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13 de fevereiro de 2008
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Genética
Um embrião e três pais

Pesquisadores ingleses conseguem criar em laboratório
embriões com o DNA de um homem e duas mulheres


Adriana Dias Lopes


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Quadro: O processo em laboratório
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Mais sobre genética na coluna de Mayana Zatz

Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, anunciou a conclusão de uma das mais fascinantes experiências genéticas já realizadas até hoje: a criação de um embrião humano com o DNA de um homem e duas mulheres. É o primeiro passo rumo ao controle de doenças genéticas transmitidas por herança materna, como alguns tipos de epilepsia, cegueira, surdez, demência e distrofia muscular. Uma de cada 6 000 crianças nasce com tais anomalias – o que significa 500 novos casos por ano no Brasil. Metade delas morre antes de completar 2 anos. O experimento inglês não representa uma esperança apenas para as mulheres portadoras desses genes defeituosos. É também um grande feito para o avanço dos estudos com células-tronco embrionárias. Retiradas em boa parte de embriões, no estágio em que eles não passam de um amontoado de células indiferenciadas entre si, as células-tronco têm a capacidade de se transformar em qualquer um dos 220 tipos de célula do organismo. Há dois entraves a esse ramo de pesquisa. O primeiro é de ordem ético-religiosa, visto que muitos consideram que os embriões são seres humanos. O outro obstáculo pertence à esfera técnica. "É muito difícil manusear estruturas tão pequenas como os genes de uma célula, sem danificá-la", diz a geneticista Mayana Zatz, pesquisadora da Universidade de São Paulo. "O sucesso da pesquisa realizada em Newcastle vem contribuir para o domínio de um método seguro de manipulação genética."

North News Pictures
Chinnery: um primeiro passo para evitar doenças genéticas


Uma célula é composta de dois tipos de DNA – o nuclear e o mitocondrial. Resultado da combinação dos genes do pai e da mãe, o DNA nuclear é o responsável por todas as nossas características físicas e está associado a uma série de aspectos da personalidade. O DNA mitocondrial, por sua vez, controla a produção de energia das células, sem a qual elas não funcionam. O DNA mitocondrial do pai e o da mãe nunca se misturam durante a fecundação. No momento em que o espermatozóide entra no óvulo, deixa do lado de fora esse material. Por isso, o DNA mitocondrial é sempre herdado da mãe. Até hoje, foram catalogadas 17 000 doenças de origem genética. Destas, 63 estão associadas a defeitos no DNA mitocondrial. Foi sobre esse tipo de material genético que os pesquisadores ingleses se debruçaram. "A maioria dos genes que fazem de nós o que somos está no DNA nuclear, e nós nem chegamos perto de modificá-lo. Não há risco, portanto, de criações genéticas perigosas", diz o neurogeneticista Patrick Chinnery, um dos coordenadores dos estudos em Newcastle.

Os pesquisadores ingleses trabalharam com dez óvulos, descartados por clínicas de fertilização. Todos eles apresentavam ano-malias no DNA mitocondrial. A primeira etapa da experiência consistiu na fertilização in vitro desses óvulos – o que gerou embriões com defeitos nos genes mitocondriais. Poucas horas depois, a equipe de Chinnery transferiu o DNA nuclear desses embriões para óvulos doados por mulheres sem problemas no DNA mitocondrial (veja quadro). O resultado foi a criação de embriões livres de anomalias. Todos os embriões gerados nessa experiência foram descartados seis dias depois do início do processo – o prazo-limite para a conservação de um embrião em laboratório. "Por enquanto, é impossível imaginar como uma célula humana se comportaria por mais tempo com essa mistura genética", diz a geneticista Lygia da Veiga Pereira, da Universidade de São Paulo. Em experiências com animais, pesquisadores japoneses conseguiram ir além: ratos gerados a partir da mistura dos genes de um macho e duas fêmeas vingaram sem problemas.




 

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