O
brasileiro Adhemar Ferreira da Silva, bicampeão olímpico e cinco
vezes recordista mundial no salto triplo, conseguiu, em 1955, seu feito máximo:
a marca de 16,56 metros. Nos Jogos Pan-Americanos do Rio, que começam dentro
de um mês, a estrela da modalidade deverá ser o paranaense Jadel
Gregório, de 26 anos, que se tornou recordista sul-americano no mês
passado ao saltar 17,90 metros. Note-se que 1,34 metro separa Adhemar e Jadel.
Parece pouco, mas é uma enormidade. Mesmo para o atleta de elite, que com
apenas três passadas se projeta 18 metros o comprimento de uma quadra
de vôlei oficial , cada centímetro a mais exige um monumental
esforço de desenvolvimento. Esse é o desafio no mundo dos recordes.
Das 2.252 medalhas em disputa nos Jogos Pan-Americanos, 332 são de ouro.
No entanto, não mais do que trinta recordes pan-americanos deverão
ser batidos, segundo estimativa das principais confederações esportivas.
Recordes mundiais? Muito improvável. O Pan-Americano é uma competição
regional, com marcas inferiores às das Olimpíadas. Alguns países,
como os Estados Unidos, dificilmente mandam para o Pan seus atletas número
1. Isso significa que é um evento sem importância? Não. Entre
outros fatores, porque, em treze das 28 modalidades olímpicas, os resultados
serão classificatórios para as Olimpíadas de Pequim. E também,
como em qualquer encontro de grandes atletas, ali a superação será
a estrela. É na capacidade de chegar aonde nenhum outro humano jamais chegou
que reside a essência do esporte de alto nível.
Naquele instante no milésimo de segundo, no milímetro alcançado
se concentram o esforço de aprimoramento ininterrupto, as descobertas
de novos materiais esportivos e um vertiginoso empreendimento tecnológico.
Recordes são resultado de uma conjunção de fatores, como
aptidão, genética favorável, preparo psicológico e
muita, muita tecnologia. Entre as novas técnicas de treinamento, está
o uso de materiais que modulam as vibrações musculares e melhoram
o desempenho durante a corrida. Há equipamentos para o registro fotográfico
de cada movimento do atleta, para que seja minuciosamente comparado com o dos
recordistas mundiais do momento. Avaliam-se o ângulo de um braço
na entrada na água, a flexão de uma perna na hora do salto, a posição
do tronco na arrancada dos 100 metros rasos. Tudo para corrigir imperfeições
milimétricas de movimentos e revolucionar a fisiologia (veja
quadro).
Carlos
Silva/Imapress/AE
Jadel
Gregório: movimentos precisos graças ao computador
Na natação não é diferente.
Um dos favoritos a estabelecer novas marcas no Pan-Americano é Thiago Pereira,
estrela maior da natação brasileira. Ele tem chance de medalha nas
sete modalidades que vai disputar, e espera-se que leve o ouro em pelo menos três
delas. Para tentar confirmar o favoritismo e faturar um recorde, ele incluiu em
sua preparação uma etapa singular. Isolou-se durante três
semanas em um centro de treinamento, na Espanha, localizado a mais de 2 300 metros
de altitude. Ali, a pressão atmosférica é menor, o que exige
maior esforço do atleta. O organismo então se condiciona a aumentar
a quantidade de oxigênio que leva aos tecidos musculares. Isso reduz drasticamente
a concentração de ácido láctico nos músculos.
A conseqüência natural é a diminuição das dores,
que podem ser lancinantes em atletas de ponta, e das náuseas. O corpo adquire
maior resistência para a seqüência de provas. Maior fenômeno
das piscinas atualmente, o americano Michael Phelps realiza esse tipo de treinamento
duas ou três vezes por ano, para manter-se com uma taxa de ácido
láctico de apenas 8 milimols (medida de molécula) por litro na corrente
sanguínea. Aos 21 anos, já quebrou dezenove recordes mundiais e
quatro olímpicos. Após três semanas de treinamento na altitude,
Thiago conseguiu estabilizar-se entre 10 e 12 milimols por litro. Cada organismo
reage de uma forma. "A pessoa pode treinar quanto for, mas, se não tiver
uma predisposição genética, não adianta", diz a cardiologista
Luciana Janot, do Instituto do Coração de São Paulo, que
investiga a composição genética de atletas brasileiros de
alto rendimento. Durante o Pan-Americano, ela coletará amostras dos atletas
para o estudo que pode determinar o mapa dos genes ligados aos diferentes esportes.
