Arrumar
as malas, arrastá-las pelo aeroporto, despachá-las e, se não
tiverem sido extraviadas, tirá-las da esteira rolante e levá-las
até o táxi. Cansativo para os viajantes esporádicos, esse
rito é um eterno tormento para executivos que, numa economia cada vez mais
globalizada, passam mais tempo em aviões do que com os filhos. Executivos
americanos, por exemplo, gastam até noventa minutos com o transporte e
o check-in de bagagens em cada viagem que fazem. Não é pouca coisa:
quem toma um avião semanalmente chega a gastar treze dias de trabalho por
ano com suas malas. Nos Estados Unidos, algumas empresas descobriram uma forma
de ganhar dinheiro aliviando essa tortura. Elas se especializaram em despachar
malas e garantir que elas cheguem ao seu destino com segurança. Em alguns
casos, até arrumam a bagagem dos passageiros mais endinheirados. Trata-se
da quintessência do conforto da aviação comercial de passageiros.
O preço do serviço
varia conforme o peso da bagagem e a distância da viagem. Em um único
trecho, pode passar dos 1.000 dólares. Para quem pode, vale a pena. A BaggageDirect,
da Califórnia, apanha as malas no escritório ou na casa do cliente
e lhe entrega o cartão de embarque. No destino, uma equipe recolhe as malas
no aeroporto e as coloca no quarto do hotel. Para executar o serviço, a
BaggageDirect fez parceria com companhias aéreas e com a Transportation
Security Administration, agência responsável pela segurança
dos aeroportos americanos. Brasileiros podem explorar o serviço apenas
em viagens pelos Estados Unidos: buscar a mala e levá-la ao aeroporto pode
sair por cerca de 30 dólares. A Luggage Forward, de Boston, oferece um
serviço ainda mais exclusivo que não se limita ao território
americano. A empresa recolhe as malas na casa do cliente dias antes da viagem
e as entrega com antecedência no destino. Nesse caso, as malas viajam antes
do passageiro, por meio do correio aéreo comum. No trecho Nova YorkBoston,
quase uma ponte aérea, o serviço custa 120 dólares. Entre
São Paulo e Nova York, fica em 764 dólares, ida e volta. A Luggage
Forward exige uma comunicação no mínimo dois dias antes da
viagem para executar o serviço.
Algumas empresas, como a CarryOn e a Flylite, chegam a montar um segundo guarda-roupa
de seus clientes com ternos, camisas, sapatos e objetos pessoais. Esse guarda-roupa
é guardado em depósitos. Na hora de viajar, o cliente acessa um
serviço de internet (o iCloset) que mostra as imagens de suas roupas em
tempo real e lhe permite escolher o que colocar na mala. Todo o processo é
feito pelo computador. As empresas enviam a mala ao hotel de destino nos Estados
Unidos. Ao término da viagem, buscam a bagagem, além de lavar e
passar as roupas. Aberta em 2006, a Flylite já tem depósitos em
quatro estados americanos e estará presente em outros doze até o
fim do ano. Abrir um iCloset custa 500 dólares por ano, além de
pelo menos 100 dólares pagos a cada viagem curta realizada. O mercado de
transporte de malas começou a ser explorado nos anos 90, mas só
ganhou fôlego depois dos ataques terroristas de 11 de setembro. Para melhorar
a segurança nos vôos, as autoridades americanas passaram a impor
restrições que aumentaram o desconforto dos viajantes, principalmente
daqueles com bagagem. Além de aliviar o peso das malas, essas empresas
oferecem uma garantia extra contra o extravio de bagagens. Como algumas delas
têm depósitos próprios nos aeroportos e acompanham os pertences
de seus clientes até o avião, há menos registros de perdas.
E, quando isso acontece, elas se comprometem a alugar equipamentos e acessórios
similares àqueles que não chegaram a tempo.
A idéia parece boa, mas ainda há quem duvide da viabilidade comercial
dessas empresas. "Os serviços são muito caros e as multinacionais
já gastam muito com as viagens dos seus executivos. Elas querem diminuir
esses custos, não aumentá-los", diz Leonel Rossi Júnior,
diretor de assuntos internacionais da Associação Brasileira de Agências
de Viagens. Caleb Tiller, diretor da National Business Travel Association, dos
Estados Unidos, concorda: "Os custos são muito altos. Quem usa esses serviços
paga do próprio bolso". Na prática, nada impede que o passageiro
despache suas próprias malas pelo correio, aliviando o peso da bagagem
sem que seja preciso contratar uma empresa. "Você pode fazer isso", rebate
a Luggage Express, da Flórida, em sua propaganda na internet. "Mas será
o mesmo que trocar o óleo do próprio carro."