
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
Crie
seu grupo

|
|
Roberto
Pompeu de Toledo
Entre
a metafísica
e
a soberba
O
ex-senador ACM
agora é
apanhado em
flagrante de
plágio. Algo
o pune, implacável,
nesta
quadra infeliz
A
cena é das mais dramáticas dessa obra-prima de dramaturgia
que é o Evangelho de São João. Jesus está
diante de Pôncio Pilatos, no Pretório o palácio
dos governadores romanos nos territórios ocupados. "Tu és
o rei dos judeus?", pergunta Pilatos. Jesus responde: "Meu reino não
é deste mundo (...) meu reino não é daqui". "Então,
tu és rei?", insiste Pilatos. Jesus responde: "Tu o dizes: eu sou
rei". E prossegue: "Por isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar
testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz". Pilatos
está em outra sintonia, mas nem por isso deixa de apresentar uma
réplica inquietante. "Que é a verdade?", pergunta (João,
18, 33-38).
Que é a verdade? A frase de Pilatos, tantas vezes citada, vem ecoando
ao longo dos séculos. É tentador tomá-la como alta
indagação metafísica. Nessa hipótese, eis
o preposto romano procurando a fluida e traiçoeira verdade como
um Hamlet antes de Shakespeare. Um autorizado comentador dos Evangelhos,
o padre americano Raymond Brown, autor do monumental The Death of the
Messiah (A Morte do Messias), interpreta-a de outra forma. A frase,
escreve ele, "ecoa a soberba romana". Pilatos estaria descredenciando
o interlocutor. Quem és tu para invocar a verdade? Lá sabes
o que é ela?
Pilatos vem a propósito do ex-senador Antonio Carlos Magalhães.
O discurso em que renunciou ao mandato, da tribuna do Senado, no último
dia 30, começa por invocar o famoso diálogo no Pretório
da Judéia: "No momento em que a maior justiça se encontrou
com a maior injustiça, e no dia em que o erro supremo se defrontou
com a suprema verdade, nesse dia o juiz, o representante do poder estatal,
que era Pôncio Pilatos, em face à perturbadora fúria,
em face das multidões arrebatadas, esquecendo-se dos deveres morais
que incumbiam à sua pessoa e dos misteres políticos que
incumbiam ao seu cargo, respondeu com estas palavras melancólicas:
'Mas o que é a verdade?'.". ACM emendava com a pergunta inversa,
"O que é a mentira?", para concluir que mentira era a "farsa" montada
contra ele.
Que é a verdade? Que é a mentira? As perguntas continuam
pertinentes, 2.001 anos depois de Pilatos e, sobretudo, uma semana e tanto
depois do discurso do ex-senador. Pois o internauta Sérgio Faria,
responsável por uma esperta e esculhambada página da internet,
batizada com o significativo nome de Catarro Verde (www.catarro.blogspot.com),
descobriu que esse trecho do discurso nada menos que o parágrafo
de abertura não é original. Foi copiado, quase palavra
por palavra, inclusive a "maior justiça" e o "erro supremo", os
"deveres morais" e os "misteres políticos", do discurso feito no
dia 9 de agosto de 1954 pelo então deputado Afonso Arinos de Melo
Franco. Quatro dias antes, tivera lugar o atentado da Rua Toneleros, em
que morreu o major Rubens Vaz e feriu-se o jornalista Carlos Lacerda.
Fechava-se o cerco contra o presidente Getúlio Vargas. Como líder
da oposição, Afonso Arinos subiu à tribuna da Câmara
para, tal qual ACM, fazer um discurso de renúncia só
que não renúncia dele próprio, mas a do presidente,
que exigiu. Duas semanas depois, Getúlio se matava.
Insondável, mais ainda que a verdade, é a alma do ex-senador
Antonio Carlos Magalhães. A um mistério por que diabos
teria se envolvido no episódio da violação da votação
secreta do Senado? soma-se outro. Por que diabos teria copiado
o discurso de outrem? Se gostava do trecho, por que não citar o
autor, ele que, em outras partes do mesmo discurso, citou tantos autores?
O discurso de Afonso Arinos consta de um conjunto livro-CD, Grandes
Momentos do Parlamento Brasileiro, lançado pelo Senado durante
a presidência de ACM e prefaciado por ele próprio. Ao que
tudo indica, ele, ou os assessores, vasculharam a coleção
à exaustão, enquanto preparavam o discurso. Ela lhes rendeu
ainda, segundo revelaram reportagens de O Estado de S. Paulo e
do Jornal do Brasil, uma frase de Carlos Lacerda (atribuída
a "um grande brasileiro") e, no meio de outro discurso de Arinos, uma
citação de Joaquim Nabuco.
O mais clamoroso episódio anterior de plágio na política
nacional foi a série de artigos do crítico literário
José Guilherme Merquior que o então presidente Fernando
Collor publicou como seus. No caso de ACM, podia-se concluir chamando
a atenção para a ironia que é um discurso que começa
invocando a verdade sustentar-se, no mesmo parágrafo, numa mentira.
Os mais ferozes diriam tratar-se de conveniente introdução
a uma peça que, do começo ao fim, inventou uma realidade,
talhando-a às conveniências do autor como o alfaiate talha
o terno à medida do cliente. Mas também se pode olhar para
outro lado da questão. ACM começou a perder-se quando, mais
ACM do que nunca, foi jactar-se com promotores de que conhecia a tal lista
da votação secreta. No discurso, travestiu-se de outro.
Fez-se de Afonso Arinos e foi apanhado de novo. Que é a
verdade? Quem sou eu? Alguns diriam que é a metafísica,
outros que a soberba. Algo castiga, implacável, o velho político.
|
|
 |
|
 |

|
 |