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13 de junho de 2007
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Internacional
O dorminhoco polonês

Um homem entrou em coma na Polônia comunista
e acordou, feliz, no país capitalista de hoje

 

Bogdan Hrywniak/AFP
Grzebski: depois de dezenove anos, espanto com a era dos celulares e iPods

Em 1988, quando o ferroviário Jan Grzebski entrou em coma em decorrência de um acidente com um vagão de trem, a Polônia vivia dias de pesadelo. Oprimido por uma ditadura comunista, o país chafurdava no atraso. Não se encontrava nada além de chá e vinagre nas prateleiras. Havia racionamento de gasolina, e a cidade natal de Grzebski, no norte do país, era um lugar cinzento e melancólico. Nada mais compreensível, portanto, que ele tenha se espantado tanto ao retornar à consciência, dezenove anos depois. Grzebski acordou numa Polônia capitalista, democrática e moderna. Ao sair às ruas, fascinou-se com os sinais de pujança. Impressionou-se com os néons do comércio, a fartura de carne nos supermercados e as pessoas fazendo uso de aparelhos como celulares e iPods nas ruas. Ficou embasbacado ainda ao verificar que hoje se pode falar mal dos políticos poloneses com toda a liberdade. Vinda a público na semana passada, a história real de Grzebski, de 65 anos, não fica nada a dever a um filme como O Dorminhoco (1973), em que Woody Allen é ressuscitado depois de passar 200 anos congelado e se vê em apuros num mundo totalitário. Ou então ao recente Adeus, Lênin!, no qual uma alemã entra em coma às vésperas da queda do Muro de Berlim e volta à consciência já no capitalismo – seu filho faz de tudo para esconder essa nova realidade dela. Na semana passada, numa cadeira de rodas, Grzebski contou à TV polonesa que em seu caso, felizmente, só tem a comemorar. "Não tenho saudade daquela Polônia que eu conheci", declarou.

O fato de Grzebski ter sobrevivido é quase uma ironia. Depois do acidente que sofreu, os médicos o deram por perdido. O operário deve sua recuperação à persistência da mulher, que lhe proporcionou em casa um nível de atenção digno de uma UTI hospitalar. Por exemplo: de hora em hora, ela mudava a posição do paciente no leito, para evitar as complicações comuns a doentes que enfrentam tanto tempo de imobilidade. Em outubro passado, Grzebski foi internado por causa de uma pneumonia e parecia estar perto da morte. Teve uma recuperação surpreendente, contudo, que culminou com a volta à consciência. Enquanto estava em coma, seus quatro filhos se casaram e lhe deram onze netos. As mudanças por que passou a Polônia não foram menos dramáticas, é claro. Um ano depois de Grzebski cair de cama, o movimento encabeçado pelo sindicalista Lech Walesa derrubou o regime comunista. Em 1999, o país passou a integrar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), saindo da órbita militar da antiga União Soviética. Três anos atrás, por fim, tornou-se parte da União Européia. O que abriu caminho para a nova Polônia que Grzebski viveu para ver.

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