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Crise
O negocião do Lulinha
Como o filho do presidente se tornou
sócio de uma gigante da telefonia
sem tirar um único real do bolso

Marcelo Carneiro, Juliana Linhares
e Thaís Oyama
Ana Araujo
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Roberto Setton
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OPERAÇÃO
INTRINCADA
Metade dos 5 milhões de reais que a Telemar injetou
na empresa de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha
(acima, à esq.), e Kalil Bittar (acima)
veio por meio de uma operação de emissão
de debêntures (à esq.). Para especialistas,
o grau de complexidade revelado na operação só
tem uma justificativa: a Gamecorp e a Telemar não queriam
que sua sociedade viesse a público |
Fábio Luís Lula
da Silva, de 30 anos, um dos cinco filhos do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, experimentava, até 2003, uma situação
profissional parecida com a de muitos brasileiros: a do subemprego.
Formado em biologia, Lulinha, como é chamado pelos amigos,
fez alguns poucos trabalhos na área (como uma monitoria no
Zoológico de São Paulo, por exemplo), todos com baixa
ou nenhuma remuneração. Para ganhar a vida, dava aulas
de inglês e informática. Em dezembro de 2003, essa
situação mudou. Fábio Luís começou
uma carreira numa área que nada tem a ver com drosófilas
ou pteridófitas: a do milionário mercado das agências
de publicidade. Atualmente, o primeiro filho do casal Lula e Marisa
Letícia da Silva é sócio de três empresas
que, além de prestar serviços de propaganda (pelo
menos no papel), produzem um programa de games para TV. Somados,
os capitais das empresas ultrapassam os 5 milhões de reais.
Individualmente, de acordo com sua participação societária,
Fábio Luís tem 625.000 reais em ações
mais do que os 422.000 reais que seu pai presidente amealhou
ao longo de toda a vida, segundo a declaração de bens
que apresentou em 2002 ao Tribunal Regional Eleitoral. Melhor que
tudo: nessa fulgurante trajetória, Fábio não
teve de investir um único real. O negócio foi bancado
quase que integralmente pela Telemar, a maior companhia de telefonia
do país. Com base em documentos obtidos em cartórios
de São Paulo, e em entrevistas com profissionais do setor,
VEJA reconstituiu a história empresarial que segue.
No fim de 2003, Fábio
Luís abriu em São Paulo a G4 Entretenimento e Tecnologia
Digital. Trata-se de uma companhia da área de publicidade
e propaganda, que detém a licença para reproduzir
o conteúdo do canal americano G4, especializado em games.
O negócio foi feito em sociedade com os irmãos Kalil
Bittar e Fernando Bittar, filhos de um velho amigo de Lula, Jacó
Bittar. Para quem não se lembra, Bittar é um ex-prefeito
de Campinas, no interior de São Paulo, que foi um, digamos,
pioneiro no PT. Ele terminou o mandato em 1992 alvejado por denúncias
de corrupção e atualmente responde a pelo menos oito
processos na Justiça. A G4 nasceu pequena, com um capital
social inicial de 100.000 reais. Fábio entrou com 50.000
reais e os Bittar, que já atuavam no mercado havia doze anos,
com 25.000 reais cada um. Mas nenhum deles precisou tirar dinheiro
do bolso para montar a sociedade. "Esse capital será integralizado
ao longo do ano", disse Kalil Bittar a VEJA. Fábio, apesar
de ser o sócio majoritário da G4, preferiu não
dar entrevista. Bittar, perguntado sobre a função
do sócio na empreitada, respondeu: "O Fábio detona
nos games, conhece todos".
