Silvia Almeida, de 43 anos, convive
com o HIV desde os 20, quando foi contaminada pelo marido.
Em 1997, começou a ser medicada com o coquetel antiaids.
Ela jamais manifestou algum sintoma da doença, até
que, recentemente, durante uma consulta médica de rotina,
descobriu que estava com excesso de gordura na corrente sanguínea,
um importante fator de risco para os males cardiovasculares.
Em menos de um ano, a concentração de triglicérides
saltou de 100 miligramas por decilitro de sangue para 190.
A de LDL, o colesterol ruim, de 150 para 250. O caso de Silvia
é exemplar de um novo capítulo da história
do tratamento da síndrome: o aumento da vulnerabilidade
dos portadores do HIV, em tratamento com o coquetel antiaids,
às doenças metabólicas. Entre esses pacientes,
a incidência de hipercolesterolemia, por exemplo, chega
a 60% o dobro da registrada na população
em geral.
Na história da medicina,
são raros os registros de uma doença que tenha
mudado tanto de características quanto a aids. No início
da epidemia, na década de 80, a presença do
HIV no organismo representava uma sentença de morte
quase que imediata. Entre o diagnóstico e a fase terminal,
transcorriam, em média, cinco meses. Com a chegada
ao mercado do primeiro remédio anti-HIV, o AZT, lançado
em 1986, os pacientes passaram a viver cerca de um ano com
a doença. Só em meados da década passada,
com a criação do coquetel antiaids, foi possível
recuperar a capacidade do sistema imunológico dos infectados
pelo vírus. Composto de dezessete medicamentos, de
quatro classes distintas, o coquetel permitiu prolongar a
vida dos portadores do HIV por tempo indeterminado. No Brasil,
dos 600 000 soropositivos, 180 000 são beneficiados
com o tratamento.
A contrapartida desse sucesso
são as doenças metabólicas. Muitas delas
se enquadram no grupo das reações adversas do
coquetel. Outras são deflagradas por causa do longo
tempo de exposição do organismo ao HIV (veja
quadro). Como esse é um campo de investigação
médica ainda muito incipiente, não foram desvendados
todos os mecanismos que deflagram o surgimento dos males metabólicos.
Já se sabe, contudo, que alguns dos remédios
do coquetel, especialmente os inibidores de protease, dificultam
a absorção das moléculas de gordura pelas
células. "Como tais medicamentos têm uma
estrutura molecular muito parecida com a das enzimas que quebram
a gordura, o organismo se confunde e essas enzimas perdem
a função. Com isso, sobra gordura na corrente
sanguínea", diz o cardiologista Bruno Caramelli,
diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia e do Instituto
do Coração (Incor), em São Paulo. Esse
é o primeiro passo para o entupimento das artérias.
Outros remédios do coquetel podem também dificultar
a ação da insulina no organismo, facilitando
o aparecimento de diabetes. Há, ainda, o comprometimento
da produção de vitamina D, essencial para a
construção de um esqueleto forte.
Os estudos mais recentes indicam
que, depois de muito tempo no organismo, o HIV danifica a
parede dos vasos sanguíneos, deixando-os mais suscetíveis
ao acúmulo de placas de gordura. Uma das primeiras
e mais conclusivas pesquisas sobre o assunto
foi publicada em 2004 na revista especializada Circulation,
da Associação Americana do Coração.
Os pesquisadores mostraram que, em apenas um ano, a espessura
das artérias carótidas dos soropositivos aumentou
0,074 milímetro. Pode parecer pouco, mas não
é, quando se leva em conta que a densidade esperada
para uma carótida é de no máximo 1 milímetro.
Principal canal de irrigação sanguínea
do cérebro, uma carótida mais espessa torna-se
mais rija e vulnerável a entupimentos. Se o suprimento
cerebral de sangue é interrompido, a ameaça
é de derrame.
Assim como ocorre com a população
em geral, em portadores de HIV as doenças metabólicas
podem ser revertidas com mudanças no estilo de vida.
Silvia Almeida, por exemplo, não precisou recorrer
a medicamentos para baixar os níveis de gordura no
sangue. Bastou que ela aderisse a uma dieta saudável
e à prática regular de exercícios físicos.
Um dos poucos trabalhos sobre o impacto dessas mudanças
nas taxas de triglicérides e de LDL, entre os infectados
pelo vírus, foi realizado por médicos do Incor,
em parceria com a Casa da Aids, do Hospital das Clínicas.
Ter uma dieta balanceada, praticar caminhada de quarenta minutos
quatro vezes por semana e abandonar o cigarro compõe
uma rotina capaz de, em dois meses, normalizar as taxas de
gordura no sangue de 20% dos soropositivos em tratamento com
o coquetel. Depois desse período, aos que não
conseguiram aderir a um estilo de vida saudável ou
não conseguiram atingir a normalidade, foram dados
remédios específicos para o controle de doenças
metabólicas. Em cinco meses, todos eles estavam com
taxas normais de colesterol e triglicérides.