Edição 1913 . 13 de julho de 2005

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Internacional
A vez de Londres

Depois de Nova York e Madri, o terrorismo
ao estilo de Osama bin Laden ataca outra
grande metrópole do Ocidente. Bombas
no metrô e num ônibus deixam mais de
cinqüenta mortos na capital inglesa


Diogo Schelp

 

Sang Tan/AP
NO CENTRO DA CIDADE
Explosão transforma em sucata um ônibus de dois andares lotado de passageiros: ataque a poucas quadras do Museu Britânico


NESTA REPORTAGEM
Quadro: No coração de Londres

EXCLUSIVO ON-LINE
Fotos dos atentados
Em Profundidade: Terror Internacional

Foi a vez de Londres. Depois das atrocidades do 11 de Setembro nos Estados Unidos e do 11 de Março em Madri, a capital inglesa sabia que estava sob o risco de ser a próxima metrópole ocidental a sofrer um grande ataque do terrorismo islâmico. Um crime anunciado não é menos chocante. Na manhã de quinta-feira passada, afinal, uma série de bombas no sistema de transporte público da capital londrina acrescentou nova data ao calendário da infâmia, o 7 de Julho. Foram quatro explosões, três delas em trens do metrô e a última no interior de um daqueles ônibus vermelhos de dois andares característicos do cenário londrino. Detonados de forma coordenada no horário de maior movimento na área central da cidade, deixaram mais de cinqüenta mortos e 700 feridos, muitos em estado grave. Londres constituiu-se em alvo óbvio por reunir características que o fundamentalismo muçulmano abomina. Um grande centro financeiro mundial, síntese do Ocidente e do capitalismo moderno, metrópole cosmopolita, tolerante com a diversidade humana e berço da democracia. Por fim, é a capital do aliado de primeira hora dos Estados Unidos na guerra ao terrorismo. O governo inglês foi o único dos grandes da Europa que seguiu o presidente George W. Bush no Iraque.

Como foi possível aos terroristas realizar quatro ataques, quase simultâneos, no coração da cidade européia com a melhor estrutura para combater esse tipo de perigo? Os ingleses sempre levaram a sério o risco do terror e, nesse aspecto, o metrô inglês é um dos mais seguros. A Scotland Yard, a polícia metropolitana inglesa, está acostumada a lidar com a ameaça do separatismo irlandês, e o serviço secreto britânico é bem informado sobre radicais muçulmanos. Nos últimos anos, a polícia inglesa abortou várias ameaças tenebrosas, incluindo um plano do terrorismo islâmico de envenenamento em massa. Desta vez, não houve aviso. Os terroristas não só prepararam uma matança coordenada em vários pontos da capital inglesa, como o fizeram no dia em que na Escócia era inaugurado o encontro do G8, o grupo dos oito países mais ricos e poderosos do mundo. A sensação de vulnerabilidade foi ainda maior porque, um dia antes, milhares de londrinos comemoraram nas ruas a escolha de sua cidade para sediar as Olimpíadas de 2012.

 

Edmond Terakopian/AP
A CAMINHO DO TRABALHO
Os atentados aconteceram de manhã, na hora de pico dos meios de transporte. Cobertos de fuligem e sangue, os sobreviventes começaram a ser medicados na rua: no total, 700 feridos
Jane Mingay /AP

O fato de os ingleses terem sido incapazes de antecipar os atentados mostra como é difícil para uma sociedade aberta evitar o terrorismo. Apesar de todas as medidas de segurança, uma cidade moderna é vulnerável. Milhões de pessoas cruzam a capital inglesa diariamente, através de uma enorme rede de transportes. O metrô londrino, o mais antigo do mundo, constitui uma malha de 408 quilômetros de extensão pela qual passam 3 milhões de passageiros por dia. As 1.800 câmeras de segurança instaladas nas estações subterrâneas poderão ajudar a identificar os responsáveis pelos ataques nos próximos dias. Há muitas semelhanças entre os atentados em Nova York, Madri e Londres. Os três foram planejados para atingir vários pontos simultaneamente e procuravam matar o maior número de pessoas possível. As coincidências entre Londres e Madri, no entanto, são ainda maiores.

Nos dois atentados os terroristas escolheram datas políticas específicas: às vésperas das eleições na Espanha e a reunião do G8 da semana passada, cujo anfitrião foi o primeiro-ministro inglês, Tony Blair. Em ambas, o alvo foi o sistema de transporte urbano no horário de pico, quando as pessoas estavam indo para o trabalho. Nos dois casos, os terroristas preferiram explosivos acionados com antecedência ou a distância a usar terroristas-suicidas. Tudo isso aponta numa única direção, a Al Qaeda, a tenebrosa internacional do terrorismo islâmico fundada pelo saudita Osama bin Laden. Não se trata exatamente da mesma organização hierarquizada que lançou aviões contra o World Trade Center, em Nova York. A maioria dos comandantes do 11 de Setembro parece ter sido morta, presa ou, como Bin Laden, se escondeu nas montanhas do Afeganistão.

