Os
novos caminhos da engenharia genética mostram que essa
antiga aspiração da ciência está perto de se tornar
realidade
Leoleli
Camargo
Colin
Anderson/Getty Images/Royalty Free
Nas
últimas duas décadas, a manipulação de DNA
as moléculas que contêm as informações fundamentais
dos seres vivos possibilitou prodígios como a clonagem de animais,
a produção de alimentos transgênicos e a criação
de medicamentos. Agora, numa série de projetos em andamento em universidades
e laboratórios independentes, os cientistas trabalham com uma visão
totalmente nova da engenharia genética. Pela primeira vez, abrem-se caminhos
para a realização de uma antiga aspiração humana:
a criação de vida artificial. No procedimento convencional, manipular
genes trechos de DNA consiste em transferi-los de um ser vivo para
outro. As novas experiências usam DNA sintético, produzido em laboratório,
para criar vírus e bactérias que não existem na natureza.
Esses seres são programados para executar tarefas diversas, todas em benefício
dos seres humanos e do planeta como entrar na corrente sanguínea
para detectar e destruir tumores e eliminar gases tóxicos que causam o
aquecimento global. Essas experiências já vêm sendo reconhecidas
como um novo braço da ciência, batizado de biologia sintética.
"O código genético já existe há 3,6 bilhões
de anos, quando começou a vida na Terra. Está na hora de reformulá-lo",
costuma brincar o engenheiro Tom Knight, do laboratório de inteligência
artificial do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Os avanços na biologia sintética ocorrem em função
do conhecimento cada vez maior que se tem sobre o genoma ou conjunto dos
genes dos seres vivos. O primeiro genoma a ser decifrado foi o de uma bactéria,
em 1995. Depois, foi decodificado o de vários animais. Essas conquistas
permitiram ao pesquisador Craig Venter criar em 2003 um vírus artificial.
Em 2001, concluiu-se a decodificação do genoma humano, o que abre
a possibilidade, no futuro, de que modificações genéticas
que vêm sendo feitas em organismos simples, os vírus e bactérias,
sejam feitas também em pessoas. Por enquanto, nem mesmo os pesquisadores
vislumbram o leque de possibilidades que esse salto proporcionará à
ciência. Atualmente, as pesquisas ainda se concentram em controlar o funcionamento
das células através da manipulação do DNA. "Não
vai demorar muito para que possamos programar o comportamento das células
da mesma forma que fazemos com um computador", diz o pesquisador Ron Weiss, da
Universidade Princeton. Há dois anos, Weiss demonstrou o caminho que persegue
ao programar bactérias E. coli para que se comuniquem entre si e
produzam cores diferentes num tubo de ensaio.
Em sua busca por modificar o comportamento das células, a biologia sintética
incorpora conceitos da engenharia elétrica. Eles estão por trás
da pesquisa que tem encontrado maior repercussão nos meios acadêmicos,
a que usa os chamados BioBricks, trechos de DNA sintético dotados de conectores
nas duas pontas. Os BioBricks podem ser encaixados diretamente no DNA de uma célula,
como se faz com as peças do brinquedo de montar Lego. Ao ser conectado,
cada um deles modifica uma função da célula. Por enquanto,
realizam-se experiências simples com os BioBricks, como fazer uma bactéria
produzir aromas ou brilhar. "No futuro, em sua interação com as
células, eles poderão deflagrar processos mais complexos, como detectar
e tratar doenças e até produzir combustíveis alternativos",
disse a VEJA o biólogo Drew Endy, integrante da equipe do MIT que desenvolveu
os BioBricks. A idéia é que os BioBricks atuem como interruptores
num circuito elétrico, ativando ou desativando funções dentro
das células, sempre com precisão absoluta. Endy ajudou a criar uma
"biblioteca" de BioBricks, disponível gratuitamente a pesquisadores e estudantes
que queiram usá-los em suas experiências.
Alguns
projetos da biologia sintética estão próximos de alcançar
seus objetivos. Com um patrocínio de 42 milhões de dólares
da fundação mantida por Bill Gates, dono da Microsoft, o engenheiro
químico Jay Keasling, da Universidade da Califórnia, criou um microrganismo
destinado a combater a malária. Um dos medicamentos mais eficazes contra
essa doença é a artemisinina, extraída da planta artemísia.
Ocorre que o processo de fabricação do remédio é complicado
e caro. Keasling está prestes a torná-lo simples e barato. Seu experimento
acrescenta ao código genético da bactéria E. coli
genes da artemísia e de um fungo. O microrganismo resultante produz grandes
quantidades de uma substância química que dá origem à
artemisinina. Até 2009, Keasling espera produzir artemisinina em escala
industrial dentro de tanques num laboratório.
Ao mesmo tempo em que comemoram suas conquistas, os pesquisadores da biologia
sintética levantam temores sobre o uso indevido de uma tecnologia tão
poderosa. O risco mais evidente é que seus conhecimentos sejam usados por
terroristas para criar armas biológicas. Outra preocupação
diz respeito a como os seres artificiais reagiriam fora do ambiente de laboratório,
integrando-se à natureza. "Essas novas criaturas, por ser vivas, vão
evoluir; por isso é preciso criar salvaguardas à forma como elas
crescem, se multiplicam e agem", disse a VEJA o físico Steen Rasmussen,
do Laboratório Nacional de Los Alamos, onde tenta criar uma célula
artificial. Por fim, os cientistas temem a ação de amadores. Hoje,
com pouco mais de 50.000 dólares é possível montar um laboratório
caseiro de biotecnologia com equipamentos de segunda mão. Na internet,
já existem sites que ensinam a isolar o DNA de uma célula ou como
fazer uma bactéria brilhar sob luz ultravioleta. "O acesso irrestrito a
essas informações produz riscos, mas deve-se levar em conta que
a maioria das pessoas compra machados para construir coisas úteis, e não
para sair pelas ruas atacando os outros", diz Drew Endy, do MIT. Como se vê
pelos projetos da biologia sintética hoje em andamento, a perspectiva do
que se espera alcançar compensa os riscos.