A
empresária Zilda Nucci, 55 anos, de Sorocaba, interior de São Paulo,
tem dois filhos e duas filhas. Todos casados, o que acrescenta duas noras e dois
genros nos almoços familiares, aos quais não faltam nhoque à
bolonhesa nem provocações. Zilda acha que os genros são "folgados",
enquanto eles a chamam abertamente de "jararaca"; as noras, que ela considera
"mandonas", se queixam de que Zilda sempre "toma as dores dos filhos". Os adjetivos
cortantes se encaixam no clima cheio de brincadeiras da família, mas também
retratam as tensões permanentes que permeiam esse tipo de relação
um dos mais avessos a mudanças. Enquanto o casamento passa por terremotos
sucessivos, namorados dormem sob o mesmo teto domiciliar desde a adolescência,
crianças surpreendem constantemente pela precocidade e vovozinhas de cabelos
brancos só sobrevivem nos arquétipos coletivos, as sogras continuam
a ser o que sempre foram. O que pode ser mais ou menos resumido assim: os genros
ficam ressentidos porque acham que a santa mãezinha de sua cara-metade
continua a querer mandar nela; já as noras têm certeza disso. "A
mãe do homem é considerada a mais difícil de aturar. A mãe
da mulher não está a salvo de críticas, mas as brincadeiras
em relação a ela são mais leves", compara a escritora francesa
Christiane Collange, mãe de quatro rapazes casados e autora do livro Nós,
as Sogras, que a Sá Editora está lançando no Brasil.
Para escrever o livro, Christiane
entrevistou mais de 100 mulheres em busca das manifestações contemporâneas
do ancestral conflito entre noras e sogras, em que, em geral, as primeiras são
vistas como vítimas das segundas, mas que pode dar lugar a todo tipo de
combinações infelizes. "As noras que dizem 'odeio a minha sogra'
não sabem quanto é difícil abrir mão de um filho,
que deixa a casa da mãe para morar com outra mulher", contra-ataca Myriam
Gewerc, uma das cinco sogras cariocas que "descobriram" o livro, identificaram-se
com ele e fizeram a tradução. No coração ultra-sensível
da mãe do filhinho querido, até gestos de completa banalidade podem
causar sofrimento. "Não gosto quando as minhas noras pedem que meus filhos
peguem alguma coisa para elas", assume a zelosa Zilda. O conflito tem suas raízes
num tipo de sociedade em que os homens mandavam, as mulheres só tinham
algum poder da porta da casa para dentro e conseguiam exercê-lo em sua plenitude
apenas sobre a jovem desamparada que era entregue em casamento ao filho. As mulheres
de status zero, pouco mais que escravas domésticas exploradas por sogras
carrascas, não existem mais nas sociedades modernas, mas a psique humana
guarda criteriosamente as origens da disputa. "A relação sogra-nora
é uma guerra de poder entre duas mulheres para ter influência sobre
o mesmo homem", resume a psiquiatra Iraci Galiás, que há trinta
anos trabalha com terapia familiar em São Paulo. Para complicar, o casamento
em geral acontece num momento delicado na vida das duas envolvidas: "A sogra está
envelhecendo e a nora está deixando de ser filha". Iraci tem uma reveladora
contabilidade baseada na experiência profissional: de cada dez mulheres
que atende, oito têm ou tiveram algum conflito com a nora ou a sogra.
E os genros, sempre com aquele sorrisinho malicioso e um infindável arsenal
de piadas de sogra? "Genro vive fazendo piada sobre sogras justamente porque tem
mais liberdade com ela", diz Iraci. Está certo que é difícil
não entender aqueles que não querem morar nem tão perto,
a ponto de "ela" poder aparecer a todo instante, nem tão longe, para que
chegue de mala para visitar. Mas a quantidade e a qualidade de escárnio
que recai sobre as sogras atinge níveis francamente exagerados. "Fazemos
parte de uma raça cuja imagem será sempre vista de forma negativa
ou ridícula", critica Christiane Collange, que em seu livro estabelece
regras de como uma sogra pode tentar desempenhar melhor seu papel porque
"perfeita nenhuma é" (veja quadro abaixo). Nesse campo minado, avisa
ela, até elogio é mal interpretado e dois assuntos são absolutamente
tabus: cozinha e cabelo. "Freia tua língua, domina teus gestos, reprime
teus impulsos", prega a autora. Porque "é pouco provável que as
coisas melhorem com o tempo. Ao contrário, quanto mais ele passa, mais
as divergências se acentuam". Exceto, naturalmente, em casos milagrosos
como o de Zilda Nucci. Pois, com todas as provocações familiares,
ela desfruta uma situação rara. "No mesmo ano em que minha sogra
trocou São Paulo por Sorocaba, nós também nos mudamos para
cá. E sempre viajamos de férias juntos", conta um dos genros, Eduardo
Wandke Soares. Não, não é piada apenas um exemplo
de como o afeto vence as maiores barreiras.