A
regravação, às vezes, é resultado da busca de um músico
pela perfeição. Ela pode ser inovadora. O regente austríaco
Herbert von Karajan lançou seis versões das nove sinfonias de Beethoven
porque queria registrar cada nova concepção que tinha desses clássicos.
A cantora americana Ella Fitzgerald revisitou várias vezes o repertório
de autores como Cole Porter e George Gershwin, renovando-se a cada gravação.
No Brasil de hoje, porém, casos como esses são raros, muito embora
o que não falte sejam regravações. Em todos os estilos os
artistas se repetem, se repetem e se repetem, por falta de ousadia, oportunismo
ou auto-indulgência. A lista inclui de veteranos como Erasmo Carlos, Lobão
e Zeca Pagodinho, cujos dias de glória já vão longe, a artistas
que, em teoria, estão vivendo o seu auge criativo. Nando Reis, Ivete Sangalo
e Jota Quest são alguns dos que não cansam de regurgitar suas velhas
músicas, sobretudo em CDs do gênero "ao vivo" (volume I e volume
II).
A regravação
é um sintoma da crise na indústria fonográfica. Buscar uma
solução inovadora para as vendas declinantes dá trabalho,
e é mais seguro investir em mais do mesmo. A festeira baiana Ivete Sangalo
lançou três discos ao vivo em menos de dez anos. O mais recente foi
gravado no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, diante de um
público de mais de 50.000 pessoas uma superprodução
com repertório requentado. Em tempos idos, o sambista Zeca Pagodinho só
lançava CDs de material inédito, com no máximo duas, três
releituras. A partir de Ao Vivo, de 1999, Zeca afrouxou seus critérios.
Nos últimos quatro anos, lançou dois CDs ao vivo. O mais recente,
baseado em canções de gafieira, não teve o resultado comercial
esperado uma prova de que o público não aprovou a fórmula
manjada.
O disco ao vivo,
que deveria captar a vibração do artista em contato direto com os
fãs, transformou-se em veículo burocrático. É o que
se constata nos registros de shows do Jota Quest. O maior sucesso do quinteto
mineiro foi MTV ao Vivo, lançado em 2003, com mais de 500 000 cópias
vendidas. Desde então, a banda não faz outra coisa senão
gerar subprodutos desse projeto, com mais um CD ao vivo e um DVD de uma apresentação
em Porto Alegre. Músicas como As Dores do Mundo e De Volta ao
Planeta chegaram a ser gravadas quatro vezes. O único disco de estúdio
recente traz, como música de trabalho, uma cover de Roberto Carlos
o fôlego para composições novas se esgotou. Nando Reis é
outro que adora reprisar canções. Seu Luau MTV nada mais
é que o registro de uma apresentação na praia, ao lado de
convidados. A Letra "A", A Fila e Relicário são algumas
das faixas que ganharam uma terceira releitura. Até Lobão largou
a pose de "artista que não se vende" e topou a oferta da gravadora Sony
BMG para lançar um Acústico MTV. Nas entrevistas de divulgação
desse disco preguiçoso (em grande parte feito de velharias dos anos 80),
o cantor jacta-se de que a gravadora está pagando jabá, aquela verba
que o radialista recebe para tocar certas canções.
O artista que muda de gravadora às vezes utiliza a regravação
como estratagema para transferir o melhor do seu repertório para a nova
casa. Em dez anos, Erasmo Carlos gravou discos por três companhias, sempre
com as mesmas composições dos tempos da carochinha. Seu último
disco, Erasmo Convida II, é um "catadão" de algumas das canções
mais significativas de quarenta anos de carreira, na companhia de convidados como
Chico Buarque e Los Hermanos. "Eu queria mostrar músicas novas, mas o meu
público prefere os sucessos antigos", justifica Erasmo. E a praga das regravações
continua a se espraiar. No mês passado, chegaram às lojas discos
de artistas do segundo escalão da MPB com homenagens a Dorival Caymmi,
Tom Jobim e Chico Buarque. São trabalhos modorrentos e sem critério
artístico. Está na hora de os artistas brasileiros apresentarem
novidades. Ou estarão condenados a confirmar o poeta russo Joseph Brodsky,
para quem a repetição era a mãe do tédio.