Brasil
Uma
luz sobre os
porões do grampo
CPI
poupa alguns dos principais personagens do esquema
de bisbilhotagem que agiam
na clandestinidade, mas
consegue desmontar os pilares do estado policial

Expedito
Filho
Roberto Stuckert/Ag. O Globo
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RAIO X
O presidente da CPI, deputado Marcelo Itagiba, que pediu o indiciamento de todos
os envolvidos: "Foi uma contribuição histórica ao país" |
É
um erro avaliar o resultado da CPI dos Grampos apenas pela lista de indiciamentos
que consta do relatório final da deputada petista Iriny Lopes, aprovado
na semana passada. A comissão pescou um peixe grande, o ex-banqueiro Daniel
Dantas, deixou escapar um cardume de tubarões, mas, no geral, seus resultados
foram além das expectativas. Deve-se à ação dos deputados
o desmantelamento de um complexo aparelho clandestino de espionagem criado dentro
do estado para bisbilhotar a vida de ministros, magistrados, advogados e jornalistas
em síntese, o embrião de um estado policial que contava com
o aval da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o apoio de membros
da Polícia Federal e a simpatia e conivência de alguns juízes
e procuradores da República. A simples exposição pública
dessa máquina ilegal que afrontava os princípios elementares da
democracia já foi um trabalho de grande relevância produzido pelo
Congresso.
"A comissão deu
uma contribuição histórica ao país ao revelar as ilegalidades
que estavam sendo cometidas à sombra do estado", explica o presidente
da CPI, deputado Marcelo Itagiba. Embora o relatório final não tenha
solicitado o indiciamento de personagens marcantes do mundo da espionagem, como
o ex-diretor da Abin Paulo Lacerda e o delegado Protógenes Queiroz, ações
ilegais do grupo foram esmiuçadas no decorrer das investigações.
Após a revelação de que o presidente do Supremo Tribunal
Federal, Gilmar Mendes, foi alvo de grampos telefônicos clandestinos, a
estrutura estatal que sustentava a arapongagem ilegal desabou. Paulo Lacerda foi
demitido e Protógenes Queiroz, indiciado. Daniel Dantas, um especialista
privado em espionagem, está sob investigação federal. O resultado
final da CPI poderia ser melhor, mas o que se conseguiu só pode ser visto
como um avanço.