Hugo Chávez
é um político movido pelo instinto da concentração
de poder. Quando a derrota no plebiscito do domingo 2 se revelou
irreversível, seu primeiro impulso foi o de tentar
esconder a verdade enquanto se pensava em uma saída
golpista. Já sabendo da derrota, chavistas correram
a divulgar falsas pesquisas de boca-de-urna dando a vitória
à reforma constitucional talvez esperando
que a oposição sentisse o cheiro de fraude no
ar e levantasse a voz, pedindo a anulação do
pleito. No início da noite, com a convocação
da cúpula das Forças Armadas veio a tentativa
de mostrar força bruta. Chávez não contava
com a astúcia do povo e da oposição venezuelana,
que não caíram na provocação.
O plebiscito foi sobre se o país preferia ser uma democracia
ou adotaria uma nova Constituição de caráter
totalitário. Se aprovada, teria dado a Chávez
o poder ditatorial e vitalício. Perguntar a um povo
se deseja ceder seus poderes constitucionais ao governante
é um absurdo conceitual. As consultas plebiscitárias
são legítimas quando arbitram conflitos dentro
da própria sociedade nunca para transferir poderes
fundamentais do povo para os governantes. Os venezuelanos
votaram claramente contra o projeto chavista de instalar uma
versão diluída do regime cubano. Isso é
um assunto resolvido. Chávez poderá tentar empurrar
a revolução garganta abaixo dos venezuelanos
mas fazer isso ficou agora mais complicado.
Juan
Barreto/AP
Caudilho acuado: ameaças
de retaliação
O caudilho finge
que nada disso importa. Apesar de ter aceitado formalmente
o resultado das urnas, em várias ocasiões, na
semana passada, ele deixou claro a intenção
de iniciar "nova ofensiva rumo à reforma".
Se ele continua fanfarrão é, em parte, porque
seu governo não está ameaçado no curto
prazo. Chávez controla o Supremo Tribunal, o Congresso
Nacional, grande parte dos meios de comunicação
e, acima de tudo, os lucros da venda de petróleo. Mas
a vitória oposicionista mudou bastante o panorama.
Para começar, há uma nova e revitalizada oposição.
Em lugar dos desmoralizados partidos tradicionais, ela é
conduzida por novos protagonistas, como o movimento estudantil
e o ex-ministro da Defesa Raúl Isaías Baduel.
Esse general, o mesmo que garantiu a manutenção
de Chávez no poder durante a tentativa de golpe em
2002, aderiu à campanha do "não" no
mês passado para impedir a legitimação
pelas urnas de uma tirania. Há nove anos no poder e
com mandato até 2013, Chávez acumulava cinco
vitórias eleitorais seguidas. Muita gente acreditava
que fosse imbatível, pelo menos enquanto durasse o
período de vacas gordas petrolíferas. Os clones
de Chávez na Bolívia, no Equador e na Nicarágua
devem estar agora com os nervos em frangalhos.
Chapolin Colorado: este Chávez
sabe que não se pode enganar todo mundo
Na quarta-feira
passada, Chávez precisou convocar seu ministro da Defesa
para desmentir a versão de que naquela reunião
na noite do plebiscito ele tentou e não conseguiu
o apoio militar para um golpe branco. A maioria dos
venezuelanos entendeu o desmentido da seguinte maneira: Chávez
não conta com o respaldo incondicional do pessoal fardado.
Primordial para que os militares ficassem do lado da legalidade
teria sido a influência do general Baduel, agora na
oposição. "Foi Baduel quem nos deu a informação,
no domingo à noite, por telefone, de que Chávez
havia se reunido com os militares e quem nos incentivou a
continuar pressionando a comissão eleitoral a divulgar
a contagem de votos", diz o líder universitário
Freddy Guevara, um dos jovens responsáveis por transformar
o movimento estudantil no principal protagonista da vitória
do "não". Por modéstia ou cautela,
Baduel não confirma nem nega que tenha influenciado
indiretamente na decisão presidencial de aceitar o
resultado do referendo. "O que posso dizer é que
a Força Armada Nacional deu uma demonstração
ferrenha de seu apego à Constituição
e às leis", disse o general a VEJA.
O resultado das
urnas deu uma vitória de apenas 1,5 ponto porcentual
à oposição diferença
que Chávez qualificou de "pífia",
num muxoxo de mau humor. O ditador frustrado pode continuar
a falar de luta de classe, mas é perceptível
que foi abandonado pelo eleitor mais pobre, aquele que ele
adula com benesses clientelistas. A grande abstenção
44% do eleitorado foi elevada nos bairros pobres
e em cidadezinhas do interior, tradicionais redutos do coronel. Esse
eleitor está farto da incompetência administrativa
e dos arroubos ideológicos do governo bolivariano.
O preço do barril de petróleo atinge um recorde
histórico, mas o cidadão comum em Caracas precisa
entrar em fila para comprar 1 litro de leite. Chávez
deveria ter prestado maior atenção à
sabedoria de seu sósia, o desajeitado super-herói
mexicano Chapolin Colorado.