O início das transmissões
da TV digital em São Paulo prometia um espetáculo. Para
muita gente, foi um fiasco
Rafael
Corrêa e Roberta de Abreu Lima
Alguns
viram isso
e
outros viram isso
mas
ainda vai funcionar
A estréia
oficial das transmissões da televisão digital brasileira começou
por São Paulo na semana passada e foi frustrante. O presidente Lula usou
uma rede nacional de emissoras para anunciar, como não poderia deixar de
ser, "a melhor televisão digital do mundo". Ela começaria
exatamente às 8 e meia da noite de domingo, dia 2 de dezembro. Fez-se,
então, uma contagem regressiva: cinco, quatro, três, dois, um e..........!
Nada... Os milhões de telespectadores de São Paulo que sintonizavam
a cerimônia foram entregues à programação normal das
redes sem que se processasse nenhuma mudança transcendental na imagem.
Nada parecido com o que se viu em 1972 com a entrada da TV em cores. Um dia a
imagem era formada por cinza e preto. No outro, as cenas eram mostradas com suas
cores naturais nos televisores preparados para isso. Por que a frustração
com a TV digital de alta definição até agora?
As
razões são óbvias, mas ficaram soterradas sob toneladas de
ufanismo da propaganda oficial. As transmissões de alta definição
realmente começaram como o previsto. A programação foi a
mesma que trafegou pelo cabo e pela freqüência analógica tradicional,
a VHF. As imagens de alta definição passaram a ser transmitidas,
em freqüência UHF, exatamente no modo e na hora prometidos. Mas quem
assistiu à TV digital em São Paulo? Pouquíssima gente. Apenas
alguns vanguardeiros, que haviam comprado conversores, a antena correta e moram
em bairros com "cobertura de UHF." Quem não preencheu todas as
condições acima viu apenas mensagens como "Sem sinal"
ou "Sinal fraco". Na melhor das hipóteses, viu imagens instáveis,
como se sintonizasse uma emissora do planeta Marte.
O
paulistano Marcio Leite foi um dos que compraram o conversor e ficaram a ver navios.
"O aparelho veio com uma antena interna, que não funcionou",
ele relata. "Fiquei andando pelo apartamento, segurando a anteninha em várias
posições, mas o sinal não pegava de jeito nenhum." Às
vezes, o sinal até pega, mas a imagem não fica boa. Marcelo Zuffo,
coordenador do laboratório de sistemas integráveis da Universidade
de São Paulo, informa que o problema está na transmissão.
"Falhas na imagem ocorrem quando o sinal é enviado com potência
baixa", ele diz. Algumas emissoras, como a Bandeirantes, explicam que seu
sinal ainda está em fase de ajustes. Isso significa que, durante um tempo,
não há garantia de que todos os canais que transmitem em sistema
digital sejam captados pelos vanguardeiros tecnológicos.
Fabiano
Accorsi
Leite:
"Fiquei andando com a antena pela sala, tentando captar o sinal. Não
deu certo"
A antena UHF
é essencial para captar a TV digital mas como escolher a antena
adequada? Depende. Em muitos bairros paulistanos, a antena interna não
é suficiente para captar o sinal digital. Segundo levantamento da Universidade
Mackenzie, 52% dos domicílios que recebem o sinal analógico convencional
da TV aberta em São Paulo utilizam uma antena externa, instalada no telhado
das casas ou no topo dos prédios. O problema é que a maior parte
dessas antenas foi projetada para captar apenas a freqüência VHF, que
carrega o sinal analógico. Trocar a antena coletiva de um edifício
para receber o sinal em UHF é uma solução que parece simples.
Parece. Se o prédio for antigo e tiver abandonado a manutenção
da antena porque os condôminos aderiram todos à TV a cabo, será
necessário substituir os amplificadores, as caixas distribuidoras e todo
o sistema de cabos para direcionar o novo sinal. Ainda assim, a TV pode não
funcionar. Isso porque alguns pontos da cidade, localizados em regiões
baixas e cercadas de prédios ou morros, fazem parte das chamadas "zonas
de sombra", onde os sinais de UHF não pegam.
Como
saber se a casa está em uma dessas zonas mortas? Só testando. Um
bom indicador é que, em muitas dessas zonas, nem o sinal VHF das transmissões
convencionais consegue chegar. Os assinantes de TV a cabo em breve receberão
das operadoras a opção de alta definição por um custo
de adesão em torno de 800 reais. Por esse preço, os canais a cabo
cuidarão de todos os detalhes técnicos. No entanto, levará
algum tempo até que a captação do sinal aberto gratuito de
alta definição seja dominada pelos milhões de brasileiros
não assinantes do cabo. São Paulo está sendo um laboratório
dessa experiência. Ela deve ser menos penosa quando começar a se
espalhar pelo resto do país, a partir de janeiro.