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O
bode expiatório
Chefão
do FMI diz que a
culpa é
dos governos, mas
virou moda
acusar a
instituição por todos
os
problemas do mundo

Eduardo
Salgado
Quem ouve o alemão Horst Koehler, de 58 anos, falar sobre o protecionismo
dos países ricos pode ficar com a impressão de que está
à frente do presidente de uma organização não-governamental.
Nada disso: Koehler é o diretor-geral do Fundo Monetário
Internacional (FMI), a instituição que as ONGs escolheram
como inimigo número 1. Antes de se mudar para os Estados Unidos
com a mulher, Eva, e deixar os dois filhos adultos estudando na Europa,
ele foi presidente do Banco Europeu para a Reconstrução
e Desenvolvimento. Foi também o principal negociador alemão
no Tratado de Maastricht, que selou a união monetária entre
os países do continente currículo que o qualificou
para substituir o francês Michel Camdessus no comando do FMI, no
ano passado. Com fama de ser franco e prático, Koehler está
totalmente envolvido na tarefa de modificar a instituição.
Tinha programado vir ao Brasil neste mês, mas desmarcou por causa
da agenda apertada. Eva não gostou da mudança de planos.
Há tempos, ela nutre o sonho de conhecer o Brasil e já tinha
feito várias pesquisas na internet sobre o país. Na sede
do FMI, em Washington, Koehler falou a VEJA.
Veja
Nos últimos anos, o Brasil privatizou estatais, abriu
o mercado à competição internacional, controlou a
inflação e as contas públicas. Mas, quando se examina
a taxa de crescimento da década de 90, o que se vê é
algo modesto. O que está faltando?
Koehler
Soluções
mágicas não existem. O Brasil tem uma enorme economia, uma
população de 170 milhões de pessoas e um imenso potencial.
A questão é o que fazer para explorar esse potencial. É
preciso investir mais na preparação das pessoas. Para que
isso ocorra, é necessário atrair investidores externos.
Sejamos sinceros: o Brasil não tem dinheiro suficiente para alavancar
seu crescimento. A recuperação depois da desvalorização
do real foi uma das maiores vitórias do FMI. O Brasil adotou um
sistema de câmbio flutuante, manteve as contas públicas em
dia, controlou a inflação, e os resultados foram muito positivos.
As previsões, mesmo as do Fundo, eram de que a economia iria se
contrair em 1999, o que não aconteceu. Em 2000, cresceu ainda mais,
atraindo grande quantidade de investimentos, o que mostra a confiança
dos agentes. Por isso não devemos ser pessimistas. O Brasil é
um caso de sucesso.
Veja
Se o Brasil é um caso de sucesso, por que vivemos às
voltas com sobressaltos econômicos?
Koehler
Se
quisermos fazer parte de uma economia global e dinâmica, temos de
conviver com a idéia de que não estamos livres de crises.
Agora o Brasil está sujeito ao contágio da Argentina, sofrendo
com a desaceleração da economia dos Estados Unidos e com
a questão do racionamento de energia. São novos desafios,
o que não invalida o que foi feito até agora. O importante
é manter o rumo, porque no futuro o Brasil poderá colher
os frutos na forma de mais investimentos externos, empregos, aumento da
renda.
Veja O que o faz ter certeza de que teremos tudo isso?
Koehler
Nada
melhor do que fatos. A experiência mundo afora mostra que vale a
pena explorar as oportunidades do capital. Cingapura e China estão
colhendo os frutos dessa política. Gostaria que fosse mais fácil
e rápido, mas temos de lembrar: não há melhor alternativa.
Muitos críticos argumentam que o governo deveria imprimir mais
dinheiro e gastar à vontade. Para quê? Para o Brasil voltar
ao final da década de 80, quando a inflação reinava
solta? O mais importante é crescer de forma sustentada. É
isso que beneficia o rico e o pobre. Dito isso, também penso que
os governos latino-americanos devem prestar mais atenção
em temas como a concentração de renda e a pobreza.
Veja
A oposição culpa o FMI pelo racionamento de eletricidade.
O argumento é que o governo precisou controlar os gastos e não
sobrou dinheiro para investir em geração de eletricidade.
O FMI é o culpado pelo apagão?
Koehler
Essa é demais! A acusação é totalmente descabida
e injusta. Não dizemos ao Brasil o que fazer com o dinheiro que
arrecada. Quem decide as prioridades é o governo. Se há
dois anos tivéssemos dito que se deveria investir em energia, tenho
certeza de que os nacionalistas de plantão sairiam gritando "Fora
FMI, pare de mandar na gente" e todo aquele discurso rançoso. Os
brasileiros têm o direito e o dever de decidir o que fazer com seu
dinheiro.
