Entre diamantes, rubis e esmeraldas,
museu de Londres celebra o fascínio universal das pedras preciosas
Do
ponto de vista gemológico, a humanidade se divide em três partes.
Há os que não entendem o valor, efetivo e emocional, atribuído
às pedras preciosas a raridade, a beleza e o prestígio social
que conferem não lhes bastam como motivos para o fascínio exercido
por pedaços de carbono ou de cristal. E existe toda a imensa maioria, que
dispensa explicações e se deslumbra diante de qualquer coisinha
brilhante. É para estes que se destina a nova galeria do Museu de História
Natural de Londres. Cercados de medidas extraordinárias de segurança
na galeria chamada The Vault (A Caixa-Forte), cintilam pedras e metais preciosos
do mundo inteiro, lapidados ou no estado em que foram encontrados nas entranhas
da terra. São diamantes de todas as cores, esmeraldas, safiras, rubis,
pepitas de ouro e até uma lasca de Marte que, na forma de meteorito, despencou
no Egito em 1911. "As peças foram selecionadas por sua beleza, raridade
e história", diz Alan Hart, curador do museu criado em grande parte
com doações da terceira, minúscula mas importantíssima,
das parcelas mencionadas no início: a dos que não só se encantam
como fazem qualquer loucura para conseguir pedras excepcionais.
As
preciosidades gemológicas brasileiras estão representadas por topázios
brutos e lapidados, incluindo um da deslumbrante variedade chamada imperial
um amarelo cor de fogo de quase 3.000 quilates, a maior pedra da exposição,
e uma fantástica turmalina em dois tons de azul. Não é do
Brasil, mas tem conexões históricas com o país, a esmeralda
em estado bruto, uma das maiores do mundo, extraída das minas de Muzo,
na Colômbia, que foi oferecida de presente ao duque de Devonshire por dom
Pedro I em 1831, quando já havia voltado para Portugal. Também chamam
atenção os berilos (entre os quais uma água-marinha lapidada
de quase 900 quilates), as opalas, as safiras e as ametistas. Destas, a que tem
história mais bizarra é a chamada Heron-Allen, doada ao museu por
seu último e atormentado dono com a recomendação de ser tratada
com muita cautela, por ser "triplamente amaldiçoada" a
imaginária maldição que acompanha algumas pedras é
um dos mitos mais recorrentes do gênero.
Também é imemorialmente associada às pedras preciosas a idéia
de que têm virtudes místicas ou espirituais Platão
achava que eram produzidas por uma espécie de ação inteligente
provinda das estrelas. A metáfora de pureza e espiritualidade é
presente sobretudo entre os diamantes, a pedra preciosa com o maior grau de dureza.
No museu de Londres, há diamantes notáveis, como o Estrela da África
do Sul, e as extraordinárias pedras da Coleção Aurora. São
296 diamantes raríssimos, em doze variedades de cores (dos cerca de 80.000
quilates de diamantes brutos extraídos por ano, só 0,01%, ou um
a cada 10.000, é colorido). "Pedras como essas não podem ficar
aprisionadas em um cofre escuro, sendo apreciadas só raramente, e por poucos",
diz Alan Bronstein, um dos dois donos da coleção, que foi emprestada
ao museu. Bronstein e Harry Rodman, ambos comerciantes de diamantes, passaram
25 anos buscando pedras para sua coleção. O primeiro descreve como
nada menos do que uma epifania o momento em que viu um deslumbrante diamante amarelo
e descobriu que não conseguiria mais parar.
"Todo
dia acordávamos pensando: qual nova cor vamos achar hoje?", conta
Bronstein, que compara a emoção de encontrar uma espécie
rara à de "chegar ao topo do Everest". Bronstein e Rodman são
a comprovação do fascínio das pedras e dos metais preciosos,
elementos que não curam, não alimentam, não constroem e,
fora algumas exceções de uso industrial, não têm nenhuma
utilidade concreta. Já os usos simbólicos são múltiplos.
Um deles foi descrito em 1514 pelo rei Luís XII ao emissário inglês
com quem discutia sua proposta de casamento a Mary Tudor, irmã de Henrique
VIII. Viúvo de 52 anos, o rei mostrou dois cofres, um contendo 56 rubis
e diamantes raros e outro repleto de colares, braceletes e outras jóias.
"Tudo isso é para minha esposa", disse. "Mas ela não
vai levar tudo de uma vez, pois eu deverei ganhar muitos beijos e agradecimentos
em troca." O real tiozão casou-se com a linda princesa de 18 anos
(mas as pedras preciosas não ajudaram: morreu menos de três meses
depois).