Não
importa mais qual é o conteúdo dos relatórios
das agências de inteligência americanas. Depois
de trapalhadas sucessivas, como a que justificou a invasão
do Iraque aventando a existência de armas de destruição
em massa que nunca foram encontradas, qualquer que seja a
conclusão dos seus espiões, o resultado é
sempre recebido com certa desconfiança. Na segunda-feira
passada, foi divulgado um relatório preparado com dados
recolhidos pelas dezesseis agências de inteligência
dos Estados Unidos cuja conclusão é que o programa
iraniano de armas nucleares foi interrompido em 2003. A afirmação
contraria outra, do mesmo serviço secreto, publicada
há dois anos, segundo a qual o projeto secreto dos
aiatolás estaria em plena atividade. O texto produziu
dois efeitos imediatos e antagônicos. Em primeiro lugar,
minou o discurso do presidente George W. Bush, que em outubro
incluiu até a possibilidade de uma terceira guerra
mundial, diminuindo consideravelmente o risco de um ataque
preventivo ao Irã. Ao mesmo tempo, o relatório
retirou argumentos dos países que negociavam um reforço
nas sanções econômicas ao país
dos aiatolás, as quais vinham obtendo algum sucesso.
Jim
Watson/AFP
George W. Bush: surpreendido
pelos próprios espiões
O impacto causado pelo atestado de idoneidade dado gratuitamente
aos aiatolás foi sentido especialmente pela brigada
"bombardeie Teerã" no governo americano,
cuja figura mais notória é o vice-presidente
Dick Cheney. Bush, pego de surpresa com a informação
de seus próprios espiões, sustentou, atordoado,
que o Irã "era perigoso, é perigoso e continuará
sendo", no que foi apoiado pelo presidente francês
Nicolas Sarkozy e pela chanceler alemã, Angela Merkel.
Ambos negociam a instalação de um escudo antimísseis
para proteger a Europa de ataques vindos exatamente do Oriente
Médio. Na falta de ter o que dizer, os candidatos à
sucessão de Bush passaram a evitar o assunto. Em Teerã,
o relatório foi festejado como uma "vitória"
pelo presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. A questão,
evidentemente, é em quem acreditar. O Irã tem
uma estrutura de governo impenetrável, e ninguém
sabe com certeza que maquinações esconde. Para
os israelenses, baseados em seu próprio serviço
de inteligência, o Irã já retomou seu
programa bélico e, cedo ou tarde, terá a bomba.
"A idéia de exportar a revolução
islâmica para o mundo é ideológica. Dificilmente
será abortada com argumentos racionais", disse
a VEJA o vice-ministro de Relações Exteriores
de Israel, Majallie Whbee, que esteve no Brasil na última
semana. "Quando conseguirem o que pretendem, quero estar
longe do Oriente Médio."