apaixonado. Mas essa jovem de 14 anos, que é originalmente uma pobre operária e que o ancião, em sua fantasia, chama de Delgadina (personagem de uma tradicional história espanhola), não chega a se impor como personagem. Mais intenso, e mais interessante, é o diálogo com a cafetina Rosa Cabarcas, esta, sim, uma figura vívida. É possível que isso seja intencional, que García Márquez tenha optado por categorizar Delgadina como simples objeto de desejo. No final, contudo, descobrimos que ela sente pelo velho algo que pode ser rotulado como amor. Fica no ar uma série de interrogações: o que representa um nonagenário para uma adolescente? Qual a medida do componente edipiano numa relação dessas? Perguntas sem resposta. Mas as respostas que já tivemos, e que nos falam da condição humana como um todo, são suficientes para afirmar: Márquez é mesmo um grande escritor.

 

Descobertas do amor tardio

"Graças a Delgadina enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus 90 anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco."

Trecho de Memória de Minhas P... Tristes

 

 

 
 
 
 
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