Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
Artes e Espetáculos Ensaio
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
  Nove Rainhas, a boa surpresa do cinema argentino
O crítico fantasma da Sony
A Partilha, de Daniel Filho
Alguém Como Você, com o bonitão Hugh Jackman
O sucesso do bordel de Porto dos Milagres
Sabrina abandona no ar o programa SuperPositivo
As dificuldades de Adriane Galisteu com a audiência
ACM, o artista de televisão
A obra a quatro mãos de Borges e Bioy Casares
Chico Buarque ajuda na tradução de poesias

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Roberto Pompeu de Toledo

Entre a metafísica
e a soberba

O ex-senador ACM agora é
apanhado
em flagrante de
plágio.
Algo o pune, implacável,
nesta quadra infeliz

A cena é das mais dramáticas dessa obra-prima de dramaturgia que é o Evangelho de São João. Jesus está diante de Pôncio Pilatos, no Pretório – o palácio dos governadores romanos nos territórios ocupados. "Tu és o rei dos judeus?", pergunta Pilatos. Jesus responde: "Meu reino não é deste mundo (...) meu reino não é daqui". "Então, tu és rei?", insiste Pilatos. Jesus responde: "Tu o dizes: eu sou rei". E prossegue: "Por isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz". Pilatos está em outra sintonia, mas nem por isso deixa de apresentar uma réplica inquietante. "Que é a verdade?", pergunta (João, 18, 33-38).

Que é a verdade? A frase de Pilatos, tantas vezes citada, vem ecoando ao longo dos séculos. É tentador tomá-la como alta indagação metafísica. Nessa hipótese, eis o preposto romano procurando a fluida e traiçoeira verdade como um Hamlet antes de Shakespeare. Um autorizado comentador dos Evangelhos, o padre americano Raymond Brown, autor do monumental The Death of the Messiah (A Morte do Messias), interpreta-a de outra forma. A frase, escreve ele, "ecoa a soberba romana". Pilatos estaria descredenciando o interlocutor. Quem és tu para invocar a verdade? Lá sabes o que é ela?

Pilatos vem a propósito do ex-senador Antonio Carlos Magalhães. O discurso em que renunciou ao mandato, da tribuna do Senado, no último dia 30, começa por invocar o famoso diálogo no Pretório da Judéia: "No momento em que a maior justiça se encontrou com a maior injustiça, e no dia em que o erro supremo se defrontou com a suprema verdade, nesse dia o juiz, o representante do poder estatal, que era Pôncio Pilatos, em face à perturbadora fúria, em face das multidões arrebatadas, esquecendo-se dos deveres morais que incumbiam à sua pessoa e dos misteres políticos que incumbiam ao seu cargo, respondeu com estas palavras melancólicas: 'Mas o que é a verdade?'.". ACM emendava com a pergunta inversa, "O que é a mentira?", para concluir que mentira era a "farsa" montada contra ele.

Que é a verdade? Que é a mentira? As perguntas continuam pertinentes, 2.001 anos depois de Pilatos e, sobretudo, uma semana e tanto depois do discurso do ex-senador. Pois o internauta Sérgio Faria, responsável por uma esperta e esculhambada página da internet, batizada com o significativo nome de Catarro Verde (www.catarro.blogspot.com), descobriu que esse trecho do discurso – nada menos que o parágrafo de abertura – não é original. Foi copiado, quase palavra por palavra, inclusive a "maior justiça" e o "erro supremo", os "deveres morais" e os "misteres políticos", do discurso feito no dia 9 de agosto de 1954 pelo então deputado Afonso Arinos de Melo Franco. Quatro dias antes, tivera lugar o atentado da Rua Toneleros, em que morreu o major Rubens Vaz e feriu-se o jornalista Carlos Lacerda. Fechava-se o cerco contra o presidente Getúlio Vargas. Como líder da oposição, Afonso Arinos subiu à tribuna da Câmara para, tal qual ACM, fazer um discurso de renúncia – só que não renúncia dele próprio, mas a do presidente, que exigiu. Duas semanas depois, Getúlio se matava.

Insondável, mais ainda que a verdade, é a alma do ex-senador Antonio Carlos Magalhães. A um mistério – por que diabos teria se envolvido no episódio da violação da votação secreta do Senado? – soma-se outro. Por que diabos teria copiado o discurso de outrem? Se gostava do trecho, por que não citar o autor, ele que, em outras partes do mesmo discurso, citou tantos autores? O discurso de Afonso Arinos consta de um conjunto livro-CD, Grandes Momentos do Parlamento Brasileiro, lançado pelo Senado durante a presidência de ACM e prefaciado por ele próprio. Ao que tudo indica, ele, ou os assessores, vasculharam a coleção à exaustão, enquanto preparavam o discurso. Ela lhes rendeu ainda, segundo revelaram reportagens de O Estado de S. Paulo e do Jornal do Brasil, uma frase de Carlos Lacerda (atribuída a "um grande brasileiro") e, no meio de outro discurso de Arinos, uma citação de Joaquim Nabuco.

O mais clamoroso episódio anterior de plágio na política nacional foi a série de artigos do crítico literário José Guilherme Merquior que o então presidente Fernando Collor publicou como seus. No caso de ACM, podia-se concluir chamando a atenção para a ironia que é um discurso que começa invocando a verdade sustentar-se, no mesmo parágrafo, numa mentira. Os mais ferozes diriam tratar-se de conveniente introdução a uma peça que, do começo ao fim, inventou uma realidade, talhando-a às conveniências do autor como o alfaiate talha o terno à medida do cliente. Mas também se pode olhar para outro lado da questão. ACM começou a perder-se quando, mais ACM do que nunca, foi jactar-se com promotores de que conhecia a tal lista da votação secreta. No discurso, travestiu-se de outro. Fez-se de Afonso Arinos – e foi apanhado de novo. Que é a verdade? Quem sou eu? Alguns diriam que é a metafísica, outros que a soberba. Algo castiga, implacável, o velho político.

   
canaldecompras
O que é canal de compras
CDs DVDs Vídeos
Saraiva.com.br
 
Livros
Saraiva.com.br
Espiral
 
Ingressos
Fun by Net
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS