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Crise Já
passou do bilhão O escândalo começou
com 3 000 reais no bolso de um servidor de quarto escalão. Já
revelou uma dinheirama e não pára de degolar autoridades 
Otávio Cabral
Há oito semanas, o escândalo
começou com um funcionário de quarto escalão arrecadando
uma gorjeta de 3.000 reais, destinada a ser o adiantamento de uma propina de 15.000
reais. Na semana passada, como que movido com a propulsão dos foguetes,
o escândalo já estava prestes a ceifar o segundo ministro, o companheiro
Luiz Gushiken, responsável pela área de comunicação
e publicidade do governo, e já apareciam cifras beirando os 2 bilhões
de reais. É uma trajetória fulminante e devastadora, que credencia
o atual escândalo a figurar entre os grandes rombos da história recente.
Está próximo do da máfia dos vampiros, que sugava dinheiro
da Saúde, cujo estrago foi estimado em 2 bilhões de reais. Próximo
da roubalheira na velha Sudam, que veio a público em 2001 e também
bateu na casa dos 2 bilhões de reais. Rivaliza até com o pai de
todos os escândalos, aquele que derrubou Collor e enjaulou seu sócio
PC Farias, estimado em 2,5 bilhões de reais, em valores de hoje. O caso
de agora, no entanto, tem uma diferença central. As cifras bilionárias
orbitam, pelo menos até aqui, em torno de um único personagem: o
mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza.
Na quarta-feira passada, o empresário depôs na CPI dos Correios durante
catorze horas, no Congresso Nacional. Deu respostas telegráficas, deixou
pencas de dúvidas no ar, mas conseguiu atravessar o interrogatório
sem fazer mais estragos do que os já existentes. O estrago maior apareceu
na primeira leva de documentos sigilosos que aportou na CPI. No pacote, em que
aparecem mais de 300 documentos diferentes, dos quais 77 são sigilosos,
descobre-se a vida financeira de Marcos Valério de 2000 até agora.
Nos papéis, pode-se constatar que o empresário é um homem
rico desde aquele ano, mas tudo deu um salto espetacular de 2003 em diante, período
que coincide com o governo do PT. Tudo é tudo mesmo: seu patrimônio
pessoal, sua movimentação bancária e a dinheirama que passou
pelas contas de suas empresas. Em 2000, Marcos Valério tinha um patrimônio
de 2,9 milhões de reais e vinha aumentando sua riqueza a um ritmo de uns
15% ao ano um desempenho "bastante significativo", mas longe de ser inexplicável,
segundo atestou a VEJA, falando em tese, o professor Claudio Felisoni de Angelo,
da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade
de São Paulo (FEA-USP). Em 2003, no entanto, sua fortuna saltou de 3,9
milhões de reais para 11 milhões de reais, num crescimento sensacional
de mais de 180%. Nesse caso, é difícil de explicar. "Um salto desse
tamanho, só ganhando na loteria", garante um alto técnico da Receita
Federal que teve acesso aos dados patrimoniais do empresário.
Ana Araujo  |
NOME AOS BOIS
O deputado Jefferson: ele é quem trouxe a público o nome do empresário
Marcos Valério | A CPI dos Correios
já identificou que Marcos Valério é dono de dezoito empresas,
mas até agora recebeu dados detalhados da vida financeira de apenas seis
delas. De janeiro de 2000 até maio de 2005, essas seis empresas movimentaram
1,6 bilhão de reais. Precisamente 1.616.381.765,46. A CPI já aprovou
a quebra do sigilo bancário e fiscal de outras dez companhias do empresário.
Se for mantida a proporção, a movimentação financeira
de Marcos Valério pode ultrapassar os 3 bilhões de reais! O que
era um escândalo de tostões definitivamente já se transformou
num escândalo de bilhões. Escândalo porque, da fortuna que
passou pelas contas de sua empresa, a origem é duvidosa em alguns casos.
Só no Banco do Brasil circularam quase 460 milhões de reais sem
origem identificada. O pior é que o Banco do Brasil não se preocupou
em cumprir a lei informando de imediato ao Conselho de Controle de Atividades
Financeiras (Coaf) todas as movimentações financeiras acima de 100.000
reais uma lei cujo espírito é tentar flagrar movimentações
volumosas e atípicas para abater em pleno vôo qualquer atividade
ilícita. O BB só informou ao Coaf dias atrás, depois que
o escândalo veio à tona, inventando um exótico comunicado
retroativo.
