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12 de dezembro de 2007
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O nonsense que faz sentido

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Há quase trinta anos sem lançar uma de suas alopradas coletâneas de contos, o cineasta Woody Allen volta à carga agora com Fora de Órbita, que chega às livrarias brasileiras na próxima semana pela Editora Agir. Em dezoito textos do mais consumado nonsense, o autor satiriza tópicos tão diversos quanto a meditação transcendental, a tecnologia têxtil e os hábitos gastronômicos de alemães famosos. Allen falou à editora Isabela Boscov de seu escritório, em Nova York, sobre humor, ambição e os talentos de sua atual musa (estritamente no plano artístico), a atriz Scarlett Johansson.

Os contos de Fora de Órbita são exemplos esmerados do humor nonsense. Por que essa é uma forma de arte em extinção?
A literatura em geral não anda muito bem das pernas. As pessoas têm acesso à comédia o dia inteiro, na televisão e no cinema, e, de forma geral, não dão o mesmo valor à palavra escrita que dávamos há, sei lá, duas gerações. Imagino que essa seja a evolução natural das coisas. É provável que, quando a imprensa "pegou", séculos atrás, um monte de gente mais velha tenha posto as mãos na cabeça e lamentado que as crianças já não se interessassem pela tradição oral. Para mim, então, parece ruim que as pessoas já não gostem tanto de livros, mas quem pode ter certeza? Tento ensinar meus filhos a ter prazer na leitura, mas parece que hoje em dia essa é sempre uma questão de esforço.

O drama Match Point, que o senhor lançou em 2005, foi unanimemente elogiado. Seu filme seguinte, a comédia Scoop, agradou bem menos. O humor é subestimado?
Com certeza. Mas a verdade também é que Match Point era um filme melhor e mais ambicioso. Scoop era só divertido, e não merecia o mesmo tipo de aclamação.

De vez em quando, um artista não precisa fazer um mero divertimento, para recarregar a bateria?
Sem dúvida. Ocasionalmente, adoro fazer coisas triviais, pela simples razão de que elas me dão prazer. O que não quer dizer que toda comédia seja simples entretenimento. Algumas das minhas, como Desconstruindo Harry, almejavam falar de coisas sérias.

Seu próximo filme, Cassandra’s Dream, é de novo um drama.
E bem pesado, sobre dois irmãos que se tornam inimigos mortais. De início, escrevi a história como uma peça de um ato, mas achei que ela era boa demais para desperdiçá-la assim.

O senhor também acabou de filmar mais uma comédia, Vicky Cristina Barcelona – seu terceiro filme com Scarlett Johansson. Pelo jeito, vocês dois têm uma química especial.
Conheci Scarlett por acaso: Kate Winslet é quem faria o papel dela em Match Point, mas desistiu no último minuto, e tive de substituí-la às pressas. Achei Scarlett uma mulher interessantíssima, ao mesmo tempo muito bonita, charmosa e espirituosa, além de uma atriz extremamente versátil. Ela me divertiu tanto durante as filmagens que decidi fazer uma comédia com ela. Bem, já estou na segunda.

Match Point, Scoop e Cassandra’s Dream foram filmados na Inglaterra, e Vicky Cristina, na Espanha. É coincidência que o senhor tenha deixado de filmar em Nova York, ou a cidade já não é a mesma desde o 11 de Setembro?
Nova York está igualzinha. Se você não soubesse dos atentados e chegasse à cidade hoje, jamais imaginaria que ela passou pelo que passou. As pessoas continuam indo às compras, ao teatro e ao jogo de beisebol, e sendo como sempre foram. Tenho trabalhado na Europa porque é de lá que tem vindo o dinheiro para meus filmes. E também porque acordar numa cidade estrangeira, inspecionar locações que você não conhece e colaborar com uma equipe cheia de caras novas – tudo isso é muito estimulante.




 

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