Há quase trinta anos sem
lançar uma de suas alopradas coletâneas de contos,
o cineasta Woody Allen volta à carga agora com Fora
de Órbita, que chega às livrarias brasileiras
na próxima semana pela Editora Agir. Em dezoito textos
do mais consumado nonsense, o autor satiriza tópicos
tão diversos quanto a meditação transcendental,
a tecnologia têxtil e os hábitos gastronômicos
de alemães famosos. Allen falou à editora Isabela
Boscov de seu escritório, em Nova York, sobre humor,
ambição e os talentos de sua atual musa (estritamente
no plano artístico), a atriz Scarlett Johansson.
Os
contos de Fora de Órbita são exemplos esmerados do humor
nonsense. Por que essa é uma forma de arte em extinção?
A literatura em geral não anda muito bem das pernas. As pessoas têm
acesso à comédia o dia inteiro, na televisão e no cinema,
e, de forma geral, não dão o mesmo valor à palavra escrita
que dávamos há, sei lá, duas gerações. Imagino
que essa seja a evolução natural das coisas. É provável
que, quando a imprensa "pegou", séculos atrás, um monte
de gente mais velha tenha posto as mãos na cabeça e lamentado que
as crianças já não se interessassem pela tradição
oral. Para mim, então, parece ruim que as pessoas já não
gostem tanto de livros, mas quem pode ter certeza? Tento ensinar meus filhos a
ter prazer na leitura, mas parece que hoje em dia essa é sempre uma questão
de esforço.
O drama Match
Point, que o senhor lançou em 2005, foi unanimemente elogiado. Seu
filme seguinte, a comédia Scoop, agradou bem menos. O humor é subestimado?
Com certeza. Mas a verdade também é que Match Point era um
filme melhor e mais ambicioso. Scoop era só divertido, e não
merecia o mesmo tipo de aclamação.
De
vez em quando, um artista não precisa fazer um mero divertimento, para
recarregar a bateria? Sem dúvida. Ocasionalmente, adoro fazer coisas
triviais, pela simples razão de que elas me dão prazer. O que não
quer dizer que toda comédia seja simples entretenimento. Algumas das minhas,
como Desconstruindo Harry, almejavam falar de coisas sérias.
Seu
próximo filme, Cassandras Dream, é de novo um drama.
E bem pesado, sobre dois irmãos que se tornam inimigos mortais.
De início, escrevi a história como uma peça de um ato, mas
achei que ela era boa demais para desperdiçá-la assim.
O senhor também acabou de filmar mais uma
comédia, Vicky Cristina Barcelona seu terceiro filme com Scarlett
Johansson. Pelo jeito, vocês dois têm uma química especial.
Conheci Scarlett por acaso: Kate Winslet é quem faria o papel dela em Match
Point, mas desistiu no último minuto, e tive de substituí-la
às pressas. Achei Scarlett uma mulher interessantíssima, ao mesmo
tempo muito bonita, charmosa e espirituosa, além de uma atriz extremamente
versátil. Ela me divertiu tanto durante as filmagens que decidi fazer uma
comédia com ela. Bem, já estou na segunda.
Match
Point, Scoop e Cassandras Dream foram filmados na Inglaterra, e Vicky Cristina,
na Espanha. É coincidência que o senhor tenha deixado de filmar em
Nova York, ou a cidade já não é a mesma desde o 11 de Setembro?
Nova York está igualzinha. Se você não soubesse dos atentados
e chegasse à cidade hoje, jamais imaginaria que ela passou pelo que passou.
As pessoas continuam indo às compras, ao teatro e ao jogo de beisebol,
e sendo como sempre foram. Tenho trabalhado na Europa porque é de lá
que tem vindo o dinheiro para meus filmes. E também porque acordar numa
cidade estrangeira, inspecionar locações que você não
conhece e colaborar com uma equipe cheia de caras novas tudo isso é
muito estimulante.