Imagem da Semana
A metáfora do mal
Angela Merkel visita
antiga prisão política e atiça a mais
maldita herança do estado policial: ela foi ou não
foi?

Vilma Gryzinski
Fabrizio Bensch/AP
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Acertar o passo com a
história não é fácil para uma
alemã que viveu e prosperou sob o extinto regime comunista
e se transformou numa líder política de direita,
exposta aos ataques de praxe que esta posição
enseja. Quer dizer, menos para Angela Merkel, a primeira-ministra
ou, como dizem os alemães, chanceler. Merkel visitou
na semana passada a maior prisão da polícia
política comunista, a infame Stasi, hoje transformada
em memorial. Na foto, ela entra na cela que os presos chamavam
de "submarino", um corredor angustiante e metaforicamente
reminiscente dos maus tempos. A visita despertou a dúvida
eterna que acompanha dirigentes políticos da antiga
esfera soviética: ela foi ou não colaboradora
do regime comunista? A suspeita pode ser levantada por motivos
sórdidos ou ter embasamento na realidade tortuosa das
sociedades da delação criadas pelo estado policial.
E nenhum estado foi mais policial do que o erigido pela Stasi,
com sua germânica eficiência para intimidar e
chantagear informantes. Nascida Angela Kasner, filha de um
pastor luterano, ela seguiu uma carreira só possível
com a anuência do regime: foi da juventude socialista,
aprendeu russo e estudou física (especializou-se em
química quântica; quem não lembra assim,
de cabeça, o que é a equação de
Schrödinger, melhor nem tentar entender). O fato de que
uma mulher assim tenha emergido, na era pós-Muro, como
líder do Partido Democrata Cristão (conservador,
católico, masculino e, claro, baseado no que era a
Alemanha Ocidental) poderia ser considerado um milagre. Mas
vangloriar-se de prodígios não faz o gênero
da austera Merkel. Melhor deixar o passo final para a história.