Adriano Machado/Folha
Imagem  |
A DERRUBADA
DA TRÓICA Na semana passada, consumou-se a profecia de Roberto
Jefferson, segundo a qual ele levaria junto José Dirceu (acima), Delúbio
(abaixo, à esq.) e Silvio Pereira. Os três já caíram
| Jonne Roriz/AE  | Monica
Zarattini/AE  |
A movimentação financeira nas contas
bancárias pessoais de Marcos Valério e sua mulher, Renilda, também
chama atenção. Entre 2000 e 2005, eles movimentaram 46,2 milhões
de reais, o que dá uma média de 8,4 milhões de reais por
ano. A dinheirama circulou por sete bancos diferentes, com destaque para o Banco
do Brasil e o BankBoston, que juntos concentraram quase 70% da movimentação
financeira do casal. O BankBoston cometeu o mesmo pecado que o Banco do Brasil.
Só dias atrás, depois de ver o escândalo nas manchetes dos
jornais, o BankBoston despachou um relatório de saques e depósitos
superiores a 100.000 reais ao Coaf. Nesse informe retardatário, apareceram
duas operações suspeitíssimas: uma transferência eletrônica
de 782.000 reais e outra de 120.000 reais, ambas em favor de Glênio Sabbad
Guedes, procurador da Fazenda Nacional. Por que um procurador receberia tanto
dinheiro do empresário? Na explicação que deu, o procurador
informou que a conta favorecida pertence a seu pai. Guedes disse que é
apenas conhecido de Marcos Valério, mas já se sabe que o empresário
lhe pagou passagens aéreas e até a conta do celular, transações
incomuns entre apenas conhecidos. Sob qualquer
ângulo que se analise, suas empresas ou suas contas pessoais, Marcos Valério
lidou com mais dinheiro do que parece razoável. "O movimento não
é compatível com alguém que tenha como única atividade
conhecida a publicidade", afirma Delcidio Amaral, o senador do PT de Mato Grosso
do Sul escalado para presidir a CPI dos Correios e que, até aqui, tem tido
um comportamento imparcial na condução dos trabalhos. "O que transparece
dos dados é que ele tem uma atividade sob os holofotes e outra atividade
subterrânea." Marcos Valério é acusado de ser o "operador
do mensalão", distribuindo os 30.000 reais que o PT estaria pagando aos
parlamentares aliados, mas integrantes da CPI dos Correios já começam
a desconfiar que ele é muito mais do que isso: suspeitam que comande um
centro de lavagem de dinheiro, que, dado o volume de recursos, não operaria
apenas para o PT, mas também para outros esquemas. Para averiguar essa
hipótese, a CPI vai investigar cinqüenta operações de
crédito da DNA, uma das agências de publicidade de Marcos Valério,
nas quais se enviou um total de 750.000 dólares ao exterior.
Ed Ferreira/AE  |
ARQUIVO SECRETO
Sessão da CPI dos Correios: nos arquivos, mais de 300 documentos, dos quais
77 são sigilosos A cronologia dos escândalos em | À
medida que se avoluma a folia financeira do escândalo, seus estragos políticos
também crescem. Agora, seis semanas depois de o deputado Roberto Jefferson
ter ameaçado que, se fosse incriminado no escândalo, levaria junto
José Dirceu, Silvio Pereira e Delúbio Soares, a profecia se consumou.
