
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Roberto
Pompeu de Toledo
O
problema que o
Brasil
não quer ver
Mesmo
que os
velhos argumentos
se
mostrem gastos,
não se
encara
a
questão da discriminação racial
Quem deve ser considerado negro no Brasil? A questão tem lá
sua complexidade. O Brasil é por excelência o país
da mestiçagem. Entre os negros-negros e os brancos-brancos há
uma vasta gama de tons de pele que ora pode ser remetida ao grupo dos
brancos, ora ao dos negros, dependendo do observador e das circunstâncias.
O próprio presidente da República define-se como não-branco.
"Tenho um pé na cozinha", costuma dizer, de modo não muito
elegante. É um exagero. Pelos padrões brasileiros, ele é
branco. Já pelos padrões dos Estados Unidos... Lá
ele não escaparia de uma classificação entre o moreno
do tipo mediterrâneo, o menos branco dos brancos, e o escurinho
do norte da África, o menos negro dos negros. Isso se não
merecesse equiparação com os indianos e paquistaneses. Branco
de verdade é o que, exposto ao sol, fica vermelho. Isso ele não
é.
No Brasil, para voltar ao começo, é mesmo complexa a questão
de definir quem é o quê, mas isso não deve servir
este é o nosso ponto de argumento para a inação,
quando se defende a adoção de políticas de promoção
do negro. Ocorre que é isso, justamente, o que se faz há
muito tempo e é o que de novo se está fazendo agora,
no momento em que a questão da discriminação racial
voltou à baila, na esteira da Conferência das Nações
Unidas contra o Racismo, realizada em Durban, na África do Sul.
A delegação brasileira apresentou-se com um punhado de denúncias
e reivindicações. Entre estas, o estabelecimento de cotas
para garantir o acesso dos negros às universidades. Veio então,
de vários lados, a indagação: mas como definir quem
é negro? Trata-se de objeção cujo efeito é
nada menos do que fazer parar tudo. Se não se sabe quem é
negro, como promover os negros? O argumento é o segundo melhor,
para justificar a inação nesse assunto. O primeiro é
negar que haja discriminação racial no Brasil.
Os dois argumentos têm exibido fôlego, ao longo da história
do Brasil, mas a verdade é que se apresentam enfraquecidos. No
que se refere à negação da discriminação
racial, não bastassem as evidências que saltam à vista,
há um arsenal de dados, do IBGE, do Ipea ou da Fundação
Seade, de São Paulo, que provam o contrário. Para lembrar
apenas alguns, citados na edição passada desta revista,
os negros e pardos constituem metade da população, mas ocupam
apenas 16% das vagas nas universidades, e a renda média de um branco
(400 reais) é mais que o dobro da de um negro (170 reais). Quanto
ao problema de classificar quem é negro no Brasil, já se
reconheceu que a questão tem mesmo sua complexidade, mas o curioso
é que, na hora de discriminar, as dificuldades desaparecem. Entre-se
num restaurante fino. Não há negros. E não entre
a clientela desse lado, seria surpreendente que os houvesse. Não
há negros entre os garçons. O dono do restaurante, ao selecioná-los,
soube muito bem distinguir quem é negro. Assista-se a uma batida
policial. A possibilidade de um negro ser parado para mostrar os documentos,
se é que não o obrigarão a coisa pior, é bem
maior que a de um branco. Os encarregados da batida, mesmo sendo eles
próprios negros ou mulatos, sabem fazer a seleção.
A discriminação racial no Brasil tem sido historicamente
negada, ou pelo menos rebaixada de importância, por uma conjunção
que, por vias transversas, une a direita e a esquerda. A direita, que
por princípio não quer mudar nada, acredita, ou finge acreditar,
na "democracia racial". Ora, se há democracia racial, um achado
que vem a calhar, para que mudar? A esquerda aposta na luta de classes.
O problema é classe, não raça, e só será
solucionado com o assalto definitivo ao sistema capitalista. As dificuldades,
nesse caso, são duas, às quais se acrescenta um inconveniente
de cruéis conseqüências. A primeira dificuldade é
que, reconheça-se, está cada vez mais difícil derrubar
o capitalismo. A segunda é que, mesmo derrubado, não se
impõe como corolário inevitável que desapareçam
o preconceito e a discriminação. O inconveniente de cruéis
conseqüências é ficar adiando tudo para o dia do grande
advento da justiça universal. E, enquanto isso, os negros que agüentem?
O enfraquecimento dos melhores argumentos em favor da inação
significa que desta vez se vai fazer algo? Releve o leitor o pessimismo,
mas provavelmente não. Passada a onda ocasionada pela conferência
de Durban, o assunto desaparecerá dos meios de comunicação
e a experiência indica que se voltará à letargia de
sempre. A verdade é que a sociedade brasileira não se escandaliza,
diante desse problema, como se escandaliza, por exemplo, com a corrupção.
A explicação para isso talvez esteja no fato de a corrupção,
no imaginário popular, ocupar um lugar preciso e distante: o lado
de lá, dos outros, dos odiados políticos. Já a discriminação,
forçoso é reconhecer, está do lado de cá,
bem no meio de todo mundo, e é sempre doloroso encarar as próprias
feridas. Se a sociedade não se escandaliza, não se mobiliza.
E assim vamos nós no rumo de sempre. O rumo do nada.
|
|
 |
|
 |

|
 |