O
futebol é um negócio rentável não apenas para
os clubes e jogadores. Empresários e investidores estão ganhando
muito dinheiro com a venda de atletas
Kalleo Coura
Lailson Santos
FOME DE BOLA Cerca de 120 garotos vivem,
longe dos pais, no centro de treinamento do Desportivo
Brasil: sacrifício em nome do sonho de se tornar
um jogador milionário
Em dezembro
de 1962, o escritor e cronista Nelson Rodrigues, o primeiro a traduzir o lirismo
do futebol brasileiro, escreveu o seguinte sobre a proposta do Juventus, clube
da cidade italiana de Turim, para comprar o craque Amarildo, que brilhara na Copa
do Chile, vencida meses antes pela seleção nacional:
Amigos,
o Juventus da Itália reiterou o lance nababesco: 250 milhões (de
cruzeiros) por Amarildo. Para um futebol pobre como o nosso e, repito, para
um futebol barnabé, a oferta soa como um escândalo: 250 milhões!
Aí está uma quantia que muitos só farejam ou apalpam nalgum
delírio furioso. Há reis, impérios, cidades, nações
que não valem tanto. E esse dinheiro todo por um rapaz, ali, de Vila Isabel,
que faz a barba num salão do Boulevard e que apanha o lotação
no Ponto de 100 réis.
Nelson
Rodrigues se estende, na crônica publicada na revista Manchete, sobre
a negativa do Botafogo de vender Amarildo "Tratou os 250 milhões
com o nojo de quem afasta com o lado do pé uma barata seca" e a
penúria dos nossos times, "que boiam num lago de dívidas como vitórias-régias".
Era um baita dinheiro dezesseis vezes o maior prêmio pago pela Loteria
Federal no mesmo ano. Quase 47 anos depois, os clubes nacionais continuam paupérrimos,
mas, associados a investidores, já não se recusam a vender
nem por um minuto suas estrelas por quantias nababescas. Muito pelo contrário.
O futebol brasileiro tornou-se o grande celeiro que abastece os gramados da Europa
e da Ásia. Só nos clubes europeus, há 551 atletas nacionais,
o suficiente para formar trinta equipes completas, com sete reservas cada uma.
Se um jogador de futebol brasileiro pudesse ser negociado na Bolsa Mercantil de
Chicago, seria um investimento dos mais concorridos: a "mercadoria" está
rendendo mais que o ouro. A venda de atletas para o exterior vem crescendo há
três anos consecutivos e, em 2008, totalizou 1 176 transferências
46% a mais do que em 2005. Só a transferência de Breno, ex-zagueiro
do São Paulo, para o Bayern de Munique rendeu ao grupo investidor um lucro
de 2 300% em menos de cinco meses.
Lailson Santos
"PENEIRA" DIFÍCIL Jogadores do Santos se arrumam
para mais um dia de treinamento. De cada 100 garotos que
passam pelas categorias de base do clube, apenas dez vestirão
a camisa santista como profissional
Na corrida aos craques
nacionais, a pressa de chegar antes do concorrente vem fazendo
com que a idade dos contratados caia na mesma proporção
com que dispara a cotação dos atletas no mercado:
os gêmeos Rafael e Fabio da Silva, ex-Fluminense, foram
comprados aos 15 anos pelo Manchester United, da Inglaterra.
Philippe Coutinho, de 16 anos, joga no Vasco, mas já
pertence ao Internazionale de Milão (que só
poderá levá-lo quando ele completar 18 anos).
Há ainda o incrível caso de Caio Werneck, "craque-bebê"
brasileiro de apenas 10 anos e já selecionado pelo
Roma. "Jogador de futebol virou commodity e o Brasil, seu
maior exportador", diz o italiano Raffaele Poli, pesquisador
do Centro Internacional de Estudos do Esporte, na Suíça.
Lailson Santos
O QUE TODOS QUEREM Nilson Belem Junior, o Juninho,
de 14 anos, não almeja jogar em um clube brasileiro
com tradição. "Quero ir para o exterior
para ganhar mais dinheiro e ajudar minha família",
diz
Um negócio só é bom mesmo quando é
bom para os dois lados. Por tal critério, esse de selecionar,
treinar e vender para o exterior jovens craques brasileiros
é um excelente negócio. Para o jogador, a diferença
entre os salários pagos por um clube brasileiro e por
um time europeu de porte equivalente quase sempre é
de um dígito, ou perto disso. Um atacante de um time
médio, de primeira divisão, que ganhe 15 000
reais por mês no Brasil facilmente conseguirá
emplacar um salário equivalente a 100 000 reais em
um time de igual tamanho na Itália. Diante disso, os
pobres clubes nacionais, as vitórias-régias
de Nelson Rodrigues, fazem malabarismos para tentar segurar
um pouco seus craques pelo menos até o momento
de conseguir vendê-los ao melhor preço. Os dirigentes
do Santos, por exemplo, além de pagar salários
expressivos a suas estrelas mirins o promissor Jean
Chera, de 14 anos, ganha 18 000 reais mensais, incluindo patrocínios
, esmeram-se em agradar àqueles a quem cabe a
palavra final diante de um convite vindo do exterior: os pais
dos meninos. Telefonemas simpáticos de integrantes
da diretoria e visitas ocasionais para um cafezinho são
as formas mais comuns de, digamos, "fidelizar" a família
do pequeno jogador. A família do craque Neymar, de
17 anos, é íntima da diretoria do clube. O potencial
de valorização do passe de Neymar atrai investidores
como abelhas ao mel. Certamente, para a tristeza das arquibancadas
da Vila Belmiro mas para a alegria do jogador, da sua família,
da diretoria do clube e dos investidores, Neymar logo será
vendido por uma fortuna. Quanto? Bem, o grupo Sonda comprou
40% do valor de uma venda futura quando o atleta ainda nem
tinha entrado em campo pela primeira vez por 6,5 milhões
de reais. Hoje, a multa rescisória do contrato dele
com o Santos é de 90,5 milhões.
O
sonho de fama e fortuna de milhares de jovens candidatos a craque materializa-se
nas peneiras testes que os grandes clubes fazem para identificar novos
talentos. As peneiras são de trama apertada. As organizadas pelo Flamengo
fora do Rio de Janeiro atraem 800 meninos a cada vez. Desses, apenas quatro são
selecionados para um período de testes. No Santos, segundo Guto Assumpção,
diretor de futebol de base do clube, de cada 100 garotos que entram nas categorias
de base, apenas dez acabam vestindo a camisa profissionalmente. Outros cinquenta
poderão até se tornar profissionais, mas em equipes de segundo ou
terceiro escalões. Só três de cada cinquenta jogadores convocados
para uma seleção de base chegam a vestir a camisa canarinho da seleção
principal.
Lailson Santos
CHUTE CERTEIRO O potiguar Victor Paiva
Torres, de 15 anos, vive confinado. "Pelo sonho de ser
um jogador de futebol me sujeito a tudo", diz o garoto,
que enfrenta diariamente a saudade da família
Se a peneira é
apertada, as recompensas são também desproporcionalmente
milionárias para quem chega lá. Por essa razão,
o garimpo de novos talentos tem se revelado um ótimo
negócio. Atraídos pelo baixo custo e pelo potencial
de lucro fantástico, investidores dos mais variados
setores têm feito suas apostas. É o caso do grupo
de supermercados Sonda e da empresa EMS Sigma Pharma. Juntos,
eles detêm direitos sobre futuras vendas de mais de
uma centena de jogadores. Esse modelo de negócio surgiu
quando o passe (título de propriedade de um jogador
que, na maioria das vezes, pertencia ao seu clube) foi abolido
pela Lei Pelé, em 2001. A partir daí, os times,
eternamente endividados, começaram a vender aos interessados
porcentuais do valor da venda futura de seus atletas, numa
operação similar à divisão de
capital entre os acionistas de uma empresa com a diferença
de que, nesse caso, o lucro só aparece quando o jogador
é negociado. A Sigma Pharma, que detinha 42,5% dos
direitos sobre a venda do ex-atacante do Cruzeiro Guilherme
Gusmão, de 20 anos, embolsou em torno de 6 milhões
de reais com a ida do atleta para o Dínamo de Kiev.
O grupo Sonda tem participação na cota de venda
de trinta jogadores profissionais, entre eles o argentino
Andrés DAlessandro, do Internacional, e de mais
de setenta jogadores de base. "Nossa expectativa é
duplicar o capital investido em até dois anos", diz
Thiago Ferro, um dos sócios do grupo. Para não
falar de empresas dedicadas exclusivamente ao negócio
esportivo como a Traffic, que, além de ter um
plantel de setenta jogadores, acaba de inaugurar uma verdadeira
incubadora de talentos (veja o quadro).
Ernani d'Almeida
MINICRAQUE O garoto Caio Werneck tem
apenas 10 anos e já treina no Roma, da Itália.
Ele foi convidado a integrar a base do clube depois de
participar de um acampamento da equipe no Brasil
O assédio
de clubes e investidores às chamadas "promessas do
futebol" vem criando miniestrelas jovens sem fama,
mas já familiarizados com a pose de um David Beckham
e a bajulação que cerca um Ronaldinho Gaúcho.
Tome-se o caso de Luiz Henrique Muniz Batista, o Esquerdinha.
Aos 16 anos, ele assinou com o Santos seu primeiro contrato
como profissional. Dias depois, foi levado a um passeio na
Oscar Freire, rua que abriga as lojas mais elegantes de São
Paulo. Acompanhado por três empresários, o adolescente
de regata branca e chinelo de dedo lotou sacolas
de chuteiras, camisetas e bermudas de marcas caras. No momento
em que a reportagem de VEJA o encontrou, Esquerdinha estava
sendo levado para escolher seu próximo presente: um
celular novo. O jogador contou que seus novos empresários
reservaram um preparador físico para ajudá-lo
a desenvolver a musculatura e contrataram um professor para
lhe dar aulas de inglês. Como em Santos o idioma é
português, está claro o objetivo final dos investidores.
Os
brasileiros formam de longe o maior grupo de jogadores estrangeiros na Europa.
Em geral, eles chegam lá por meio de uma negociação entre
clubes. Mas podem também ser levados diretamente por um dos muitos olheiros
que os times estrangeiros mantêm espalhados pelo Brasil. Essa rede de caça-talentos
em geral, constituída de ex-jogadores acompanha desde os
principais campeonatos regionais até as mais obscuras partidas de várzea.
O inglês John Calvert-Toulmin, observador do Manchester United na América
do Sul, assiste a cerca de cinquenta partidas por mês: "A minha função
não é procurar o melhor jogador, mas o jogador que melhor se adapte
às necessidades do meu clube".
Lailson Santos
O MAIS RECENTE PRODÍGIO Considerado o novo Robinho,
Neymar já ganha um salário de 80 000 reais
Ao contrário
de barras de ouro, jogadores de futebol podem ter saudade
de casa ou detestar o clima do novo país isso
quando não se metem em boates de reputação
suspeita, com frequentadoras idem, ou dão chá
de sumiço nos treinos para visitar os amigos no Brasil.
VEJA acompanhou a rotina de três jogadores que estão
vivendo na Europa: Willian Borges da Silva e Guilherme Gusmão,
na Ucrânia, e Breno Borges, na Alemanha. Em comum, os
três ganham pelo menos dez vezes mais do que recebiam
no Brasil, mantêm-se sintonizados nos canais brasileiros
de TV a cabo e mostram um notável desinteresse pela
cultura local. O atacante Guilherme chegou à Ucrânia
há três meses como a mais cara contratação
do Dínamo de Kiev. Ele reclama do frio e do fato de
que ninguém lá "parece fazer questão
alguma" de entendê-lo, ainda que o atleta não
fale outra língua. O ex-corintiano Willian, um dos
seis brasileiros do Shakhtar, é um dos poucos a estudar
um idioma, mas não com vistas à adaptação
na Ucrânia. Ele está aprendendo inglês
porque não pretende renovar o contrato com o clube
de Donestk.
Com pouca idade
e, em geral, baixa escolaridade, os jogadores brasileiros
raramente tiram proveito pessoal da experiência de viver
no exterior. Nesse sentido, ex-jogadores como Leonardo Nascimento
de Araújo e Dunga são exceções.
Ambos se beneficiaram com os anos passados na Europa. Dunga
aprendeu italiano e alemão e se orgulha de ter podido
visitar locais históricos fechados ao público
(veja o depoimento). Leonardo
diz que sempre teve curiosidade de conhecer outras culturas.
"Procurei passar apenas dois anos em cada país e me
esforcei para aprender a língua e conhecer o modo de
vida de cada um deles", diz. Na Itália, pouco antes
de abandonar os campos, fez um curso de gestão esportiva.
Hoje, aos 39 anos, é diretor técnico do Milan.
Leonardo
deixou o Brasil para jogar na Espanha quando tinha 22 anos de idade. Dunga foi
para a Itália pouco mais velho: aos 23. Coisas do século passado.
Hoje, apesar de a Fifa proibir transferências internacionais de menores
de 18 anos, uma série de subterfúgios permite que se drible a regra:
uma das formas mais frequentes é a contratação fictícia
do pai do atleta para um cargo em uma das empresas patrocinadoras do clube. Dessa
maneira, a família se transfere para o exterior e o pai recebe o salário
que seria do filho, mas que a lei impede que seja pago. A história do mineiro
Caio Werneck, de apenas 10 anos, seria diferente também nesse aspecto.
Em julho do ano passado, em Petrópolis, no Rio, o menino participou de
um acampamento promovido pelo Roma. Assim como o Milan, o time da capital italiana
realiza periodicamente esse tipo de evento com o objetivo oficial de "fortalecer
a marca do clube" fora da Itália e a intenção inconfessada
de detectar talentos precoces, também fora das fronteiras do seu país.
Caio, segundo o técnico Ricardo Perlingiero, responsável pelas categorias
de base do Roma, sobressaiu tanto nas partidas disputadas no acampamento que foi
chamado para fazer um estágio de uma semana no clube romano. Lá,
acabou sendo convidado a ficar. O fato de seu pai, Israel Werneck, ter conexões
com o clube italiano ajudou.
A família
se mudou para Roma e Caio passou a integrar a categoria de
base do clube. "Ele tem um passe muito acima da média",
diz Perlingiero. O técnico, que é brasileiro,
afirma que nem o menino nem sua família recebem nenhum
tipo de remuneração. Israel Werneck revela que
colocou o filho numa escola de futebol assim que ele completou
5 anos. Caio é um caso especial. Mas já se contam
nos dedos das duas mãos os jogadores brasileiros que
brilham no futebol no exterior e às vezes chegam à
seleção canarinho sem nunca ter brilhado com
a camisa profissional de um clube brasileiro. Ah, sim, quanto
a Amarildo, o da crônica de Nelson Rodrigues, ele foi
vendido para o Milan e jogou muitos anos na Itália
antes de voltar ao Brasil para encerrar a carreira no Vasco.
"Não renovo
por valor nenhum"
Alexander Khudoteply/AFP
"Eu nunca
quis jogar na Ucrânia. Vim para cá em 2007
porque insistiram muito. O presidente do clube fez de
tudo para me convencer: cheguei da Alemanha no jatinho
particular dele até a torneira do banheiro
era banhada a ouro. Fiquei impressionado com a proposta
que me fizeram e assinei na hora. Ganho por volta de
200 000 dólares por mês. Com o passar do
tempo, comecei a ficar infeliz. Jogando na Ucrânia
não tenho visibilidade. Não quero ser
um milionário desconhecido no resto do mundo.
Depois, os treinos parecem de atletismo. Nos fins de
semana, fico em casa, entediado. No inverno chega a
fazer 25 graus negativos! Mas o que mais odeio aqui
é a polícia, que sempre me para. Como
eles sabem que sou jogador, fazem isso para tentar me
tomar dinheiro. O Shakhtar pode me dar um caminhão
de dólares, mas eu não renovo por valor
nenhum."
