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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
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A Manhattan paulista

"Nossa cara é esta: somos
um projeto falido, uma idéia descartada, uma concorrência
perdida"

São Paulo é inabitável. Não se trata apenas de trânsito engarrafado, ou ar poluído, ou criminalidade, ou fedor de lixo, ou mendigos nos semáforos, ou escassez de árvores, ou arquitetos incapazes, ou prefeitos corruptos. O problema está na raiz: falta-lhe um caráter, uma consciência.

Compare São Paulo a Nova York. No começo do século XIX, uma comissão foi encarregada de projetar o modelo de ocupação da ilha de Manhattan. A idéia que seus membros tiveram sobrevive até hoje: um reticulado composto de doze avenidas de norte a sul e 155 ruas de leste a oeste. Naquela época, Nova York ainda não era nada. Não tinha gente suficiente para preencher o espaço e não tinha atividades produtivas que justificassem o investimento. O reticulado era um mero exercício teórico. Mas a comissão vislumbrou que aquele terreno baldio rochoso, comprado por uma ninharia dos índios moicanos, estava predestinado a se transformar na principal cidade da maior potência do planeta. O reticulado de Nova York é um exemplo de perfeição urbana, pois representa fielmente o caráter de seu povo: simplório, prático, utilitarista, sonhador, megalomaníaco. Os americanos sabem que nasceram para dominar o mundo e suas cidades refletem esse impulso hegemônico. Não há nada que esteja fora de seu alcance. Tudo lhes pertence. Até a História. Quando os americanos querem um claustro medieval, desmontam um claustro medieval na Europa e, sem a menor vergonha, remontam-no em plena Nova York. Quando querem uma igreja gótica, fazem réplicas exatas de igrejas góticas no Kentucky ou no Tennessee. Quando querem Veneza, fazem uma réplica de Veneza em Coney Island ou Las Vegas. Quando querem prédios que simbolizem a força de seu império, fazem réplicas dos edifícios da Roma antiga em sua capital, Washington.

São Paulo é o contrário de Nova York. Nova York já era grande antes mesmo de nascer. Foi concebida para crescer. São Paulo não foi concebida por ninguém. Não é fruto de um projeto. Cresceu sem uma idéia, sem saber aonde queria chegar. Acho que o único jeito de torná-la minimamente habitável é dotá-la dessa idéia. Algo que corresponda a nosso modo de ser. As réplicas não servem, claro. Não somos iguais aos americanos. Eles foram feitos para dominar. Nós fomos feitos para ser dominados. Minha sugestão, portanto, é que São Paulo realize todos os projetos frustrados dos grandes arquitetos do passado. Palladio, por exemplo, perdeu a concorrência para a construção da Ponte de Rialto. Seu projeto jamais saiu do papel. Que tal pegarmos o desenho original e edificarmos a ponte de Palladio na Marginal Tietê, no lugar do Viaduto do Tatuapé? O mesmo pode ser feito com a fachada que Michelangelo criou para a Igreja de San Lorenzo, em Florença. A obra nunca foi feita. Nada nos impede de fazê-la agora, para decorar a fachada de um shopping center. Também podemos erguer o Grand Hotel que Gaudí desenhou para Nova York ou o abrigo flutuante que Le Corbusier planejou para o Exército da Salvação de Paris, com lugar para 160 miseráveis. Uma cidade com a nossa cara seria muito melhor para viver. E a nossa cara é essa: somos um projeto falido, uma idéia descartada, uma concorrência perdida, uma esperança que não se materializou.

 
 
   
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