Quando
o ex-agente dos serviços de informação russos Alexander Litvinenko
desembarcou em Londres com a mulher e o filho, em novembro de 2000, o funcionário
da imigração do Aeroporto de Heathrow estranhou seu pedido de asilo
político. "A Rússia, até onde eu sei, tem um governo democrático",
disse. Seis anos depois, Litvinenko morria em um hospital de Londres, em um estranho
caso de envenenamento com polônio 210, substância radioativa de difícil
detecção. Deixou uma carta em que apontava Vladimir Putin, presidente
da Rússia, como o mandante do assassinato. Dois livros sobre o caso estão
chegando às livrarias brasileiras. Morte de um Dissidente (tradução
de Berilo Vargas e Celso Mauro Paciornik; Companhia das Letras; 477 páginas;
47,50 reais), de Alex Goldfarb e Marina Litvinenko, um amigo e a viúva
do agente envenenado, trata da ascensão de Putin ao poder e do crescente
poder da FSB um dos órgãos que substituíram a antiga
KGB, o serviço secreto soviético. A Explosão da Rússia
(tradução de Clóvis Marques; Record; 294 páginas;
44 reais nas livrarias a partir do dia 29), escrito pelo próprio
Litvinenko em parceria com o historiador Yuri Felshtinski, acusa a FSB de promover
atentados para atribuí-los ao terrorismo checheno. Um terceiro livro, Um
Diário Russo (tradução de Nivaldo Montigelli Jr.;
Rocco; 360 páginas; 43 reais), de Anna Politkovskaia jornalista
assassinada a tiros, em Moscou, em 2006 , traça um panorama sombrio
da Rússia atual, submetida a uma política de violência e censura.
Os assassinatos de Litvinenko e Anna seguem sem solução. Se o governo
de Putin tem mesmo um dedo nesses casos, é ainda incerto. Mas as três
obras permitem uma conclusão clara: embora o comunismo tenha acabado, a
Rússia ainda está longe de ser uma democracia. Nas mãos centralizadoras
de Putin não por acaso, um ex-agente da KGB , o governo está
cada vez menos transparente e mais autoritário.
Para os que gostam de teorias da conspiração, esses livros são
um prato cheio. A política russa, tal como descrita em Morte de um Dissidente
e A Explosão da Rússia, parece ser conduzida, pura e
exclusivamente, em uma sucessão de arranjos de bastidor. O segundo livro
foi escrito em um ímpeto de denúncia, como um desafiante dedo em
riste diante do Kremlin. Chegou a ser publicado no jornal liberal Novaia Gazeta
(no qual trabalhava Anna Politkovskaia), mas depois foi proibido no país
(embora continuasse a circular pela internet). A narrativa é às
vezes intricada, tal a quantidade de agências governamentais, gangues criminosas
e conspiradores envolvidos em conluios sinistros. No centro de todas essas tramas,
aparece o problema da Chechênia. Província de maioria muçulmana
no Cáucaso, a Chechênia tem ambições de independência
desde o tempo dos czares. Quando a União Soviética foi extinta,
em 1991, essas ambições separatistas se reacenderam. O presidente
Boris Ieltsin não negociou a autonomia da região. Preferiu embarcar
em duas desastrosas guerras, em 1994 e 1999, que deixaram o saldo de mais de 100.000
civis mortos.
Fanáticos
chechenos comprovadamente praticaram dois ataques covardes à Rússia.
Na invasão de um teatro em Moscou, em 2002, mais de uma centena de reféns
morreu, e quase 200 crianças foram assassinadas por terroristas chechenos
em uma escola em Beslan, em 2004 (se bem que, no primeiro caso, as mortes possam
ser atribuídas à ação desastrosa das forças
de segurança, que lançaram um gás paralisante dentro do teatro).
A Explosão da Rússia trata de atentados anteriores, mas não
apresenta provas definitivas de sua acusação central: as explosões
que mataram centenas de pessoas em Moscou, Buinaksk e Volgodonsk, em 1999, não
teriam sido obra dos chechenos, como então se propagou, mas foram planejadas
pela FSB para radicalizar as diferenças com a Chechênia, conduzindo
a uma nova guerra. Essa tese conspiratória soa delirante, elaborada demais
para ser verdadeira. O problema é que a versão oficial é
ainda menos convincente. Nunca se explicaram os episódios na cidade de
Riazan, em 1999. Moradores de um prédio residencial viram três pessoas
descarregando sacos no porão. Chamaram a polícia, que encontrou
explosivos dentro de sacos de açúcar, com um detonador armado para
destruir o edifício. A versão inicial apontava um atentado checheno
frustrado, nos moldes dos ataques realizados pouco tempo antes em Moscou, Buinaksk
e Volgodonsk. Mas logo se descobriu que um dos supostos terroristas havia ligado
de Riazan para os escritórios da FSB em Moscou. O diretor da FSB, Nicolai
Patrushev, imediatamente mudou a versão: os sacos continham açúcar,
e não explosivos, e tudo não passou de um exercício de rotina
conduzido pelas forças de segurança.