Willian
Borges da Silva, 20 anos, jogador do Shakhtar
Donetsk, da Ucrânia
Tradução
até na hora do parto
Joerg Koch/AFP
"Tudo é
muito diferente na Alemanha: o povo e o clima são
mais frios, os vizinhos cuidam mais da sua vida e nos
treinamentos não tem rachões
(partidas disputadas entre reservas e titulares).
No começo, senti dificuldade para me adaptar,
mas tive a ajuda dos meus empresários, que moraram
comigo durante quase cinco meses. Eles fizeram de tudo.
Até colaram etiquetas na máquina de secar
com as palavras em português, já que não
falo inglês e não entendia nada de alemão.
Também arrumamos uma ajudante ótima. Ela
chegou a fazer a tradução do parto do
Pietro, meu filho, já que minha mulher não
entendia nada do que o médico falava. Hoje estou
totalmente adaptado e, apesar de ter estudado apenas
um mês, consigo até entender o alemão.
A vizinhança é o que mais me atormenta
aqui. Eles vasculham nosso lixo para ver se estamos
fazendo corretamente a separação e já
até ameaçaram chamar a polícia
porque acharam que estávamos maltratando os cachorros
por deixá-los na garagem no inverno. No geral,
sou feliz aqui, mas queria poder jogar mais do que estou
jogando. No tempo livre, geralmente fico em casa assistindo
a partidas de futebol. Quando saio em Munique, costumo
ir ao shopping, ao centro ou a lojas e restaurantes
legais. Não me interesso por museus. Quando estou
em São Paulo, não sou tão caseiro
assim. No Brasil tem muito mais coisa para fazer."
Breno
Vinicius Borges, 19 anos, jogador do Bayern de
Munique, da Alemanha, desde janeiro de 2008
Na
Itália, como um italiano
Joedson Alves
"Meu pai foi jogador de futebol e vendedor de bilhetes
de loteria. Não tive berço de ouro. Quando
fui jogar no Pisa, em 1987, não falava língua
nenhuma. Se via alguma coisa e não sabia o nome,
pedia para os colegas escreverem num papel. Um jogador
estrangeiro não pode ser um corpo estranho na
equipe. Quem vai para fora tem de se desvencilhar do
Brasil, e não ficar procurando o Brasil lá
fora.
É por
isso que, quando morei na Itália, tentei viver
como um italiano, na Alemanha como um alemão,
e no Japão como um japonês. Em Florença,
por exemplo, ia sempre aos mercados tradicionais e a
museus. Cheguei a entrar em lugares históricos
reservados apenas para secretários de governo.
No Japão, visitei vários templos budistas.
Na Alemanha, tinha aulas com uma professora que me levava
a festas típicas. Além disso, em todos
os países, fiz amizade com famílias que
me mostraram o modo de vida local. Isso foi bom não
só pelo aspecto cultural. De certa forma, essas
experiências me deixaram com a cabeça mais
aberta e me ajudam a lidar com os jogadores como treinador."
Carlos
Caetano Bledorn Verri, o Dunga, 45 anos, treinador
da seleção brasileira
O internato
do futebol
TRABALHO DURO Os garotos confinados
no centro de treinamento seguem uma extenuante rotina
de atividades
A empresa Traffic,
de marketing esportivo, criou um clube próprio
para revelar jovens talentos. O Desportivo Brasil, baseado
na cidade de Porto Feliz, no interior paulista, tem
o objetivo declarado de formar jogadores para o mercado
europeu. O time, que atua na segunda divisão
do futebol paulista, funciona também como um
intermediário. Alguns de seus jogadores, contratados
de outras agremiações profissionais, são
emprestados para equipes parceiras, como o Palmeiras
e o Botafogo. Esses clubes grandes são usados
como vitrines e, quando o jogador é vendido ao
exterior, eles recebem em troca 20% do lucro obtido
pela Traffic. No início deste ano, a empresa
inaugurou um gigantesco centro de treinamento em Porto
Feliz. Lá, cerca de 120 jogadores, de 13 a 20
anos, vindos de todo o país, seguem um rígido
regime de horário e de treinamentos. Eles moram
ali, com cinco colegas em cada quarto, e treinam três
horas por dia, de segunda a sábado, em troca
de uma ajuda de custo (160 reais, em média) e
do sonho de se tornar um jogador milionário.