A competição olímpica
é o grande laboratório dos limites do corpo humano. Os Jogos Pan-Americanos
também se prestam a esse papel, embora sejam uma competição
de nível técnico inferior ao de Olimpíadas e campeonatos
mundiais (veja quadro). É improvável
que as principais estrelas do esporte no continente venham ao Brasil. No atletismo,
por exemplo, os americanos do primeiro time dão preferência a outras
competições, atraídos por prêmios em dinheiro e pela
possibilidade de se consagrar na disputa com os melhores do mundo. Mas o Pan também
tem vantagens para quem participa. Para jovens talentos é a oportunidade
de se firmar no cenário de competições internacionais, concorrendo
com adversários de bom nível, mais experientes. Nesse tipo de competição,
dificilmente se alcança um recorde mundial, mas não é de
todo impossível. Foi o que aconteceu com João Carlos de Oliveira,
o João do Pulo. No Pan da Cidade do México, em 1975, ele estabeleceu
a marca mundial do salto triplo com 17,89 metros. Seu feito se manteve imbatível
por dez anos nas competições mundiais. E somente neste ano outro
atleta das Américas (Jadel Gregório) conseguiu estabelecer um novo
recorde sul-americano.
Giampiero
Sposito/Reuters
Asafa
Powell: o mais veloz do mundo
No universo dos superatletas, o tempo tem um significado diferente do que
representa para o resto da humanidade. O homem mais rápido do mundo na
atualidade, o jamaicano Asafa Powell, que não estará no Pan, corre
100 metros em 9s77. Mas ele é apenas um segundo mais veloz do que o primeiro
atleta a bater o recorde da prova, em 1912: o americano Donald Lippincott. Powell
alcançou a marca pela primeira vez em 2005, quase um século depois.
Incontáveis atletas dedicaram a carreira a ampliar essa marca. Powell,
com apenas um segundo à frente, é uma máquina poderosa. Para
produzir atletas desse porte, o homem teve de saber como tirar proveito da natureza.
Aqui, é preciso recorrer ao darwinismo. As formulações sobre
o processo de seleção natural e a transmissão de características
genéticas de uma geração para a outra ajudam a entender o
surgimento de indivíduos com natural aptidão para as diferentes
modalidades. No basquete, por exemplo, os jogadores são cada vez mais altos.
Nos anos 70, a altura dos pivôs americanos rondava os 2,10 metros. Desde
então, eles cresceram em média 4 centímetros por década
e hoje estão na faixa dos 2,30 metros, enquanto no mesmo período
a altura da população americana aumentou em média 0,4 centímetro
por década.
O desafio do esporte
nos próximos anos será conhecer o verdadeiro limite do corpo. O
ser humano preponderou no planeta graças a um cérebro privilegiado,
ao domínio da linguagem e a sua conseqüente capacidade de organização.
Se dependesse apenas de seus músculos, não teria conseguido sobreviver
à vida na floresta. Capaz de alcançar uma velocidade média
de 36 quilômetros por hora, o homem é menos veloz até do que
os elefantes, que chegam a 40 quilômetros por hora. Portanto, cada centímetro,
cada segundo conquistado no mundo dos recordes foi um empreendimento fabuloso.
Ocorre que estamos próximos do limite.
As projeções dos cientistas mostram que o homem está perto
de chegar à fronteira final da capacidade do corpo. O recorde mundial do
atletismo na prova de 800 metros masculino, de 1min41s11, está muito perto
do tempo que se considera intransponível, de 1min40s. Já nos 1.500
metros feminino, esse limite já teria sido atingido: 3min50s46. "Chega
uma hora em que, pelo padrão fisiológico e biomecânico do
homem, se torna impossível bater recordes. Há um ponto em que o
homem, sem recursos como implantes mecânicos, se torna limitado", diz João
Paulo Dubas, coordenador do Laboratório de Fisiologia do Exercício
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É esse limite cada
vez mais próximo que faz com que as competições, como a que
está por vir, sejam oportunidades históricas de ver a máquina
humana em ação.