Veja O governo brasileiro não precisa mudar o acordo
com o FMI para poder investir na geração de energia?
Koehler
Não. Mas o Brasil não deveria mexer em sua política
fiscal. Para resolver um problema não é preciso criar outro.
Se existe a necessidade de investir mais na geração de energia
elétrica, o governo deveria rever suas prioridades e decidir de
onde o dinheiro vai sair. A crise energética também deveria
ser um incentivo para que o governo e o Congresso definissem as regras
para os investidores privados, para que apressassem a privatização.
Veja Se o senhor fosse o ministro da Fazenda de um país
do Terceiro Mundo cheio de dívidas e problemas, pediria a ajuda
do FMI?
Koehler
Primeiro, iria tentar arrumar a casa. Faria um grande esforço para
controlar os gastos públicos e, ao mesmo tempo, investir em infra-estrutura
e na educação, fatores centrais para incentivar o crescimento
e criar oportunidades. Também combateria a corrupção,
um grande determinante do atraso. Feito isso, colocaria a boca no mundo.
Iria aos chefes de Estado dos sete países mais ricos do mundo,
ao FMI e ao Banco Mundial e diria: "Não estou aqui pedindo esmola.
Fiz a minha parte e agora quero a fatia do bolo da prosperidade, que por
direito pertence ao meu país. Parem de blablablá e abram
seus mercados para as minhas mercadorias e produtos de uma vez por todas".
No caso dos países mais pobres, ainda diria: "Cumpram suas promessas.
Vocês disseram que nos dariam o equivalente a 0,7% de seus PIBs
em forma de ajuda humanitária, mas estão transferindo apenas
0,25%".
Veja O senhor quer dizer que nos últimos anos os países
em desenvolvimento abriram muito mais suas economias que os países
ricos?
Koehler
Sim.
Veja a política de subsídios agrícolas na Europa.
Veja toda a discussão nos Estados Unidos para proteger os setores
siderúrgico e têxtil. Os protecionistas são muito
criativos para achar desculpas que justifiquem barreiras ao comércio.
O grupo de países ricos, conhecido pela sigla OCDE, gasta 380 bilhões
de dólares por ano em subsídios para a agricultura. Isso
é um escândalo. Ainda mais se pensarmos que as pessoas mais
paupérrimas nos países mais pobres vivem no campo e não
podem nem sonhar em exportar. Se quisermos que o processo de globalização
beneficie os mais pobres, teremos de mudar isso.
Veja Se o senhor tivesse um minuto para convencer um ativista
antiglobalização de que o trabalho do FMI ajuda a acabar
com a pobreza, o que diria?
Koehler
Somos uma instituição sem fins lucrativos. Nosso objetivo
é promover o crescimento da economia mundial para o benefício
de todos. Cometemos erros no passado, mas, na média, fizemos um
bom trabalho. Queremos melhorar, estamos em processo de mudança
e abertos ao diálogo.
Veja Como condiciona seus empréstimos ao ajuste fiscal,
o FMI é acusado de produzir pobreza nos países menos desenvolvidos.
Existe realmente esse fenômeno de causa e efeito?
Koehler
Você pode inquirir-me sobre o desempenho do FMI e eu posso perguntar:
o que os governos estão fazendo para combater a corrupção,
o que os países africanos fazem para acabar com essas guerras estúpidas,
o que os países ricos estão fazendo para abrir seus mercados?
É possível acabar com grande parte da pobreza, mas não
podemos ser simplistas. Veja o caso da China. Quem tem coragem de argumentar
que a China, onde vive boa parcela da população mundial,
não se beneficiou com as reformas pró-mercado? A pobreza
é a maior ameaça à estabilidade econômica e
política do mundo no século XXI. Por isso, temos de aumentar
a pressão para a resolução desse problema.
Veja Por que o FMI não exige reformas nos países
ricos com a mesma ênfase que emprega nas nações em
desenvolvimento?
Veja Por que o FMI não exige reformas nos países
ricos com a mesma ênfase que emprega nas nações em
desenvolvimento?
Koehler
Não
temos nenhuma ferramenta financeira para forçar os países
ricos a adotar determinadas políticas. Nas duas últimas
décadas, eles não nos pediram dinheiro. Todos os anos, fazemos
um relatório sobre a economia dos países-membros. Nesses
relatórios, pretendo começar a apontar os problemas. Aposto
no poder de convencimento da opinião pública. Não
é difícil ver que a prosperidade das nações
ricas depende de progressos nos países menos favorecidos. É
um absurdo que metade da população mundial viva em condições
deploráveis.