O que se viu a partir da criação
da G4 foi uma surpreendente ascensão. Em outubro do ano passado,
no espaço de dez meses, a G4 associada a outra empresa
que atua no setor de propaganda, a Espaço Digital
montou uma nova firma, a BR4, bem mais robusta e ambiciosa que a
primeira. Descrita no contrato social como uma holding (ou seja,
uma companhia que tem por finalidade deter participação
acionária em outras empresas), a BR4 possui um capital de
2,7 milhões de reais. Esse valor foi integralizado, em moeda
corrente, menos de dois meses após a formação
da companhia. E com quem os sócios da G4 e da Espaço
Digital conseguiram essa bolada para montar o negócio? Com
a Telemar, que, embora a essa altura ainda não participasse
da sociedade, brindou Fábio e sua turma com a dinheirama,
a título de "exclusividade no fechamento do contrato", como
explica Leonardo Badra Eid, da Espaço Digital.
O ânimo empreendedor do
biólogo Fábio, do químico Kalil Bittar e do
empresário Fernando Bittar (nenhum dos três estudou
publicidade) não parou por aí. Em outubro do ano passado,
o grupo criou uma outra empresa a partir da BR4, a Gamecorp Sociedade
Anônima. Foi seu grande salto. Ao capital de 2,7 milhões
de reais (o montante injetado pela Telemar, acrescido de 1 000 reais),
o grupo colocou outros 2,5 milhões de reais, obtidos por
meio de uma operação de emissão de debêntures.
Esse tipo de operação é uma espécie
de empréstimo que a companhia toma no mercado. Ela oferece
os papéis com a promessa de pagamento de juros, após
o resgate dos títulos, e investidores que considerarem o
negócio interessante os adquirem (existe ainda a possibilidade
de ninguém se interessar pelo negócio e os papéis
encalharem). As debêntures podem ser de dois tipos: conversíveis
em ações e não conversíveis. A diferença
entre as duas é que as primeiras possibilitam àqueles
que as adquirem ter, no futuro, participação acionária
na empresa que emitiu os papéis. Foi o tipo escolhido pela
companhia do filho de Lula. Em todo o processo, a Gamecorp contou
com a assessoria do escritório de auditoria Trevisan Service
dirigido pelo consultor Antoninho Marmo Trevisan, amigão
do presidente Lula.
Ao contrário do que se
poderia esperar no caso de uma empresa recentemente constituída
e desconhecida no mercado, a receptividade aos papéis da
Gamecorp foi mais do que boa: foi sensacional. Segundo afirmam os
sócios da companhia, pelo menos dois gigantes da telefonia
disputaram as debêntures. No dia 6 de janeiro, elas foram
adquiridas pela Telemar. No dia 31 do mesmo mês, ou seja,
apenas 25 dias depois da aquisição das debêntures,
a Telemar converteu os papéis em ações. Ou
seja, tornou-se, dessa maneira, sócia da empresa do filho
de Lula. Isso não é uma prática usual no mercado.
Em geral, o período entre a emissão das debêntures
e a decisão de convertê-las em ações
é muito maior. O processo indica que a Telemar, desde o início,
não tinha a intenção de "emprestar" dinheiro
à Gamecorp, e sim tornar-se sua sócia. Ocorre que
a empresa poderia ter obtido o mesmo resultado por meio de um caminho
muitíssimo mais simples: comprando diretamente ações
da Gamecorp. E por que não fez isso? Para responder a essa
pergunta, VEJA ouviu três profissionais habituados a lidar
com operações societárias de alta complexidade.
Os três afirmaram a mesma coisa: o único motivo que
explicaria a adoção de um processo tão intrincado
seria a intenção de manter em sigilo o nome da Telemar
na sociedade com a Gamecorp.
Paulo Jares
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Alastair Grant/AP
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OUTROS
FILHOS
Paulo Henrique Cardoso e Chelsea Clinton: mal-estar
com o estilo de vida luxuoso dele e com o empregão de
100 000 dólares anuais dela |
Alguns detalhes reforçam
essa tese. O primeiro é o fato de que, embora toda a documentação
referente à criação das empresas de Fábio
seja pública e esteja registrada em cartório, justamente
os papéis relativos à subscrição das
debêntures que tornariam possível a identificação
do comprador dos títulos estavam indisponíveis.