O retrato atual é o de um movimento fragmentado em que cada célula toma as próprias iniciativas, e não o de um grupo com coordenação central. A ameaça da Al Qaeda é hoje similar à de um câncer que produziu metástase. O que parece ter crescido de forma exponencial é o contingente de simpatizantes, com doses extras de motivação fornecidas pela guerra no Iraque. "Osama bin Laden, hoje refugiado em algum lugar entre o Afeganistão e o Paquistão e sem o mesmo poder de antes, criou um estilo que é muito copiado por aspirantes a terroristas", disse a VEJA o inglês Stephen Ulph, especialista em terrorismo. É uma complicação adicional no combate ao terrorismo. Diferentemente do que ocorreu em 11 de setembro, não há um alvo óbvio para retaliar os atentados de Madri e Londres. Os campos de treinamento de terroristas que Osama bin Laden mantinha no Afeganistão já foram devastados.

Stephen Pond/AFP
REUNIÃO INTERROMPIDA
Tony Blair deixa o encontro do G8: em discurso, disse que o terror não vencerá os ingleses


A Al Qaeda é a primeira organização terrorista a operar sem base ou programa nacional. Pode-se acrescentar que também carece de uma reivindicação factível, de modo que luta sem possibilidade de vitória. Sua ideologia tem por base um desejo de vingança desvairada contra governos, sistemas, religiões e povos aos quais atribui faltas reais ou imaginárias que só podem ser lavadas em sangue. Em Madri, os terroristas deixaram tantas pistas (um celular ligado a uma bomba que não explodiu, um veículo com documentos) que acabaram presos ou se suicidaram para escapar à prisão. As descobertas da polícia espanhola podem agora ajudar a Scotland Yard. Os autores do massacre em Madri eram na maioria marroquinos radicados na Espanha. Os de Londres podem muito bem ser ingleses ou estar no país há muito tempo, com bom conhecimento da cidade. A suspeita de envolvimento de voluntários locais é reforçada pela pouca potência das bombas que explodiram na semana passada. A polícia inglesa desconfia que possam ser de produção caseira. Se tivesse sido utilizado explosivo militar, os estragos causados pelas explosões no espaço confinado dos túneis do metrô teriam sido tremendamente mais devastadores.

Vivem na Inglaterra 2 milhões dos 11 milhões de muçulmanos da Europa. Diferentemente do que seria de esperar, o contato com a democracia e a tolerância e a prosperidade européias muitas vezes produzem rancor e frustração. É notável que o atentado de 11 de setembro tenha sido cometido por uma célula formada por estudantes universitários em Hamburgo, na Alemanha. Por que a Al Qaeda não voltou a atacar nos Estados Unidos? Talvez por não ter o pessoal necessário dentro do país. "A União Européia facilita o trânsito de pessoas entre os países, o que permite que os terroristas islâmicos estejam muito mais organizados hoje no continente do que estavam há dez anos", disse a VEJA o antropólogo americano Scott Atran, diretor do Centro Nacional de Pesquisas Científicas de Paris, na França. Pesquisas mostram que 15% dos muçulmanos da Inglaterra simpatizam com a idéia de atacar os Estados Unidos. Basta um pequeno número de fanáticos dispostos a levar adiante seus planos, e a tragédia é completa. Esses terroristas acabam protegidos pela comunidade maior de simpatizantes, que mantêm silêncio e permitem que suas entidades sejam usadas nos preparativos. É o tipo de simbiose que os ingleses viram entre o IRA e a comunidade católica na Irlanda do Norte.

É por isso que, de muitas formas, como escreveu o colunista Thomas Friedman, do New York Times, a guerra contra o terror é um assunto para ser resolvido entre os próprios muçulmanos. A grande restrição imposta ao comportamento humano, observa Friedman, não é a polícia, mas a cultura e a religião. O que dizem vizinhos, sacerdotes e líderes políticos tem peso decisivo na hora de definir o que é certo ou errado. O que se ouve no mundo muçulmano e nas comunidades islâmicas estabelecidas no Ocidente é sobretudo o peso do silêncio diante dos crimes cometidos em nome de Alá. Por ter escrito um livro controverso sobre o profeta Maomé, o inglês Salman Rushdie foi condenado à morte pelos aiatolás do Irã. Até hoje, nenhum clérigo importante do Islã emitiu uma fatwa para condenar Osama bin Laden.

 

Ivan Peredruk/Reuters
DESTRUIÇÃO E FUGA
Os pedaços do ônibus da linha 30 espalhados em rua, e, acima, passageiros de um dos trens atacados fugindo por um túnel: fotos feitas pelos celulares dos passageiros
Alexander Chadwick/AP

 

And life goes on...

Quem já entrou num pub lotado, a minutos do fechamento, resiste a acreditar no estereótipo do inglês calmo, controlado e inabalável. Mas, nos momentos em que essas qualidades são realmente necessárias, estranhos mecanismos entram em ação e elas afloram em toda a sua beleza. No dia seguinte a um arrasador bombardeio alemão, em setembro de 1940, três homens de chapéu-coco procuram livros miraculosamente intatos na biblioteca de Holland House (hoje um albergue para jovens). A cena transformou-se também em símbolo da vitória da civilização, da ordem e do que o espírito humano tem de melhor sobre a barbárie, a violência insensata e o que a natureza humana tem de pior. Na semana passada, essas forças voltaram a se confrontar nas ruas de Londres. Os britânicos, de novo, deram um exemplo de dignidade e fleuma diante de uma grande adversidade. Alguém tem dúvidas sobre quais forças saíram vitoriosas?

 
 
 
 
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