Um
homem entrou em coma na Polônia comunista e acordou, feliz, no país
capitalista de hoje
Bogdan
Hrywniak/AFP
Grzebski:
depois de dezenove anos, espanto com a era dos celulares e iPods
Em 1988, quando o ferroviário Jan Grzebski entrou em coma em decorrência
de um acidente com um vagão de trem, a Polônia vivia dias de pesadelo.
Oprimido por uma ditadura comunista, o país chafurdava no atraso. Não
se encontrava nada além de chá e vinagre nas prateleiras. Havia
racionamento de gasolina, e a cidade natal de Grzebski, no norte do país,
era um lugar cinzento e melancólico. Nada mais compreensível, portanto,
que ele tenha se espantado tanto ao retornar à consciência, dezenove
anos depois. Grzebski acordou numa Polônia capitalista, democrática
e moderna. Ao sair às ruas, fascinou-se com os sinais de pujança.
Impressionou-se com os néons do comércio, a fartura de carne nos
supermercados e as pessoas fazendo uso de aparelhos como celulares e iPods nas
ruas. Ficou embasbacado ainda ao verificar que hoje se pode falar mal dos políticos
poloneses com toda a liberdade. Vinda a público na semana passada, a história
real de Grzebski, de 65 anos, não fica nada a dever a um filme como O
Dorminhoco (1973), em que Woody Allen é ressuscitado depois de passar
200 anos congelado e se vê em apuros num mundo totalitário. Ou então
ao recente Adeus, Lênin!, no qual uma alemã entra em coma
às vésperas da queda do Muro de Berlim e volta à consciência
já no capitalismo seu filho faz de tudo para esconder essa nova
realidade dela. Na semana passada, numa cadeira de rodas, Grzebski contou à
TV polonesa que em seu caso, felizmente, só tem a comemorar. "Não
tenho saudade daquela Polônia que eu conheci", declarou.
O fato de Grzebski ter sobrevivido é quase uma ironia. Depois do acidente
que sofreu, os médicos o deram por perdido. O operário deve sua
recuperação à persistência da mulher, que lhe proporcionou
em casa um nível de atenção digno de uma UTI hospitalar.
Por exemplo: de hora em hora, ela mudava a posição do paciente no
leito, para evitar as complicações comuns a doentes que enfrentam
tanto tempo de imobilidade. Em outubro passado, Grzebski foi internado por causa
de uma pneumonia e parecia estar perto da morte. Teve uma recuperação
surpreendente, contudo, que culminou com a volta à consciência. Enquanto
estava em coma, seus quatro filhos se casaram e lhe deram onze netos. As mudanças
por que passou a Polônia não foram menos dramáticas, é
claro. Um ano depois de Grzebski cair de cama, o movimento encabeçado pelo
sindicalista Lech Walesa derrubou o regime comunista. Em 1999, o país passou
a integrar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan),
saindo da órbita militar da antiga União Soviética. Três
anos atrás, por fim, tornou-se parte da União Européia. O
que abriu caminho para a nova Polônia que Grzebski viveu para ver.