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Edição 2112

13 de maio de 2009
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Livros
O Egito em miniatura

Fundamentalismo, repressão sexual, corrupção
política: no romance de um escritor dentista que
se tornou best-seller, um prédio decadente
concentra todos os dramas da sociedade egípcia


Moacyr Scliar

Divulgação

A MOLDURA PERFEITA
Cena do filme O Edifício Yacubian: cruzamento de fanáticos, novos-ricos e nostálgicos da monarquia


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Trecho do livro

Em 1934, um empresário armênio construiu, no Cairo, um luxuoso prédio em estilo europeu clássico. Ali residiam, ou tinham escritório, ministros, ricos industriais, negociantes estrangeiros. Depois da revolução de 1952, que derrubou a monarquia e acabou por levar ao poder o líder nacionalista Gamal Abdel Nasser, muitos dos antigos moradores fugiram do Egito, e o edifício entrou em decadência. O prédio, convertido em quase cortiço, serviu de inspiração para um romance que se revelou um extraordinário best-seller internacional e que acaba de chegar ao Brasil: O Edifício Yacubian (tradução de Paulo Farah; Companhia das Letras; 288 páginas; 48 reais), de Alaa Al Aswany. Nascido em uma família intelectual, em 1957, e educado na França, Al Aswany é um ferrenho opositor do governo de Hosni Mubarak, no poder desde 1981, e, por causa dessa atuação política, já encontrou dificuldades para editar seus livros. Al Aswany ganha a vida como dentista e chegou a ter um consultório no Yacubian. No seu romance – adaptado para o cinema pelo diretor egípcio Marwan Hamed –, o edifício é a moldura de um vigoroso painel social.

O romance tem sua ação ambientada ao tempo da primeira Guerra do Golfo, em 1990. O Yacubian reúne uma vasta galeria de personagens, como o engenheiro Zaki Bek el Dessuqi – que personifica a antiga classe alta do Egito, saudosa da monarquia –, o intelectual homossexual Hatim Rachid e o novo-rico Hagg Muhammad Azzam. Os jovens são as figuras mais fortes do livro, especialmente Taha el Chazli, filho do porteiro, que acaba se juntando a um grupo islâmico extremista – Al Aswany usa o personagem para mostrar os mecanismos psicológicos que levam ao fundamentalismo.

A corrupção política, o fanatismo religioso, a repressão aos homossexuais – o autor trata dos temas mais prementes do Egito contemporâneo com um humor irônico, mas sempre com afeto pelos personagens. É por essa ambição que O Edifício Yacubian tem sido comparado à Trilogia do Cairo, do Nobel egípcio Naguib Mahfouz – uma notável análise da cultura egípcia que provocou a fúria dos fundamentalistas (houve até um atentado contra a vida de Mahfouz). Nem todos os críticos compartilham desse entusiasmo – houve quem apontasse elementos de novela televisiva no modo como o livro estrutura a relação entre seus vários núcleos de personagens. Os méritos de Al Aswany, porém, ultrapassam em muito seus defeitos. Excelente narrador, ele transforma a todos nós, leitores, em inquilinos do Edifício Yacubian.



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