Com Encantada,
a Disney encontra a chave para que seu império de fantasia continue
a prosperar: uma princesa moderna, capaz de seduzir as meninas de hoje
com algumas idéias novas e outras nem tanto
Isabela
Boscov
Fotos
divulgação
A
doce Giselle no seu mundo de fantasia (no detalhe) e como Amy Adams, fazendo
a corte com Dempsey: para toda menina, um príncipe
Em que pese o sucesso das inúmeras
criações que lançou no decorrer de seus
mais de oitenta anos, a Disney sabe que todo o seu imenso
império está assentado sobre os ombros de um
punhado de princesas Branca de Neve, Cinderela, a Ariel
de A Pequena Sereia, a Bela de A Bela e a Fera,
a Aurora de A Bela Adormecida. Os bonecos do astronauta
Buzz Lightyear ou as versões de pelúcia de Simba,
de O Rei Leão, eventualmente perdem o posto
de carros-chefes de vendas; já as princesas mantêm
quase intacto seu apelo junto às meninas, geração
após geração, em filmes, desenhos para
a TV e o DVD, atrações de parques temáticos
e nas centenas de produtos com sua imagem. Desde a Jasmine
de Aladdin, porém, o estúdio não
produzia uma nova herdeira para essa linhagem um problema
capaz de afetar vários anos fiscais em seqüência.
Eis então por que a excelente bilheteria de Encantada(Enchanted, Estados Unidos, 2007), que estréia
nesta sexta-feira no país, vem sendo comemorada com
foguetório no estúdio: ela indica que sua protagonista,
Giselle, foi aceita pelo público como mais uma das
cabeças coroadas da Disney.
Da mesma maneira que as novas princesas européias, contudo, as princesas
de ficção também já não são as mesmas.
Ou não deveriam ser. Nos primeiros onze minutos de Encantada, enquanto
Giselle ainda é um desenho animado, ela canta canções melosas,
chama os animais da floresta com trinados, sonha com um príncipe encantado
e, sem saber, caminha sob o olhar maligno da Rainha Narissa, que não quer
perder o trono para uma qualquer. Narissa (Susan Sarandon) é quem precipita
Giselle no mundo real o qual ela adentra por meio de um bueiro de Times
Square, e no qual vai viver experiências não muito dissimilares daquelas
do repórter cazaque Borat. Paramentada com seu vestido de noiva, rodopiando
em vez de andar e com seu linguajar antiquado, Giselle (Amy Adams, cuja meiguice
espontânea ancora o filme) é naturalmente tida como louca. Resgatada
do alto de um luminoso (ela acha que é a porta de seu castelo) por um advogado
e sua filha pequena, ela vira a vida dos dois de ponta-cabeça: corta as
cortinas para fazer vestidos, cria apertos com a noiva de seu salvador, irrita
todo mundo com a insistência em que seu príncipe (James Marsden)
virá salvá-la e, numa seqüência feita para ser antológica,
arruma o apartamento com a ajuda dos pequenos animais da selva nova-iorquina
ratos, pombos e baratas, os únicos que respondem aos seus gorjeios em Manhattan.
Encantada
é um filme integralmente calculado (mas poucas coisas não o são,
nesse universo). Oferece figurinos que agradam desde as sonhadoras até
as pequenas fashionistas (Giselle, é claro, vai descobrir que melhor que
ter uma varinha de condão é sair por aí com um cartão
de crédito). Contempla as mães que acompanham as filhas ao cinema
com a presença de Patrick Dempsey, o doutor "McDreamy" de Greys
Anatomy, no papel do protetor de Giselle. Acima de tudo, parodia os desenhos
clássicos da própria Disney para assegurar às garotas céticas
de hoje que não irá desrespeitar sua inteligência com idéias
ultrapassadas. E, no momento em que elas estão com a guarda baixa, trata
de seduzi-las justamente com o mais duradouro dos romantismos: a idéia
de que para toda menina existe um príncipe encantado. Nem que ele seja
um pai solteiro desiludido, que vive de arranjar divórcios para casais
que descobriram que não existe um felizes-para-sempre.