Ivan Shlmaov/AFP
Tanques russos na Chechênia: guerras desastrosas
e violações dos direitos humanos
Açúcar
ou explosivos, ataque malogrado ou exercício militar? Na Rússia,
todas as versões parecem implausíveis. Mas é preciso ter
em mente que o comunismo acabou há menos de vinte anos. O imenso aparato
de informação e contra-informação estatal nunca foi
desmontado. Em Morte de um Dissidente livro construído em
grande parte com base nos depoimentos que Litvinenko prestou aos autores ,
há um episódio significativo: em 1996, quando ainda trabalhava na
FSB, Litvinenko e seus colegas foram chamados a uma reunião com um dos
diretores da agência, que apresentou ao grupo o livro de memórias
de Pavel Sudoplatov, diretor do órgão de espionagem NKVD no tempo
de Stalin (foi o homem que comandou o assassinato do líder comunista dissidente
Leon Trotski, no México). "Este é o nosso modelo", dizia o diretor.
Pouco depois, Litvinenko teria recebido a ordem de assassinar o magnata Boris
Berezovski, de quem era próximo. Não cumpriu a ordem e denunciou
o complô em uma entrevista na emissora de TV que então pertencia
a Berezovski. A atitude custou-lhe o emprego e a liberdade foi preso sob
acusações fajutas de extorsão e roubo. Libertado, buscou
o exílio, em 2000.
Embora a viúva do ex-agente apareça como co-autora do livro, Morte
de um Dissidente é todo narrado em primeira pessoa pelo biólogo
Alex Goldfarb, dissidente russo exilado nos Estados Unidos ainda nos tempos da
União Soviética e ex-assessor do megainvestidor George Soros. Ele
intermediou várias tentativas de negócios de Soros com Berezovski,
e foi por meio desse que acabou conhecendo Litvinenko. Ajudou o ex-agente a conseguir
asilo na Inglaterra e traduziu sua acusação final contra Putin para
o inglês (o fato de a declaração não estar em russo
foi usado pelos aliados de Putin para colocar em dúvida a legitimidade
do documento). Morte de um Dissidente narra passo a passo a degeneração
da democracia russa, do governo ambíguo mas ainda liberal de Boris Ieltsin
ao recrudescimento autocrático promovido por Putin. Berezovski, embora
seja tratado com condescendência excessiva no livro (Goldfarb hoje trabalha
para o magnata), é um personagem exemplar dessa história. Como bom
capitalista, era um entusiasta das privatizações conduzidas por
Ieltsin. Mas cometeu o erro de flertar com Putin que acabou determinando
seu exílio e a renacionalização de sua cadeia de televisão
(não existem mais emissoras independentes na Rússia um modelo
que Hugo Chávez está copiando na Venezuela).
Yuri Kadobnov/AFP
Atentado em Beslan: pretexto para mais autoritarismo
A Explosão
da Rússia traz as denúncias mais incisivas contra Putin, e Morte
de um Dissidente é a melhor narrativa dos meandros sujos da política
russa. Mas a análise mais profunda do governo Putin está em Um
Diário Russo. Com impressões registradas dia a dia, Anna
jornalista consagrada pelas denúncias de violações dos direitos
humanos cometidas pelas tropas russas na Chechênia descreve o ocaso
da democracia a partir das eleições parlamentares do fim de 2003.
Por meio de fraudes eleitorais e acordos de bastidores, Putin conseguiu extirpar
os partidos democráticos e liberais da Duma, o Congresso russo. Na primeira
sessão desse Parlamento submisso, o presidente fez um discurso revelador,
no qual dizia que a Duma abandonara o "confronto político" em favor do
"trabalho construtivo". "Todo debate é inútil", concluiu. No ano
seguinte, ele usaria o terrível atentado na escola de Beslan como pretexto
para mais medidas autoritárias. Passou a indicar os governadores de província,
antes eleitos. Esse é o homem que, na semana passada, afirmou ser um democrata
"puro" e não só isso: o único democrata verdadeiro
do mundo. Não houvesse sido brutalmente silenciada, Anna Politkovskaia
teria algo ferino a dizer sobre essa declaração.