Depois de amargar
uma contabilidade preocupante em 2006, Hollywood ruma para
um faturamento acachapante em 2007. Por trás desse
sucesso, está um número cabalístico:
o 3. No espaço de três semanas, chegaram aos
cinemas os terceiros capítulos de três trilogias
hiperlucrativas. Desde 4 de maio, Homem-Aranha 3 já
recolheu 847 milhões na bilheteria mundial. Shrek
Terceiro, por enquanto lançado quase que só
nos Estados Unidos, amealhou 292 milhões desde 18 de
maio. Piratas do Caribe No Fim do Mundo estreou
em 25 de maio e já fez 635 milhões. Trocando
em graúdos: de 4 de maio a 6 de junho, os estúdios
donos dessas marcas encheram seus cofres com quase 1,8 bilhão
de dólares. Para entender ainda melhor: em um mês,
três filmes apenas acumularam 7% do faturamento mundial
de Hollywood em um ano. Todos estão longe de perder
seu fôlego, e ainda devem render muitos dividendos.
Fica fácil, portanto, entender por que o sonho de um
executivo de cinema é topar com uma idéia que
possa virar franquia. O que não é nada fácil
é pôr em prática uma idéia dessas.
Até a década
passada, filmes em série eram um caso de tentativa
e erro, e o normal e quase esperado é que o interesse
por eles fosse diminuindo a cada novo episódio
junto com a qualidade, como atestam os pífios Tubarão
IV, Rocky V, Esqueceram de Mim 3 e quejandos. Hoje, esse
é um jogo para planejadores argutos e de bolsos fundos.
Os capítulos iniciais já são bolados
com as continuações em mente (se elas se provarão
viáveis ou não é outra história).
É o que o pessoal do meio chama de endgame:
faz-se o primeiro filme com o desfecho do último em
vista. Armar um arco desses requer um bocado de engenharia,
e não há improviso que o sustente. Aprendeu-se
também que é fundamental manter o mesmo time
de um capítulo para outro, do elenco ao diretor, para
que os elementos criativos que se combinaram tão bem
não se dispersem. Esse é o ponto que exige um
suprimento farto de dinheiro: se a primeira parte de uma franquia
potencial vai bem na bilheteria, imediatamente segue-se um
frenesi de renegociação de cachês e porcentagens.
O orçamento de produção também
dispara, já que outro requisito do gênero é
uma escalada na ação e nas reviravoltas. O primeiro
Homem-Aranha, por exemplo, custou metade do terceiro.
Em compensação, este rendeu em um mês
mais do que o original em toda a sua exibição.
Se esse é
um negócio tão bom, por que Hollywood demorou
tanto a domá-lo? Mesmo no passado, várias experiências
positivas poderiam ter ensinado a regra do três aos
estúdios. Séries como Indiana Jones e
Duro de Matar já continham lições
úteis sobre como engarrafar essa fórmula sem
que o gás escapasse dela. Todas tinham protagonistas
fortes, contextos bem delineados e apostas sempre mais altas.
O que faltava compreender, porém, era a importância
de criar um endgame e transmitir à platéia
a sensação de que todos os filmes formariam,
no fim, um só daí ser imprescindível
pagar ingresso para vê-los todos. (A série Star
Wars original, da qual se poderia ter extraído
esse ensinamento, era tida como um bilhete premiado e irreplicável.)
Isso O Senhor dos Anéis fez, e de forma bombástica.
Com quase 3 bilhões de dólares recolhidos na
bilheteria, a trilogia capitaneada pelo neozelandês
Peter Jackson é ainda hoje o padrão-ouro do
ramo. Jackson inaugurou um modelo de produção,
ao rodar todos os três episódios simultaneamente
(copiado por Matrix e Piratas do Caribe nas
suas duas partes finais); provou que um conceito firme significa
mais do que atores badalados (o que Homem-Aranha confirma);
e, acima de tudo, demonstrou que não há economia
de custos pela qual valha sacrificar a coesão artística.
Nisso, bem que poderia ser mais imitado e não
só pelos donos de franquias.