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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
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LIVROS

Madeira de Lei, de Camilo José Cela (tradução de Mario Pontes; 244 páginas; 33 reais) – O espanhol Cela é conhecido como fundador do "tremendismo", corrente literária cuja principal característica é a ênfase em imagens cômicas e grotescas. Vencedor do Prêmio Nobel de 1989, ele leva esses traços ao extremo em Madeira de Lei. O cenário é o litoral da Galícia e os protagonistas são pescadores, padres, curandeiras – vivos e mortos cujas histórias são aos poucos rememoradas pelo narrador. Com um enredo impossível de ser resumido, o livro é torrencial, uma cacofonia cheia de toques fantásticos. Tome fôlego e leia.


O Livro de Ouro da História da Música,
de Otto Maria Carpeaux (Ediouro; 525 páginas; 29,90 reais) – Lançado em 1958, com o título Uma Nova História da Música, esse livro é fonte de consulta utilíssima. Carpeaux (1900-1978) argumenta que a música ocidental, ao contrário das outras artes, não sofreu influência da Antiguidade e que sua origem remonta à Idade Média. A partir daí, faz uma cronologia das formas musicais. Situa cada composição em seu contexto histórico e faz ilações interessantes – num texto sempre agradável.

 

VÍDEO

Divulgação
Michael Caine: ainda chocante


O Vingador
(Get Carter, Inglaterra, 1971. Warner) – O inglês Michael Caine conseguiu uma atuação insuperável no papel de Jack Carter, um gângster de segundo escalão que volta à cidade natal para o enterro do irmão e pressente que há algo de escuso em sua morte. Com método e frieza, Carter varre o submundo em busca de um culpado. O diretor Mike Hodges não economiza na brutalidade nem tenta despertar simpatia por seu protagonista, tão sórdido quanto os homens a quem persegue. Por isso, passados trinta anos de sua realização, o filme continua chocante – o que não é um feito a ser desprezado. Não confundir com a péssima refilmagem, O Implacável, estrelada por Sylvester Stallone, que também está chegando às locadoras.

 

DISCOS

Polygram
Echo: boas letras e muita vibração

Flowers, Echo and the Bunnymen (Sum Records) – Criado em 1978 na ressaca do punk rock, o Echo sempre se diferenciou por ter um vocalista acima da média (o melancólico Ian McCulloch) e a guitarra criativa de Will Sergeant. A banda sofreu um cisma dez anos depois de sua criação, para retomar suas atividades apenas em 1997. Terceiro CD dessa nova fase, Flowers lembra os grandes discos do Echo na década de 80. Músicas como King of Kings (com influências de Doors, uma banda idolatrada pelo grupo) e Life Goes On têm bons refrãos e muita vibração, qualidades que fazem falta no pop atual.


João Santos
Raul Seixas: rockões endiabrados

Os 24 Maiores Sucessos da Era do Rock, Raul Seixas (Universal) – Finalmente um produto tirado do baú de Raul Seixas que não cheira a oportunismo. Gravado em 1973 (pouco antes de o roqueiro baiano emplacar os hits Ouro de Tolo e Gita), o álbum traz releituras do rock nacional e internacional. Raul transforma canções tolinhas como Estúpido Cupido em rockões endiabrados, dá um toque latino em Vem Quente que Estou Fervendo e emula Elvis Presley em Blue Suede Shoes. Há mais um motivo para os fãs considerarem esse disco um biscoito fino. Ainda nos anos 70, ele teve uma versão alternativa com o título 20 Anos de Rock. A diferença eram as palmas falsas, para dar a impressão de que o disco era ao vivo. Felizmente, a gravadora optou por utilizar a versão original no relançamento.


10,000 Hz Legend,
Air (Virgin) – Definitivamente, a França não se resume às baladas melosas de Charles Aznavour. O país é hoje um dos maiores exportadores de música eletrônica de boa cepa, avalizada por gente como Madonna. O principal nome desse novo som francês é o Air, formado pelos DJs Jean-Benoît Dunckel e Nicolas Godin. Quarto disco da dupla, 10,000 Hz Legend é recheado de climas soturnos e psicodélicos, que lembram as melhores fases do Pink Floyd. O álbum tem ainda a participação do cantor americano Beck, queridinho da vanguarda pop que toca gaita em The Vagabond e faz os vocais de Don't Be Light. O melhor momento, no entanto, fica por conta da balada How Does It Make You Feel?

 

OS MAIS VENDIDOS - CRÍTICA

Solstício de Inverno (tradução de Cyana Leahy; Bertrand Brasil; 644 páginas; 54 reais), romance da escritora escocesa Rosamunde Pilcher que ocupa a sexta posição na lista de mais vendidos de VEJA, tem várias utilidades. Com quase 700 páginas, ele pode ser usado como apoio por leitores que precisam alcançar alguma coisa na última prateleira do armário. As fotos da capa e da lombada, por sua vez, poderiam inspirar belos quebra-cabeças, daqueles com milhares de peças que formam paisagens européias no inverno. Do mesmo modo, o retrato da autora, que ocupa toda a contracapa, ficaria muito bem reproduzido a óleo e pendurado na sala de uma emergente carioca. De todos os modos, a melhor maneira de se relacionar com o livro é essa: não abri-lo.

O enredo é tão criativo quanto um quadro do programa A Praça É Nossa. Numa cidade do interior da Inglaterra, uma ex-atriz tenta viver calmamente seus dias de aposentada ao lado de um cãozinho chamado Horácio. Mas uma tragédia vira seu cotidiano pelo avesso. A mensagem (ai, ai...) é a de costume: as pessoas que julgamos interessantes podem nos decepcionar e aquelas cuja vida parece ordinária não raro escondem histórias comoventes. Nos primeiros parágrafos do livro, o leitor é informado de que o cão da personagem tinha uma "bela fofa e triunfante cauda". Quatro páginas adiante, tem de engolir que a protagonista usava no cabelo uma tintura "louro morango", mas que às vezes o tom do cabelo ficava "mais para laranja que para morango". Pois é, leitura assim, nem para o mais longo e nórdico inverno.


Flávio Moura



   
 


Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva, Siciliano; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Leitura.
   
 
   
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