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Internacional A
vez de Londres Depois de Nova York e Madri,
o terrorismo ao estilo de Osama bin Laden ataca outra grande metrópole
do Ocidente. Bombas no metrô e num ônibus deixam mais de cinqüenta
mortos na capital inglesa  Diogo
Schelp Sang
Tan/AP
 | NO
CENTRO DA CIDADE Explosão transforma em sucata
um ônibus de dois andares lotado de passageiros: ataque a poucas quadras do Museu
Britânico |
Foi a vez de Londres.
Depois das atrocidades do 11 de Setembro nos Estados Unidos e do 11 de Março
em Madri, a capital inglesa sabia que estava sob o risco de ser a próxima
metrópole ocidental a sofrer um grande ataque do terrorismo islâmico.
Um crime anunciado não é menos chocante. Na manhã de quinta-feira
passada, afinal, uma série de bombas no sistema de transporte público
da capital londrina acrescentou nova data ao calendário da infâmia,
o 7 de Julho. Foram quatro explosões, três delas em trens do metrô
e a última no interior de um daqueles ônibus vermelhos de dois andares
característicos do cenário londrino. Detonados de forma coordenada
no horário de maior movimento na área central da cidade, deixaram
mais de cinqüenta mortos e 700 feridos, muitos em estado grave. Londres constituiu-se
em alvo óbvio por reunir características que o fundamentalismo muçulmano
abomina. Um grande centro financeiro mundial, síntese do Ocidente e do
capitalismo moderno, metrópole cosmopolita, tolerante com a diversidade
humana e berço da democracia. Por fim, é a capital do aliado de
primeira hora dos Estados Unidos na guerra ao terrorismo. O governo inglês
foi o único dos grandes da Europa que seguiu o presidente George W. Bush
no Iraque. Como foi possível
aos terroristas realizar quatro ataques, quase simultâneos, no coração
da cidade européia com a melhor estrutura para combater esse tipo de perigo?
Os ingleses sempre levaram a sério o risco do terror e, nesse aspecto,
o metrô inglês é um dos mais seguros. A Scotland Yard, a polícia
metropolitana inglesa, está acostumada a lidar com a ameaça do separatismo
irlandês, e o serviço secreto britânico é bem informado
sobre radicais muçulmanos. Nos últimos anos, a polícia inglesa
abortou várias ameaças tenebrosas, incluindo um plano do terrorismo
islâmico de envenenamento em massa. Desta vez, não houve aviso. Os
terroristas não só prepararam uma matança coordenada em vários
pontos da capital inglesa, como o fizeram no dia em que na Escócia era
inaugurado o encontro do G8, o grupo dos oito países mais ricos e poderosos
do mundo. A sensação de vulnerabilidade foi ainda maior porque,
um dia antes, milhares de londrinos comemoraram nas ruas a escolha de sua cidade
para sediar as Olimpíadas de 2012. Edmond
Terakopian/AP
 | A
CAMINHO DO TRABALHO Os atentados aconteceram
de manhã, na hora de pico dos meios de transporte. Cobertos de fuligem e sangue,
os sobreviventes começaram a ser medicados na rua: no total, 700 feridos | Jane
Mingay /AP
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O fato de os ingleses terem sido incapazes de antecipar os atentados mostra como
é difícil para uma sociedade aberta evitar o terrorismo. Apesar
de todas as medidas de segurança, uma cidade moderna é vulnerável.
Milhões de pessoas cruzam a capital inglesa diariamente, através
de uma enorme rede de transportes. O metrô londrino, o mais antigo do mundo,
constitui uma malha de 408 quilômetros de extensão pela qual passam
3 milhões de passageiros por dia. As 1.800 câmeras de segurança
instaladas nas estações subterrâneas poderão ajudar
a identificar os responsáveis pelos ataques nos próximos dias. Há
muitas semelhanças entre os atentados em Nova York, Madri e Londres. Os
três foram planejados para atingir vários pontos simultaneamente
e procuravam matar o maior número de pessoas possível. As coincidências
entre Londres e Madri, no entanto, são ainda maiores.
Nos dois atentados os terroristas escolheram datas políticas específicas:
às vésperas das eleições na Espanha e a reunião
do G8 da semana passada, cujo anfitrião foi o primeiro-ministro inglês,
Tony Blair. Em ambas, o alvo foi o sistema de transporte urbano no horário
de pico, quando as pessoas estavam indo para o trabalho. Nos dois casos, os terroristas
preferiram explosivos acionados com antecedência ou a distância a
usar terroristas-suicidas. Tudo isso aponta numa única direção,
a Al Qaeda, a tenebrosa internacional do terrorismo islâmico fundada pelo
saudita Osama bin Laden. Não se trata exatamente da mesma organização
hierarquizada que lançou aviões contra o World Trade Center, em
Nova York. A maioria dos comandantes do 11 de Setembro parece ter sido morta,
presa ou, como Bin Laden, se escondeu nas montanhas do Afeganistão.