Ficaram arquivados na sede da companhia. O segundo detalhe é
mais curioso. Toda assinatura de contrato requer testemunhas. Por
questões práticas, elas, muito freqüentemente,
são arregimentadas ou entre pessoas que estão casualmente
no local ou entre os próprios advogados das partes. No caso
da assinatura do contrato que tornou a Telemar sócia da empresa
do filho do presidente Lula, é evidente que houve um cuidado
especial na escolha das testemunhas. Os escolhidos para presenciar
o evento não foram nem desconhecidos nem advogados, mas duas
funcionárias de extrema confiança do Eskenazi Pernidji
Advogados, o escritório com sede no Rio de Janeiro que representou
a Telemar. Simone de Oliveira Neto e Fabini Martins Bussi vieram
do Rio para São Paulo especialmente para cumprir a tarefa.
Fabini goza de tamanha confiança da parte de seus chefes
que embora sem posses aparentes e morando na cidade de Duque
de Caxias, uma das mais pobres da região metropolitana do
Rio de Janeiro chegou a constar como diretora de uma off-shore
com sede nas Ilhas Virgens Britânicas, representada no Brasil
por Sérgio Isidoro Eskenazi Pernidji, titular do escritório.
É, sem dúvida, pessoa discretíssima.
Todos esses detalhes corroboram
a tese dos especialistas ouvidos por VEJA: a de que não interessava
nem à Gamecorp nem à Telemar que a nova sociedade
fosse de conhecimento público. E por que razão quereriam
os sócios manter a participação da telefonia
em sigilo? Simples: a Telemar é uma companhia de mercado,
mas tem dinheiro público na composição de seu
capital e não teria sido fácil explicar o investimento
na empresa de um filho do presidente da República. Um dos
principais acionistas da Telemar é o BNDES, com 25% do capital.
Outros 19% pertencem a fundos de pensão, alguns deles de
empresas públicas, como a Previ (caixa previdenciária
dos funcionários do Banco do Brasil) e a Petros (ligada à
Petrobras). Há ainda participação da Brasilcap
e da Brasilveículos, companhias ligadas ao Banco do Brasil.
Outro fator complica ainda mais a negociação: a Telemar
é uma empresa concessionária de serviços públicos.
Ou seja, suas operações dependem de concessão
do governo federal. Companhias nessa condição têm
sua relação com o governo regida por severas restrições.
Elas também não podem fazer doações
para campanhas de partidos políticos. Isso serve para evitar
que futuros servidores públicos se sintam em dívida
com elas. Sendo Lula o principal servidor público do país,
configura, no mínimo, uma impropriedade que uma empresa concessionária
de serviços públicos injete uma bolada de dinheiro
na empresa de seu filho.
A Telemar, por meio de um executivo
que pediu para não ser identificado, diz que só tomou
conhecimento de que a Gamecorp pertencia ao filho do presidente
"no dia da assinatura do contrato". A assessoria de imprensa da
companhia de telefonia informa que, a exemplo do investimento feito
na empresa de Fábio, realizou diversos outros em áreas
afins, como a compra das rádios Oi. Reconhece, no entanto,
que nenhum desses outros investimentos foi revestido de segredo
ou envolveu subscrição de debêntures resultando
em participação societária. Reconhece também
que o negócio com a Gamecorp foi uma "operação
diferenciada". É compreensível que uma empresa de
telefonia se interesse em fazer investimentos que tragam como retorno
a produção de conteúdo na área digital.
Não é a especialidade da Gamecorp. A companhia não
produz tecnologia, não cria jogos nem tem experiência
nessa área.