Veja No mundo inteiro, a esquerda critica o FMI, enquanto
nos Estados Unidos é a direita. Não é um paradoxo?
Koehler
Isso demonstra que o FMI não é tão ruim assim. Tornou-se
moda transformar o Fundo no bode expiatório para todos os problemas
do mundo. Atribuir culpa é uma das artes da política. Ninguém
gosta de reconhecer que errou. Na verdade, os governos são os maiores
culpados. Damos conselhos, mas são os governos e os congressos
que decidem o que fazer e como. Também cometemos erros, mas isso
não quer dizer que nossa direção esteja equivocada.
O engraçado é que, se algo funciona, ninguém nos
dá o crédito.
Veja Existe uma "receita" de gerenciamento da economia que
pode ser usada para todos os países?
Koehler
Não.
Isso é besteira. No passado, o FMI pode ter dado a impressão
de que havia, sim, uma única receita. Meu objetivo é mostrar
que as políticas devem ser ajustadas caso a caso. Mas esse ajuste
tem limites. Há precondições, como contas públicas
em ordem, que não podem ser negociadas. O tamanho dos déficits,
no entanto, pode mudar de acordo com a arrecadação de impostos,
crescimento econômico etc.
Veja A Argentina acaba de obter maior prazo para pagar parte
de sua dívida externa. Isso é uma solução
ou só o adiamento do dia da crise inevitável?
Koehler
O mercado mostrou que confia no plano de recuperação da
Argentina e, assim, os argentinos terão oportunidade de promover
o crescimento e sair da atual crise. Temos de dar-lhes tempo para que
obtenham sucesso.
Veja Existe saída para a eterna crise econômica
argentina sem que o sistema cambial, no qual 1 peso equivale a 1 dólar,
seja mudado?
Koehler
Mudar a lei da convertibilidade agora ou no futuro próximo só
traria mais problemas. O que a Argentina precisa é de estabilidade
política, que os partidos parem de brigar entre si. É hora
de união, de arregaçar as mangas e trabalhar duro pela salvação
do país. Os políticos e empresários argentinos deveriam
parar de discutir e começar a se empenhar com a mesma força
dos trabalhadores.
Veja O FMI já preparou uma estratégia de emergência
caso o plano de recuperação da Argentina não dê
certo?
Koehler
Não existe nenhum plano de salvamento sendo preparado e estamos
certos de que a Argentina sairá da crise.
Veja O senhor acha que a dolarização é
a melhor saída para países com moedas fracas?
Koehler
Como economista, penso que a dolarização tem algumas vantagens
porque faz o papel de uma âncora. Mas temos de considerar as implicações
políticas, e aí as coisas se complicam. No caso do Equador,
o país decidiu pela dolarização e eu dei apoio. Essa
saída, no entanto, não pode ser vista como uma solução
rápida. No futuro, poderá trazer mais problemas que soluções.
Veja Os últimos pacotes de salvamento do FMI têm
envolvido maior quantidade de dinheiro e condições menos
severas. O FMI está amolecendo o coração?
Koehler
Não.
O conteúdo dos programas na Argentina e na Turquia era bastante
duro. A única diferença é que estou tentando criar
um sistema que consiga detectar com antecedência o aparecimento
de crises para podermos evitá-las. Dito isso, saberemos que crises
irão ocorrer de novo. Não queremos amolecer o coração.
Os investidores poderão pensar que podem apostar contra um determinado
país porque sabem que o Fundo irá entrar com dinheiro para
salvá-lo. Governos também podem descuidar de suas políticas
contando com o salvamento. Numa economia de mercado é importante
que as pessoas que emprestam e as que recebem empréstimos saibam
dos riscos e os assumam.
Veja Os representantes do FMI que viajam ao Brasil para examinar
as contas do governo têm fama de ser muito arrogantes. Essa fama
é merecida?
Koehler
Nossos economistas são muito bem preparados e autoconfiantes, e
isso pode passar a impressão de que são arrogantes. Quero
que isso mude. Na semana passada, conversei com os funcionários
recém-contratados e disse a eles que devem sentir orgulho de seus
currículos conquistados nas melhores universidades do mundo, do
órgão para o qual trabalham, mas jamais ser arrogantes.
O FMI deve ter uma postura de prestador de serviço. Não
de quem dita normas.
Veja O senhor costuma ouvir a opinião de sua mulher,
não?
Koehler
Eva sempre tem algo a me ensinar. Costuma sugerir, por exemplo, que devo
ouvir o que o povo tem a dizer. E que a vida não é apenas
economia.
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