Ponto
de vista:Stephen Kanitz Aviso
aos quarentões
"Aos 40
anos ainda se tem chance de poupar rapidamente os recursos necessários
para a aposentadoria nos próximos dez a quinze anos. Assim sendo,
aquela viagem programada para a Disney, nem pensar. Nem aquele Audi A4"
Para aqueles que estão chegando aos 40 anos,
eu tenho duas notícias: uma boa e uma péssima. A boa é que
você provavelmente viverá até os 80. Sua expectativa de vida
ao nascer era de 67 anos, mas, como você conseguiu chegar vivo aos 40, sua
média de vida aumentou para 74 anos. Aqueles que estavam reduzindo sua
média inicial morreram. Daqui a dez anos, muitas das doenças incuráveis
de hoje terão solução, aumentando ainda mais sua expectativa
de vida, talvez até os 80. Sua mulher, que já tinha expectativa
de vida ao nascer de 75 anos, aos 40 terá uma expectativa de 79, daqui
a dez anos irá para 85, 90 anos.
Ilustração
Atômica Studio
A
má notícia é que provavelmente você não pensou
nisso, não se preocupou em fazer um pé-de-meia para custear essa
longa aposentadoria, a sua e a de sua mulher. Nem percebeu que os vinte anos que
você contribuiu para a Previdência não foram depositados num
fundo previdenciário público, preservando o equilíbrio atuarial,
como reza o artigo 201 de nossa Constituição. Também, lamento
dizer, ninguém vai empregá-lo até os 70 anos de idade, e
será difícil achar um novo emprego depois dos 50. Não conte
com essa nova geração para sustentá-lo na velhice. Ela terá
problemas suficientes para sobreviver, além de ter também de poupar
para a própria velhice.
Aos 40 anos ainda se tem chance de poupar rapidamente os recursos necessários
nos próximos dez a quinze anos. Assim sendo, aquela viagem programada para
a Disney, nem pensar. Nem aquele Audi A4. O valor exato que você precisará
ter poupado para se aposentar aos 65 anos é um cálculo complicadíssimo,
depende de sua idade atual, do risco que você quer assumir em suas aplicações
financeiras, dos juros médios a partir de 2015, e da taxação
futura dos rendimentos de seus investimentos. Mas aqui vão algumas previsões,
que infelizmente ninguém divulga, mas que podemos considerar como praticamente
certas.
1) Com o investment
grade (grau de investimento seguro, segundo as agências internacionais
de classificação de risco), os juros reais no Brasil deverão
ser como no México, na França e nos Estados Unidos. Algo em torno
de 2,5% a 3% ao ano, a partir de 2015. Achar que você poderá investir
em títulos públicos e ganhar 6% a 7% ao ano sem risco é uma
doce ilusão.
2) O imposto
de renda que incide sobre os que poupam, os chamados "endinheirados", provavelmente
aumentará. Hoje é de 20%, mas logo será de 25%, justamente
porque o juro caiu, e o governo arrecadará menos.
3) Esse imposto incide sobre o "juro" nominal, e não sobre o juro real,
que é o verdadeiro juro. Se o juro real for igual à inflação,
o imposto vai para 50%, o dobro dos 25% esperados no futuro. Portanto, calculando-se
50% de imposto sobre 2,5% a 3% de juros, sobrará somente 1,2% a 1,5% ao
ano de rendimento. Para cada 1.000 reais de renda mensal de aposentadoria que
você desejar receber, precisará acumular no mínimo 1 milhão
de reais. Lamento muito, é só fazer as contas.
Uma aposentadoria de 10.000 reais por mês exigirá uma poupança
acumulada aos 65 anos em torno de 10 milhões de reais. Dez mil é
a aposentadoria típica de um professor titular de filosofia, sociologia,
economia de uma universidade pública. Há alguns que ganham até
mais.
Se você quiser
ganhar o mesmo, terá de acumular 10 milhões, que aplicados a 1,2%
ao ano darão 120.000 por ano, ou 10.000 por mês. Mesmo assim, sem
direito ao décimo terceiro salário.
É
óbvio que nenhum de nós vai conseguir acumular 10 milhões,
muito menos se aposentar com 10.000 por mês. Você terá de se
contentar em viver com 3.000 ou menos. Provavelmente terá de aplicar seu
dinheirinho em investimentos muito mais arriscados do que títulos públicos.
Terá de lutar pela redução do imposto de renda que incide
sobre juros, pela correção monetária do investimento inicial,
ou fazer tudo isso ao mesmo tempo. Uma terceira alternativa é ir literalmente
comendo o capital inicial ao longo do tempo. O que é muito assustador para
qualquer aposentado nunca se sabe quando o dinheiro poderá acabar.
Pior de tudo, você terá de estabelecer um ano preciso para morrer,
tipo 83 anos, e torcer para que não passe disso. Depois desse aniversário,
justamente pelos cálculos feitos, você não terá mais
dinheiro.
A outra opção
é arrumar uma boa aposentadoria do governo, adotar um discurso anti-renda,
antijuro, antiacumulação de riqueza, sem se preocupar com o futuro
do câmbio, da economia, muito menos com o futuro do Brasil.
Stephen
Kanitz é formado pela Harvard Business School (www.kanitz.com.br)