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13 de junho de 2007
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Cinema
A nova regra do três

Hollywood finalmente aprendeu a domar a cabala das
trilogias. Mas, para faturar, é preciso gastar. E muito


Isabela Boscov
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Depois de amargar uma contabilidade preocupante em 2006, Hollywood ruma para um faturamento acachapante em 2007. Por trás desse sucesso, está um número cabalístico: o 3. No espaço de três semanas, chegaram aos cinemas os terceiros capítulos de três trilogias hiperlucrativas. Desde 4 de maio, Homem-Aranha 3 já recolheu 847 milhões na bilheteria mundial. Shrek Terceiro, por enquanto lançado quase que só nos Estados Unidos, amealhou 292 milhões desde 18 de maio. Piratas do Caribe – No Fim do Mundo estreou em 25 de maio e já fez 635 milhões. Trocando em graúdos: de 4 de maio a 6 de junho, os estúdios donos dessas marcas encheram seus cofres com quase 1,8 bilhão de dólares. Para entender ainda melhor: em um mês, três filmes apenas acumularam 7% do faturamento mundial de Hollywood em um ano. Todos estão longe de perder seu fôlego, e ainda devem render muitos dividendos. Fica fácil, portanto, entender por que o sonho de um executivo de cinema é topar com uma idéia que possa virar franquia. O que não é nada fácil é pôr em prática uma idéia dessas.

Até a década passada, filmes em série eram um caso de tentativa e erro, e o normal e quase esperado é que o interesse por eles fosse diminuindo a cada novo episódio – junto com a qualidade, como atestam os pífios Tubarão IV, Rocky V, Esqueceram de Mim 3 e quejandos. Hoje, esse é um jogo para planejadores argutos e de bolsos fundos. Os capítulos iniciais já são bolados com as continuações em mente (se elas se provarão viáveis ou não é outra história). É o que o pessoal do meio chama de endgame: faz-se o primeiro filme com o desfecho do último em vista. Armar um arco desses requer um bocado de engenharia, e não há improviso que o sustente. Aprendeu-se também que é fundamental manter o mesmo time de um capítulo para outro, do elenco ao diretor, para que os elementos criativos que se combinaram tão bem não se dispersem. Esse é o ponto que exige um suprimento farto de dinheiro: se a primeira parte de uma franquia potencial vai bem na bilheteria, imediatamente segue-se um frenesi de renegociação de cachês e porcentagens. O orçamento de produção também dispara, já que outro requisito do gênero é uma escalada na ação e nas reviravoltas. O primeiro Homem-Aranha, por exemplo, custou metade do terceiro. Em compensação, este rendeu em um mês mais do que o original em toda a sua exibição.

Se esse é um negócio tão bom, por que Hollywood demorou tanto a domá-lo? Mesmo no passado, várias experiências positivas poderiam ter ensinado a regra do três aos estúdios. Séries como Indiana Jones e Duro de Matar já continham lições úteis sobre como engarrafar essa fórmula sem que o gás escapasse dela. Todas tinham protagonistas fortes, contextos bem delineados e apostas sempre mais altas. O que faltava compreender, porém, era a importância de criar um endgame e transmitir à platéia a sensação de que todos os filmes formariam, no fim, um só – daí ser imprescindível pagar ingresso para vê-los todos. (A série Star Wars original, da qual se poderia ter extraído esse ensinamento, era tida como um bilhete premiado e irreplicável.) Isso O Senhor dos Anéis fez, e de forma bombástica. Com quase 3 bilhões de dólares recolhidos na bilheteria, a trilogia capitaneada pelo neozelandês Peter Jackson é ainda hoje o padrão-ouro do ramo. Jackson inaugurou um modelo de produção, ao rodar todos os três episódios simultaneamente (copiado por Matrix e Piratas do Caribe nas suas duas partes finais); provou que um conceito firme significa mais do que atores badalados (o que Homem-Aranha confirma); e, acima de tudo, demonstrou que não há economia de custos pela qual valha sacrificar a coesão artística. Nisso, bem que poderia ser mais imitado – e não só pelos donos de franquias.

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