No dia 16 de junho, José Dirceu deixou o comando da Casa Civil, cinqüenta
horas depois de Jefferson ter dito, em depoimento, a frase já famosa: "Rápido,
sai daí rápido, Zé". Na semana passada, os outros dois que
compunham a trindade ameaçada por Jefferson, a quem se deve creditar, também,
o surgimento do próprio Marcos Valério no caso, caíram. Na
última segunda-feira, Silvio Pereira, que participou da divisão
política dos cargos do governo, pediu seu afastamento do cargo de secretário-geral
do PT. No dia seguinte, sob o impacto da revelação feita por VEJA
de que o partido fizera um empréstimo bancário de 2,4 milhões
de reais com o aval e o pagamento de uma prestação por parte de
Marcos Valério, o tesoureiro Delúbio Soares também se afastou
do cargo. Dos mais diretamente ameaçados, apenas o ex-deputado José
Genoíno, presidente do PT, ainda permanecia no cargo até a noite
de sexta-feira passada. Mas badalava forte. Quando
VEJA divulgou o empréstimo de 2,4 milhões, Genoíno, que negara
sua existência, admitiu que a operação existia e atribuiu
o mal-entendido a Delúbio Soares, que lhe teria prestado informações
incompletas. Genoíno disse que assinara o empréstimo "sem ler",
razão pela qual ignorava que Marcos Valério era um dos avalistas,
e ficou na muda sobre outras operações semelhantes. Mas já
apareceu outro empréstimo, de 3 milhões de reais, contraído
no Banco Rural, também com aval de Marcos Valério. Em nota oficial,
o PT confirmou essa segunda transação bancária e, discretamente,
encaixou no texto uma pequena Operação Uruguai, apelido que, desde
a era Collor, se tornou sinônimo de farsa financeira destinada a esquentar
dinheiro frio. Na nota, distribuída na sexta-feira passada, o PT informa
que a parcela do empréstimo de 2,4 milhões que foi paga por Marcos
Valério, de 350.000 reais, será devidamente reembolsada ao empresário
na data de seu vencimento, em 22 de agosto próximo. Tudo como se fosse
uma transação financeira banhada na mais alta normalidade.
É até provável que Marcos Valério
venha mesmo a ser reembolsado, mas tal procedimento só entrou no plano
das intenções petistas depois que se descobriram as relações
ocultas do PT com o empresário. Antes disso, o partido não tinha
a menor intenção de ressarcir os 350.000 reais a Marcos Valério.
A prova está no balanço financeiro do PT apresentado ao Tribunal
Superior Eleitoral, o TSE. No documento, o partido informa que, até o dia
31 de dezembro de 2004, tinha 20,4 milhões de reais em dívidas.
Não há uma linha sobre a dívida de 350.000 reais com Marcos
Valério. No balanço, os contadores do PT descrevem detalhadamente
as dívidas com bancos, imobiliárias, gráficas e mesmo com
pessoas físicas, como um tal de Clóvis Roberto Silveira, com quem
o partido informa ter uma dívida de 495,97 reais por conta de uma "locação
de bens imóveis". No entanto, nem uma linha sobre a dívida mais
de 700 vezes maior com Valério. É um sinal eloqüente de que,
até então, o PT entendera o desembolso do empresário como
um presentaço do amigo ou um dever do sócio, quem sabe ,
tanto que os 350.000 reais só surgem como dívida na nota uruguaia
do partido. A dimensão de Marcos Valério
em suas relações com o PT tem-se avolumado num ritmo acelerado.
Na semana passada, surgiu outra novidade a de que o empresário pode
ter chegado ao ponto de negociar cargos no governo com políticos aliados.
A denúncia ninguém conseguiu entender se foi feita de forma
proposital ou acidental está numa nota emitida pelo deputado José
Borba, do PMDB do Paraná. Borba foi acusado por Fernanda Karina Somaggio,
a ex-secretária de Marcos Valério, de ser um dos receptores do dinheiro
do mensalão. Borba enrolou-se um bocado: primeiro, disse que mal conhecia
Marcos Valério, depois admitiu que tinha relações com ele,
mas sempre negou qualquer participação no mensalão. Numa
nota, destinada a se explicar, Borba informa que esteve com Marcos Valério
nas ocasiões em que, como líder do PMDB, negociou cargos com o empresário.
Cargos? Isso mesmo. "O que discuti com dirigentes do PT e o senhor Marcos Valério
é o que lideranças partidárias discutem hoje e sempre e em
todos os governos: a nomeação de seus partidários para cargos
na administração", diz a nota. O tom solene da afirmação,
próprio de quem pronuncia verdades peremptórias, produz uma dúvida
cruel: Borba queria mesmo denunciar a participação de Marcos Valério
na divisão de cargos ou deu com a língua nos dentes? Numa reunião
do PMDB, o governador Roberto Requião, do Paraná, avaliando a situação,
saiu-se com o seguinte diagnóstico: "Nem ladrão o Borba sabe ser".
Requião é do mesmo partido e do mesmo estado que Borba. Deve saber
do que está falando. |