O retrato atual é o de um movimento fragmentado em que cada célula
toma as próprias iniciativas, e não o de um grupo com coordenação
central. A ameaça da Al Qaeda é hoje similar à de um câncer
que produziu metástase. O que parece ter crescido de forma exponencial
é o contingente de simpatizantes, com doses extras de motivação
fornecidas pela guerra no Iraque. "Osama bin Laden, hoje refugiado em algum lugar
entre o Afeganistão e o Paquistão e sem o mesmo poder de antes,
criou um estilo que é muito copiado por aspirantes a terroristas", disse
a VEJA o inglês Stephen Ulph, especialista em terrorismo. É uma complicação
adicional no combate ao terrorismo. Diferentemente do que ocorreu em 11 de setembro,
não há um alvo óbvio para retaliar os atentados de Madri
e Londres. Os campos de treinamento de terroristas que Osama bin Laden mantinha
no Afeganistão já foram devastados.
Stephen
Pond/AFP
 | REUNIÃO
INTERROMPIDA Tony Blair deixa o encontro do G8:
em discurso, disse que o terror não vencerá os ingleses |
A
Al Qaeda é a primeira organização terrorista a operar sem
base ou programa nacional. Pode-se acrescentar que também carece de uma
reivindicação factível, de modo que luta sem possibilidade
de vitória. Sua ideologia tem por base um desejo de vingança desvairada
contra governos, sistemas, religiões e povos aos quais atribui faltas reais
ou imaginárias que só podem ser lavadas em sangue. Em Madri, os
terroristas deixaram tantas pistas (um celular ligado a uma bomba que não
explodiu, um veículo com documentos) que acabaram presos ou se suicidaram
para escapar à prisão. As descobertas da polícia espanhola
podem agora ajudar a Scotland Yard. Os autores do massacre em Madri eram na maioria
marroquinos radicados na Espanha. Os de Londres podem muito bem ser ingleses ou
estar no país há muito tempo, com bom conhecimento da cidade. A
suspeita de envolvimento de voluntários locais é reforçada
pela pouca potência das bombas que explodiram na semana passada. A polícia
inglesa desconfia que possam ser de produção caseira. Se tivesse
sido utilizado explosivo militar, os estragos causados pelas explosões
no espaço confinado dos túneis do metrô teriam sido tremendamente
mais devastadores.
Vivem na Inglaterra
2 milhões dos 11 milhões de muçulmanos da Europa. Diferentemente
do que seria de esperar, o contato com a democracia e a tolerância e a prosperidade
européias muitas vezes produzem rancor e frustração. É
notável que o atentado de 11 de setembro tenha sido cometido por uma célula
formada por estudantes universitários em Hamburgo, na Alemanha. Por que
a Al Qaeda não voltou a atacar nos Estados Unidos? Talvez por não
ter o pessoal necessário dentro do país. "A União Européia
facilita o trânsito de pessoas entre os países, o que permite que
os terroristas islâmicos estejam muito mais organizados hoje no continente
do que estavam há dez anos", disse a VEJA o antropólogo americano
Scott Atran, diretor do Centro Nacional de Pesquisas Científicas de Paris,
na França. Pesquisas mostram que 15% dos muçulmanos da Inglaterra
simpatizam com a idéia de atacar os Estados Unidos. Basta um pequeno número
de fanáticos dispostos a levar adiante seus planos, e a tragédia
é completa. Esses terroristas acabam protegidos pela comunidade maior de
simpatizantes, que mantêm silêncio e permitem que suas entidades sejam
usadas nos preparativos. É o tipo de simbiose que os ingleses viram entre
o IRA e a comunidade católica na Irlanda do Norte.
É por isso que, de muitas formas, como escreveu o colunista
Thomas Friedman, do New York Times, a guerra contra o terror é um
assunto para ser resolvido entre os próprios muçulmanos. A grande
restrição imposta ao comportamento humano, observa Friedman, não
é a polícia, mas a cultura e a religião. O que dizem vizinhos,
sacerdotes e líderes políticos tem peso decisivo na hora de definir
o que é certo ou errado. O que se ouve no mundo muçulmano e nas
comunidades islâmicas estabelecidas no Ocidente é sobretudo o peso
do silêncio diante dos crimes cometidos em nome de Alá. Por ter escrito
um livro controverso sobre o profeta Maomé, o inglês Salman Rushdie
foi condenado à morte pelos aiatolás do Irã. Até hoje,
nenhum clérigo importante do Islã emitiu uma fatwa para condenar
Osama bin Laden. Ivan
Peredruk/Reuters
 | DESTRUIÇÃO
E FUGA Os pedaços do ônibus da linha 30 espalhados
em rua, e, acima, passageiros de um dos trens atacados fugindo por um túnel: fotos
feitas pelos celulares dos passageiros | Alexander
Chadwick/AP
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And life goes on...
Quem já entrou num pub lotado, a minutos do fechamento, resiste a acreditar
no estereótipo do inglês calmo, controlado e inabalável. Mas,
nos momentos em que essas qualidades são realmente necessárias,
estranhos mecanismos entram em ação e elas afloram em toda a sua
beleza. No dia seguinte a um arrasador bombardeio alemão, em setembro de
1940, três homens de chapéu-coco procuram livros miraculosamente
intatos na biblioteca de Holland House (hoje um albergue para jovens). A cena
transformou-se também em símbolo da vitória da civilização,
da ordem e do que o espírito humano tem de melhor sobre a barbárie,
a violência insensata e o que a natureza humana tem de pior. Na semana passada,
essas forças voltaram a se confrontar nas ruas de Londres. Os britânicos,
de novo, deram um exemplo de dignidade e fleuma diante de uma grande adversidade.
Alguém tem dúvidas sobre quais forças saíram vitoriosas?
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