Outra questão intrigante
ronda as empresas ligadas a Fábio. Até dois anos atrás,
a Espaço Digital que formalmente não tem Fábio
entre seus diretores, mas está associada à G4 na Gamecorp
ocupava o mesmo andar da agência de publicidade Matisse
em um prédio de escritórios no bairro de Pinheiros,
em São Paulo. A Matisse, que originalmente é de Campinas,
terra dos irmãos Bittar, era uma empresa de pequeno porte
até conquistar, para surpresa do mercado publicitário,
a milionária conta da Secretaria de Comunicação
e Gestão Estratégica (Secom), ligada à Presidência
da República. Só no ano passado, a Matisse recebeu
10,3 milhões de reais do governo federal. "Foi uma vizinhança
meramente casual", diz Luiz Flávio Guimarães, diretor
de produção da Matisse, denotando nervosismo. Ele
afirma que, à exceção "de um trabalhinho insignificante
para uma empresa privada", a Matisse nunca usou os serviços
da Espaço Digital.
Não é a primeira
vez que o envolvimento de filhos de presidentes da República
com empresas públicas e privadas causa constrangimento. Paulo
Henrique Cardoso, filho do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso,
em 2000, chegou a ser investigado pela Abin em virtude de denúncias
de que teria usado a influência do pai para beneficiar a empresa
de gás industrial White Martins. A acusação
se mostrou infundada, mas os hábitos de vida do filho de
FHC considerados incompatíveis com seus rendimentos
, sua passagem como diretor de uma ONG sustentada por empresas
públicas e privadas e seu trânsito fácil por
Brasília deixaram um mal-estar no ar. Em 2003, os americanos
experimentaram sensação semelhante diante da notícia
de que Chelsea Clinton, filha do já ex-presidente Bill Clinton,
havia sido contratada pelo escritório McKinsey, especializado
em consultoria econômica para empresas, por um salário
anual inicial de 100.000 dólares.
Fábio Luís e os
irmãos Bittar são amigos de infância. Pessoas
próximas ao grupo contam que quem comanda de fato os negócios
das empresas é Kalil Bittar. Com 43 anos, Kalil é
visto freqüentemente na ponte aérea São PauloBrasília.
O filho de Lula tem o perfil discreto. Torcedor do Corinthians,
aficionado de histórias em quadrinhos e videogames, ele tem
dois programas prediletos no fim de semana: passear no shopping
com a namorada e jogar futebol. A essa rotina banal somam-se agora
as tarefas de um empresário bem-sucedido, sócio de
uma empresa do porte da Telemar, que, com um faturamento de 18 bilhões
de reais no ano passado, possui bala suficiente para patrocinar
para seus sócios mirins viagens para os Estados Unidos, a
Coréia e o Japão. Em 2005, Fábio e o sócio
Kalil Bittar visitaram esses países com as despesas pagas
pela companhia de telefonia. A viagem ocorreu no mesmo período
em que o presidente Lula estava em viagem oficial ao Japão
e à Coréia. O objetivo era levar Fábio e Kalil
para conhecer companhias que trabalham com a produção
de games para celular e ainda a tecnologia de celulares de terceira
geração.
Histórias de sucesso instantâneo
no mercado eletrônico não são raras. Em 1996,
o jovem Marcos de Moraes filho do ex-rei da soja Olacyr de
Moraes criou o portal de internet Zip.Net. O negócio
deu tão certo que, quatro anos depois, Moraes vendeu o portal
por 365 milhões de dólares a uma empresa do grupo
Portugal Telecom. Foi uma das maiores transações da
internet brasileira. Sempre se pode dizer que o sucesso de Fábio
e seus amigos é mais um desses milagres produzidos pela era
digital. É possível. O fato de essa história
ter tido uma mãozinha ou melhor, uma mãozona
de uma empresa movida (inclusive) a dinheiro público,
no entanto, é suficiente para arranhar o talento que, ninguém
duvida, tanto Fábio quanto seus amigos têm de sobra.
Com reportagem de
André Rizek,
Camila Pereira, Roberta Salomone e Victor Martino
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