Ir para o Brasil, fazer dinheiro
nas lavouras de café e retornar ao Japão o mais breve possível
não era um sonho para muitas famílias japonesas no início
do século XX: era a única saída. "Naquele tempo, o Japão
era uma nação exaurida pela explosão populacional e pelos
gastos provocados por guerras recentes, travadas contra a China e a Rússia",
explica o advogado e estudioso da imigração japonesa Masato Ninomiya.
Na cidade, o índice de desemprego era dramático. No campo, os lavradores
que não tinham tido suas terras confiscadas por falta de pagamento de impostos
mal conseguiam sustentar a família. Diante desse cenário, o governo
japonês era o primeiro interessado em estimular a emigração.
"No Brasil, existe uma árvore que dá ouro: o cafeeiro. É
só colher com as mãos", diziam cartazes do período.
Da parte do Brasil, o interesse pela vinda dos japoneses devia-se principalmente
à interrupção, em 1902, do fluxo de imigrantes italianos,
que deixou as fazendas cafeeiras precisando desesperadamente de braços.
Foi essa equação que possibilitou que, em 1908, camponeses, carpinteiros,
pequenos comerciantes e donos de fabriquetas à beira da falência
se tornassem "soldados da fortuna", como escreveu o presidente da Companhia
Imperial de Emigração, Ryu Mizuno, no diário de bordo do
Kasato Maru o primeiro navio de imigração japonês
a aportar no Brasil, trazendo 165 famílias.
Antes de embarcarem, todos eram obrigados a passar por uma espécie de quarentena
no Porto de Kobe (429 quilômetros a oeste de Tóquio), onde faziam
exames médicos e tinham aulas básicas de português. Alguns
aproveitavam para comprar mudas de roupas ocidentais nas lojas das proximidades.
A hora da partida embalada pela canção de despedida Hotaru
no Hikari ("À luz dos vagalumes") e pelo Hino Nacional do
Japão era ainda mais triste quando um integrante da família
era obrigado a ficar em terra, impedido de viajar por causa de alguma doença.
"O tracoma, um tipo de conjuntivite, separou muitas famílias naquele
tempo", conta o antropólogo Koichi Mori (veja
reportagem). As viagens não ofereciam nenhum conforto, como
relata o jornalista Jorge Okubaro, em seu livro O Súdito: "(...)
crianças mais jovens viajavam no colo da mãe (...) Dormiam todos,
homens e mulheres, adultos e crianças, sobre esteiras estendidas no chão
do cargueiro, em condições promíscuas". Banho com água
doce, só duas vezes por semana, conta o autor, "e cada pessoa só
podia usar três baldes de água".
Em
condições normais, a viagem demorava dois meses. Ao chegarem à
Hospedaria de Imigrantes, em São Paulo, para onde eram levados depois do
desembarque no Porto de Santos, os japoneses percebiam as primeiras mudanças:
"Em vez do banho na banheira de madeira, com que estavam acostumados, eles
viam o chuveiro pela primeira vez. No lugar do arroz, eram apresentados ao pão
francês", relata a historiadora Célia Oi. Da Hospedaria de Imigrantes,
os viajantes seguiam de trem para as fazendas de café no interior do estado.
Lá chegando, o mato alto, o sol a pino, os pernilongos e as camas de palha
dos alojamentos se encarregavam de dirimir qualquer dúvida que restasse
quanto à dureza da realidade que estava por vir. A expectativa de acumular
dinheiro rapidamente ia se desfazendo à medida que eles iam recebendo os
primeiros pagamentos: descontadas as parcelas da dívida da viagem, mais
os gastos com alimentos e remédios (sempre comprados na própria
fazenda), não sobrava quase nada. "Os imigrantes se sentiam tratados
como escravos. Muitos fugiram por causa disso", diz Célia Oi.
A vida só começou a melhorar depois
que eles passaram a trabalhar na chamada "lavoura de parceria": em contrato
com um proprietário de terras, os trabalhadores se comprometiam a desmatar
o terreno, semear o café, cuidar da plantação e devolver
a área dali a sete anos, quando a segunda colheita estaria no ponto. Em
troca, ficavam com os lucros da primeira safra (a cultura do café é
bianual) e de tudo o que plantassem além do café. Esse tipo de contrato
foi o que permitiu que muitos japoneses comprassem suas primeiras terras. Embora
a essa altura eles já estivessem aqui havia uma década bastante
tempo para quem planejava ficar por, no máximo, três anos ,
o sonho de voltar ao Japão permanecia vivo e fazia com que a maior parte
dos imigrantes educasse os filhos à maneira japonesa: dentro de casa, só
se conversava na língua materna e, no contraturno da escola brasileira,
as crianças freqüentavam os "nihon-gakus", escolas onde
aprendiam a ler e a escrever em japonês. Ao contrário do planejado,
no entanto, apenas 10% dos quase 190 000 japoneses que imigraram antes da II Guerra
Mundial voltaram para a terra natal. O restante ficou para sempre no Brasil
e ajudou a construir a história da segunda geração de japoneses
no país.
Quem
são: imigrantes japoneses que chegaram
ao Brasil entre 1908 e 1973
Quantos
são: 12% da comunidade nipo-brasileira
Miscigenados*:
0%
Faixa
etária: entre 35 e 100 anos ou mais
Profissões
mais comuns: agricultores, comerciantes e prestadores de serviço (a
maioria já aposentada)
*
Têm pelo menos um ascendente não japonês
Fonte:
"Pesquisa da população de descendentes de japoneses residentes
no Brasil" (1988), Célia Oi, historiadora