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Edição 1 717 - 12 de setembro de 2001
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Roberto Pompeu de Toledo

O problema que o
Brasil não quer ver

Mesmo que os velhos argumentos
se mostrem gastos, não se encara
a questão da discriminação racial

Quem deve ser considerado negro no Brasil? A questão tem lá sua complexidade. O Brasil é por excelência o país da mestiçagem. Entre os negros-negros e os brancos-brancos há uma vasta gama de tons de pele que ora pode ser remetida ao grupo dos brancos, ora ao dos negros, dependendo do observador e das circunstâncias. O próprio presidente da República define-se como não-branco. "Tenho um pé na cozinha", costuma dizer, de modo não muito elegante. É um exagero. Pelos padrões brasileiros, ele é branco. Já pelos padrões dos Estados Unidos... Lá ele não escaparia de uma classificação entre o moreno do tipo mediterrâneo, o menos branco dos brancos, e o escurinho do norte da África, o menos negro dos negros. Isso se não merecesse equiparação com os indianos e paquistaneses. Branco de verdade é o que, exposto ao sol, fica vermelho. Isso ele não é.

No Brasil, para voltar ao começo, é mesmo complexa a questão de definir quem é o quê, mas isso não deve servir – este é o nosso ponto – de argumento para a inação, quando se defende a adoção de políticas de promoção do negro. Ocorre que é isso, justamente, o que se faz há muito tempo – e é o que de novo se está fazendo agora, no momento em que a questão da discriminação racial voltou à baila, na esteira da Conferência das Nações Unidas contra o Racismo, realizada em Durban, na África do Sul. A delegação brasileira apresentou-se com um punhado de denúncias e reivindicações. Entre estas, o estabelecimento de cotas para garantir o acesso dos negros às universidades. Veio então, de vários lados, a indagação: mas como definir quem é negro? Trata-se de objeção cujo efeito é nada menos do que fazer parar tudo. Se não se sabe quem é negro, como promover os negros? O argumento é o segundo melhor, para justificar a inação nesse assunto. O primeiro é negar que haja discriminação racial no Brasil.

Os dois argumentos têm exibido fôlego, ao longo da história do Brasil, mas a verdade é que se apresentam enfraquecidos. No que se refere à negação da discriminação racial, não bastassem as evidências que saltam à vista, há um arsenal de dados, do IBGE, do Ipea ou da Fundação Seade, de São Paulo, que provam o contrário. Para lembrar apenas alguns, citados na edição passada desta revista, os negros e pardos constituem metade da população, mas ocupam apenas 16% das vagas nas universidades, e a renda média de um branco (400 reais) é mais que o dobro da de um negro (170 reais). Quanto ao problema de classificar quem é negro no Brasil, já se reconheceu que a questão tem mesmo sua complexidade, mas o curioso é que, na hora de discriminar, as dificuldades desaparecem. Entre-se num restaurante fino. Não há negros. E não entre a clientela – desse lado, seria surpreendente que os houvesse. Não há negros entre os garçons. O dono do restaurante, ao selecioná-los, soube muito bem distinguir quem é negro. Assista-se a uma batida policial. A possibilidade de um negro ser parado para mostrar os documentos, se é que não o obrigarão a coisa pior, é bem maior que a de um branco. Os encarregados da batida, mesmo sendo eles próprios negros ou mulatos, sabem fazer a seleção.

A discriminação racial no Brasil tem sido historicamente negada, ou pelo menos rebaixada de importância, por uma conjunção que, por vias transversas, une a direita e a esquerda. A direita, que por princípio não quer mudar nada, acredita, ou finge acreditar, na "democracia racial". Ora, se há democracia racial, um achado que vem a calhar, para que mudar? A esquerda aposta na luta de classes. O problema é classe, não raça, e só será solucionado com o assalto definitivo ao sistema capitalista. As dificuldades, nesse caso, são duas, às quais se acrescenta um inconveniente de cruéis conseqüências. A primeira dificuldade é que, reconheça-se, está cada vez mais difícil derrubar o capitalismo. A segunda é que, mesmo derrubado, não se impõe como corolário inevitável que desapareçam o preconceito e a discriminação. O inconveniente de cruéis conseqüências é ficar adiando tudo para o dia do grande advento da justiça universal. E, enquanto isso, os negros que agüentem?

O enfraquecimento dos melhores argumentos em favor da inação significa que desta vez se vai fazer algo? Releve o leitor o pessimismo, mas provavelmente não. Passada a onda ocasionada pela conferência de Durban, o assunto desaparecerá dos meios de comunicação e a experiência indica que se voltará à letargia de sempre. A verdade é que a sociedade brasileira não se escandaliza, diante desse problema, como se escandaliza, por exemplo, com a corrupção. A explicação para isso talvez esteja no fato de a corrupção, no imaginário popular, ocupar um lugar preciso e distante: o lado de lá, dos outros, dos odiados políticos. Já a discriminação, forçoso é reconhecer, está do lado de cá, bem no meio de todo mundo, e é sempre doloroso encarar as próprias feridas. Se a sociedade não se escandaliza, não se mobiliza. E assim vamos nós no rumo de sempre. O rumo do nada.

   
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