"A gente é muito cobrado. É muita pressão
para jogar bem, melhorar. É difícil, não
vejo minha família desde o Natal. Mas, pelo sonho
de ser jogador, eu me sujeito a tudo", diz Victor Paiva
Torres, de 15 anos, nascido em Apodi, no Rio Grande
do Norte. Para matar a saudade, os garotos recorrem
ao MSN e ao Orkut. Correntes de prata, brincos de brilhantes,
iPods e laptops na maioria presentes de seus
procuradores são sinais de prestígio.
"Sou corintiano, mas quero jogar no exterior porque
lá poderei ganhar muito mais dinheiro e ajudar
minha família", diz Nilson Belem Junior, o Juninho,
de 14 anos. Os que estão em idade escolar estudam
num colégio público de Porto Feliz. Matar
aula rende um desconto de 5% na ajuda de custo e a proibição
de treinar por um dia. "Nosso objetivo é formar
e vender jogadores. Não existe paixão.
Não temos torcida. É negócio",
diz João Caetano, gerente do centro de Porto
Feliz. A Traffic também tem parceria com o Manchester
United. Pelo acordo, o time inglês pode pedir
à empresa que contrate adolescentes nos quais
tem interesse para serem treinados e, futuramente, integrados
ao seu plantel.
O misterioso dono da bola
Gleb Garanick/Reuters
ALEGRIA NA UCRÂNIA Apaixonado por futebol,
o bilionário Rinat Akhmetov atrai craques
brasileiros para o Shakhtar
Um dos homens
mais ricos da Ucrânia, o deputado e empresário
Rinat Akhmetov, de 42 anos, tem uma fortuna estimada
em 1,8 bilhão de dólares e duas paixões:
é louco por futebol e fanático pelo estilo
brasileiro de jogar. Nos últimos quatro anos,
importou nove atletas do Brasil para atuar no seu time,
o Shakhtar Donetsk, um dos mais populares da Ucrânia.
Além de dono do clube, Akhmetov é seu
presidente. Foi o bilionário quem o elevou à
categoria dos grandes de seu país. Ele sucedeu
no cargo a Akhat Bragin, assassinado num misterioso
atentado no estádio do Shakhtar, em 1995. Bragin
era acusado de ser um dos chefes da máfia ucraniana.
O passado
de Akhmetov também é um tanto obscuro.
Segundo seus funcionários, ele "ganhou muito
dinheiro jogando pôquer" nos anos que precederam
o colapso da União Soviética. Já
o jornalista Serhiy Kuzin, autor do livro Donetsk Mafia,
afirma que o bilionário teria trabalhado como
capanga da organização mafiosa, a mando
da qual executara várias pessoas. Akhmetov só
se desloca acompanhado de pelo menos cinco seguranças,
em um comboio de três Mercedes-Benz S550 pretos
e blindados. Quando seu time vence, costuma dar prodigiosas
demonstrações de generosidade distribui
até 200 000 dólares para cada jogador.
Dono de um
conglomerado de setenta empresas dos ramos de metalurgia,
extração mineral e telecomunicações,
ele mora em uma casa que ocupa praticamente três
quarteirões, quase na divisa de Donetsk com Makeevka.
Só na cozinha da mansão trabalham onze
empregados, sem contar os treze garçons que se
revezam para servir o empresário e sua família
a mulher e os dois filhos raramente são
vistos em público. Vaidoso, Akhmetov tem personal
stylist e maquiador.
Até
o fim deste ano, ele deverá concluir mais um
grande investimento: vai inaugurar um portentoso estádio
em Donetsk, o Donbass Arena, orçado em 450 milhões
de dólares (apenas 50 milhões de dólares
mais barato que o Ninho de Pássaro, o célebre
estádio que a China construiu para sediar a Olimpíada
do ano passado). Não se trata do único
investimento previsto para 2009: rumores na cidade dão
conta de que a contratação de mais um
brasileiro, o atacante Ciro Ferreira e Silva, do Sport
Recife, é só uma questão de tempo.