Quinze anos depois
do surgimento, os reality shows
são um item essencial da TV. Até Spielberg aderiu
a eles
Marcelo Marthe
Divulgação/Record
Justus, em O Aprendiz: o
programa é tão realista que não faltou nem "caixinha"
para fiscal
No início
da década, quando o Big Brother se converteu
num fenômeno mundial, seu criador prognosticou: "Tanto
quanto as novelas ou os programas de auditório, os
reality shows são um formato que veio para ficar".
Embora muita gente não levasse a sério as palavras
do holandês John de Mol, elas se revelaram proféticas.
Em vez de modismo, os reality shows se tornaram um item indispensável
no cardápio da TV. Inclusive no Brasil e não
se está falando apenas de um sucesso como o Big
Brother, que em sua edição mais recente
obteve o feito inédito de desbancar por dois meses
a novela das 8 do topo do ranking das atrações
mais vistas da Globo (e do país, por extensão).
É na TV paga que seu poder de fogo se evidencia de
forma mais inequívoca. Toda semana, os canais por assinatura
transmitem mais de 200 horas de reality shows. Só no
People & Arts, eles respondem por 60% da programação.
Até um peso-pesado do show biz como Steven Spielberg
se rendeu a eles. Em exibição há duas
semanas nos Estados Unidos (e, por aqui, no mesmo People &
Arts), On the Lot é uma gincana em que aspirantes
a diretor disputam a chance de gravar um filme no estúdio
do cineasta.
Uma das razões
da onipresença dos reality shows é sua versatilidade.
Dos concursos musicais na linha do American Idol (que
no Brasil virou o Ídolos, do SBT) a programas
de decoração como Extreme Makeover
Reconstrução Total, eles se desdobram em
subtipos para todos os gostos (veja quadro).
Assim que se inventa uma variação, logo surgem
cópias em série. E, ainda que a maioria esteja
fadada a uma vida curta, vários exibem uma resistência
férrea. Recentemente, o americano Donald Trump
anunciou o fim de sua gincana empresarial, O Aprendiz
mas note-se que, até chegar à exaustão,
ela teve seis edições. Hoje na quarta encarnação,
a versão brasileira continua a ser um bom negócio
para a Rede Record. Há dez dias, quando o apresentador
Roberto Justus demitiu dois participantes de uma vez, o programa
ficou por doze minutos em primeiro lugar no ibope. Pudera.
O clima modorrento daquelas reuniões de conselho foi
quebrado por uma saia-justa: um dos pupilos de Justus reservou
100 reais para dar de "caixinha" a fiscais da prefeitura paulistana,
caso encrencassem com uma tarefa de seu grupo na rua. Realismo
é isso aí (mas o rapaz foi demitido por encorajar
a corrupção). Justus não é o único
em sua família, aliás, a abraçar os reality
shows. No mês que vem, deverá estrear também
na Record a versão nacional de Simple Life, em
que a patricinha Paris Hilton e sua amiga Nicole Richie são
colocadas para fazer as tarefas mais abiloladas, como ordenhar
vacas e trabalhar numa funerária. Ticiane Pinheiro,
mulher de Justus, será uma das protagonistas, ao lado
da atriz Karina Bacchi.
Outro motivo da
proliferação dos reality shows é de ordem
econômica. Manter o Big Brother no ar custa por
mês cerca de quinze vezes menos do que sustentar uma
novela das 8 pelo mesmo período. Para os canais por
assinatura, a conta é ainda mais vantajosa: além
de pagarem apenas pelos direitos das atrações
importadas, eles abusam das reprises. Muitos dos reality shows
que se vêem neles são puro lixo. Mas também
há experiências inteligentes, como o Ramsay's
Kitchen Nightmares, transmitido pelo GNT. O programa em
que o chef escocês Gordon Ramsay intervém para
salvar restaurantes falidos mostra o que o formato pode oferecer
nas mãos de um produtor inspirado. Embora o tema seja
a gastronomia, ele funciona como uma aula sobre a natureza
humana e a gestão de negócios. Em breve, deverá
inspirar um quadro no Caldeirão do Huck, da
Globo.
Boas intenções
não bastam para fazer um reality show. As fórmulas
mais consagradas podem desandar em razão de um elenco
mal escalado. "A escolha dos participantes é tudo",
diz o experiente Boninho, diretor do Big Brother. A
gincana que leva a grife de Spielberg e de Mark Burnett,
o maior produtor de reality shows do planeta exemplifica
ainda outros erros. On the Lot tem mais tutano que
a média dessas atrações, mas é
uma chatice. Sobra papo sério sobre cinema e faltam
os ingredientes fundamentais: as intrigas e os "barracos".
Spielberg, quem diria, pode ser o túmulo de um reality
show.