BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2038

12 de dezembro de 2007
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Claudio de Moura Castro
Millôr
André Petry
Diogo Mainardi
Gustavo Ioschpe
Reinaldo Azevedo
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
Auto-retrato
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

Gerações
Os isseis

Surpresas, saudade e muito trabalho marcaram
o cotidiano dos imigrantes que deixaram o Japão
no século passado para tentar a vida no Brasil


Naiara Magalhães

Paulo Vitale


VEJA TAMBÉM
Nesta reportagem
Os isseis
A história de Mitsue, a filha deixada no porto
Os nisseis
Os sanseis
Os yonseis
Da internet
Abril no Centenário da Imigração Japonesa

Ir para o Brasil, fazer dinheiro nas lavouras de café e retornar ao Japão o mais breve possível não era um sonho para muitas famílias japonesas no início do século XX: era a única saída. "Naquele tempo, o Japão era uma nação exaurida pela explosão populacional e pelos gastos provocados por guerras recentes, travadas contra a China e a Rússia", explica o advogado e estudioso da imigração japonesa Masato Ninomiya. Na cidade, o índice de desemprego era dramático. No campo, os lavradores que não tinham tido suas terras confiscadas por falta de pagamento de impostos mal conseguiam sustentar a família. Diante desse cenário, o governo japonês era o primeiro interessado em estimular a emigração. "No Brasil, existe uma árvore que dá ouro: o cafeeiro. É só colher com as mãos", diziam cartazes do período. Da parte do Brasil, o interesse pela vinda dos japoneses devia-se principalmente à interrupção, em 1902, do fluxo de imigrantes italianos, que deixou as fazendas cafeeiras precisando desesperadamente de braços. Foi essa equação que possibilitou que, em 1908, camponeses, carpinteiros, pequenos comerciantes e donos de fabriquetas à beira da falência se tornassem "soldados da fortuna", como escreveu o presidente da Companhia Imperial de Emigração, Ryu Mizuno, no diário de bordo do Kasato Maru – o primeiro navio de imigração japonês a aportar no Brasil, trazendo 165 famílias.

Antes de embarcarem, todos eram obrigados a passar por uma espécie de quarentena no Porto de Kobe (429 quilômetros a oeste de Tóquio), onde faziam exames médicos e tinham aulas básicas de português. Alguns aproveitavam para comprar mudas de roupas ocidentais nas lojas das proximidades. A hora da partida – embalada pela canção de despedida Hotaru no Hikari ("À luz dos vagalumes") e pelo Hino Nacional do Japão – era ainda mais triste quando um integrante da família era obrigado a ficar em terra, impedido de viajar por causa de alguma doença. "O tracoma, um tipo de conjuntivite, separou muitas famílias naquele tempo", conta o antropólogo Koichi Mori (veja reportagem). As viagens não ofereciam nenhum conforto, como relata o jornalista Jorge Okubaro, em seu livro O Súdito: "(...) crianças mais jovens viajavam no colo da mãe (...) Dormiam todos, homens e mulheres, adultos e crianças, sobre esteiras estendidas no chão do cargueiro, em condições promíscuas". Banho com água doce, só duas vezes por semana, conta o autor, "e cada pessoa só podia usar três baldes de água".

Em condições normais, a viagem demorava dois meses. Ao chegarem à Hospedaria de Imigrantes, em São Paulo, para onde eram levados depois do desembarque no Porto de Santos, os japoneses percebiam as primeiras mudanças: "Em vez do banho na banheira de madeira, com que estavam acostumados, eles viam o chuveiro pela primeira vez. No lugar do arroz, eram apresentados ao pão francês", relata a historiadora Célia Oi. Da Hospedaria de Imigrantes, os viajantes seguiam de trem para as fazendas de café no interior do estado. Lá chegando, o mato alto, o sol a pino, os pernilongos e as camas de palha dos alojamentos se encarregavam de dirimir qualquer dúvida que restasse quanto à dureza da realidade que estava por vir. A expectativa de acumular dinheiro rapidamente ia se desfazendo à medida que eles iam recebendo os primeiros pagamentos: descontadas as parcelas da dívida da viagem, mais os gastos com alimentos e remédios (sempre comprados na própria fazenda), não sobrava quase nada. "Os imigrantes se sentiam tratados como escravos. Muitos fugiram por causa disso", diz Célia Oi.

A vida só começou a melhorar depois que eles passaram a trabalhar na chamada "lavoura de parceria": em contrato com um proprietário de terras, os trabalhadores se comprometiam a desmatar o terreno, semear o café, cuidar da plantação e devolver a área dali a sete anos, quando a segunda colheita estaria no ponto. Em troca, ficavam com os lucros da primeira safra (a cultura do café é bianual) e de tudo o que plantassem além do café. Esse tipo de contrato foi o que permitiu que muitos japoneses comprassem suas primeiras terras. Embora a essa altura eles já estivessem aqui havia uma década – bastante tempo para quem planejava ficar por, no máximo, três anos –, o sonho de voltar ao Japão permanecia vivo e fazia com que a maior parte dos imigrantes educasse os filhos à maneira japonesa: dentro de casa, só se conversava na língua materna e, no contraturno da escola brasileira, as crianças freqüentavam os "nihon-gakus", escolas onde aprendiam a ler e a escrever em japonês. Ao contrário do planejado, no entanto, apenas 10% dos quase 190 000 japoneses que imigraram antes da II Guerra Mundial voltaram para a terra natal. O restante ficou para sempre no Brasil – e ajudou a construir a história da segunda geração de japoneses no país.

 

Quem são: imigrantes japoneses que chegaram ao Brasil entre 1908 e 1973

Quantos são: 12% da comunidade nipo-brasileira

Miscigenados*: 0%

Faixa etária: entre 35 e 100 anos ou mais

Profissões mais comuns: agricultores, comerciantes e prestadores de serviço (a maioria já aposentada)

* Têm pelo menos um ascendente não japonês

Fonte: "Pesquisa da população de descendentes de japoneses residentes no Brasil" (1988), Célia Oi, historiadora

 



1 Yoshiko Hanashiro (99 anos) – 2 Gen Oura (58 anos) – 3 Eiichi Hirota (86 anos) – 4 Hirofumi Ikesaki (76 anos) – 5 Jun Suzaki (58 anos) – 6 Kozo Kawabata (60 anos) – 7 Fujiko Kawabata (57 anos) – 8 Kazumi Kawamorita (43 anos) – 9 Tokie Nakamura (52 anos) – 10 Takashi Nakamura (57 anos) – 11 Osamu Matsuo (69 anos) – 12 Kihachiro Hase (59 anos) – 13 Yasuo Fukuda (73 anos) – 14 Tamie Kitahara (64 anos) – 15 Masayassu Gondo (79 anos) – 16 Mika Obara (54 anos) – 17 Koji Naruyama (53 anos) – 18 Mutsuko Morise (59 anos) – 19 Misako Shimizu (54 anos)



Publicidade

  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |